Mais rigor com trânsito mas Governo fica fora
Impor mais rigor contra os que cometem delitos de trânsito é necessário, mas o Governo fica livre de sanções pelas suas irresponsabilidades, como a precariedade das rodovias, os buracos das ruas, a sinalização deficiente - falhas que propiciam acidentes, aleijam e ceifam vidas e destroem veículos. Criou-se o hábito de apenas punir os motoristas - que compõem uma parcela considerável de imprudentes -, mas o próprio sistema não cria mecanismos de punição a si próprio.
As obrigações dos condutores de veículos e do poder público são mútuas. Apenas corrigir uma das partes pelo rigor da punição para quem dirige imprudentemente não eliminará a totalidade do problema, porque restarão os perigos citados e inclusive dos caminhos rurais. Manter uma boa estrutura de tráfego é dever dos governos porque os usuários pagam pesados impostos para isso, sem a suficiente contrapartida em benefícios. Onde existe pedágio a fiscalização é também incumbência do poder público.
Há que punir os maus motoristas, aí incluídos os que se excedem na velocidade e fazem rachas, mas é cômoda a posição dos legisladores em impor mais severidade só a quem dirige, porque assim desviam da atenção a infração governamental de não cumprir a sua parte no processo. Endurecer é preciso, sem ternura para com os imprudentes, mas instituições como o Ministério da Justiça (que tem promovido audiências públicas a respeito), a Comissão de Viação e Obras Públicas da Câmara Federal (onde tramita o projeto de alteração do Código de Transito) e a Ordem dos Advogados do Brasil (que avalia essa questão) devem fazer carga pesada também sobre o drama das rodovias ''criminosas'', demais deficiências do sistema e o abuso de certas multas, porque só a existência de bons motoristas não basta para eliminar os problemas do trânsito. Ou o conserto se fará apenas pela metade. Os caminhoneiros (muitos deles também imprudentes e abusando do tempo ao volante) sabem do perigo das péssimas rodovias e dos danos que seus veículos sofrem, mas o Governo, ciente disto, investe pouco na estrutura rodoviária.
Fortunas são arrecadadas com destinação prevista para a conservação de estradas e com sobra para duplicação e melhor sinalização, mas sabe-se que muito de todo o dinheiro arrecadado destina-se a cobrir o custo abusivo da estrutura burocrática governamental, onde pontificam soberanas a farra pública e a corrupção. É hora de os organismos pertinentes endurecerem também contra a negligência dos governos e não se fazerem de desinformados.
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