Não é comum o Governo diminuir alíquotas de imposto para enfrentar momentos de crise, mas é o que as autoridades monetárias anunciam, parecendo haver harmonia entre o que quer o presidente Lula e o que pensam (agora sem pontos divergentes) o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Pensando primeiro em socorrer a indústria automobilística, a de motos e a construção civil, foi incluída no pacote a agricultura. O ministro Reinhold Stephanes foi imcumbido de dizer o que é preciso nessa área.
Natural que os monetaristas oficiais estão de olho também na arrecadação tributária que, de qualquer modo, cairá R$ 8 bilhões no ano que vem, pelo cálculo que fazem. O Governo quer salvar também a sua lavoura, embora não cogite reduzir o custo abusivo da máquina pública.
É fazer a roda girar - declara o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo. Expressão conhecida no círculo mais inteligente dos economistas e estrategistas, mas pouco usada (e pouco levada à prática) no âmbito das cabeças governamentais. Porque até recentemente ouvia-se dessas fontes que era preciso conter o consumo, à guisa de combater a inflação, mesmo que isso resultasse na estagnação dos setores da produção. Parece que foi necessária uma crise financeira mundial para os mentores governamentais das finanças entenderem que, como natural consequência, um maior giro de negócios resulta em mais receita tributária. Como fizeram rapidamente outros países depois que irrompeu nos Estados Unidos o fato motivador da crise, o Brasil concluiu que é preciso injetar mais dinheiro na economia, manter os investimentos públicos em grandes obras e, além dos setores mencionados, fomentar a exploração e extração de petróleo e outras fontes energéticas. O projeto do Governo é também investir em campanha publicitária para incentivar a população a consumir.
Lula não dá ponto sem nó e pensa em encerrar sem turbulência seus dois últimos anos de mandato, pensando também em fazer o sucessor dentre os de suas fileiras. Nesses empenhos, que têm ingrediente político mesclado com o temor de queda na arrecadação, o Governo acaba acertando. Se a crise no mundo, com respingos no Brasil, tem origem financeira, é por esse remédio - uma esparrama de dinheiro - que se irá curá-la, seja por financiamento público, naturalmente sem a imprudência acontecida nos EUA, seja por incentivo ao consumidor para que não deixe de comprar - e não abusivamente mas de forma moderada, para que não fique inadimplente e deixe as coisas ainda piores.

mockup