Em novembro de 1988 lancei meu primeiro livro intitulado ‘‘O voto da pobreza e a pobreza do voto: a ética da malandragem’’. Passados quase dez anos constato através das pesquisas divulgadas pela imprensa, que as reações do eleitorado continuam em essência semelhantes àquelas que analisei em meu trabalho, apesar do eleitor estar bem mais perceptivo. Na verdade, com o correr do tempo, é o eleitor de resultados em oposição ao eleitor de ilusões que aos poucos vai emergindo de eleição em eleição, conforme já constatei inúmeras vezes neste Espaço Aberto, e isto prova que houve um amadurecimento do eleitorado brasileiro como um todo. Entretanto, o perfil do eleitor, especialmente o do mais pobre, não se alterou basicamente.
É verdade que na década de 80 os analfabetos de pai e mãe, ou seja, os rigorosamente analfabetos, chegavam a 20%, e agora foram reduzidos a aproximadamente 8% da população. Contudo, recentíssima pesquisa do Tribunal Regional Eleitoral mostrou que dois terços dos eleitores se encontram na categoria dos analfabetos funcionais, (utilizei esse mesmo termo em meu livro) ou seja, aqueles que sabem apenas rabiscar o nome. A maioria no Brasil também ainda é pobre apesar do nível de vida das populações brasileiras ter aumentado sobretudo por conta da estabilização da economia gerada pelo Plano Real. Portanto, esses dois fatores interdependentes, pobreza e educação, mantêm suas características básicas, o que explica a constância de certas reações, atitudes e comportamentos do eleitorado.
Para exemplificar o que afirmo, recorro a uma pesquisa atual do Instituto Vox Populi. Segundo um dos resultados obtidos nesse trabalho, ‘‘o eleitor aceita a doação de qualquer benefício, não vota necessariamente no candidato que lhe deu o presente’’. No ‘‘O voto da pobreza’’, assinalei: ‘‘A obtenção de favores, comum nas épocas eleitorais, vestígio nos centros urbanos do ‘coronelismo’ do Brasil rural e interiorano, funciona atualmente de forma mais malandra. Nem sempre se responde com o voto aos candidatos que, empregando o dinheiro, favores, presentes, ou atendendo pedidos de toda ordem, pensam em receber em troca lealdade e gratidão dos que na sua miséria deveriam ficar agradecidos pelas dádivas recebidas’’.
Em seguida, ilustrei a maneira como alguns candidatos se preveniam diante dessa realidade, citando uma matéria do Jornal do Brasil de 30/3/86:
‘‘No Ceará, região do Cariri, é comum, nos períodos pré-eleitorais, os candidatos oferecerem, além de facilidades para obtenção dos títulos eleitorais, presentes em troca de promessa de voto. Óculos, chinelos, dinheiro e até dentaduras entram no negócio. No caso das dentaduras, o eleitor na fila vai provando, uma a uma, até encontrar a que lhe encaixe na boca. Outras voltam para uma lata d’água, à espera do próximo cidadão. Com dinheiro, a nota é rasgada no meio. Metade fica com o eleitor; a outra metade, ele recebe depois da eleição, se o candidato tiver os votos que espera naquela urna. Os chinelos, acontece o mesmo: um pé na hora de tirar o título, ou outro depois de dar o voto’’.
Outro aspecto recentemente captado pelas pesquisas diz respeito à indiferença do eleitorado diante da campanha em curso. Isto se acentua com relação à escolha de deputados e senadores, que ainda não foram escolhidos por 90% do eleitorado. Mas se hoje, por conta do processo político e alguns fatores do momento, a eleição é mais ‘‘fria’’ do que as anteriores, a apatia do eleitor diante do Poder Legislativo é muito semelhante a do passado. No ‘‘O voto da pobreza’’, observei:
‘‘Em 86, as atenções estavam inteiramente voltadas, em todo o Brasil, para os candidatos a governador e não para os aspirantes aos outros cargos, não obstante tenha sido a eleição que definiu a Assembléia Nacional Constituinte. Mas não apenas nesse pleito tal fenômemo ficou evidente. Sempre foi assim. O mesmo ocorre quando há eleições municipais. A candidatura do prefeito é a que consegue monopolizar as atenções. A dos vereadores funciona mais como se esses fossem figurantes do show político’’.
A pesquisa da Vox Populi também redescobre que apesar do baixo nível de instrução da maioria dos eleitores brasileiros, eles estão longe de serem os desinformados que podem facilmente ser enganados. Isso me recordou as entrevistas que fiz com analfabetos e semi-analfabetos, e que constam do ‘‘O voto da pobreza’’ onde afirmei que, interessados por política , eles se voltam para as informações com atenção e curiosidade. Desse modo, me disse a favelada e semi-analfabeta Maria Rosa, espelhando a opinião geral dos que ouvi: ‘‘Gosto de ouvir os políticos falando no rádio. Dependendo do político gosto mais. Na televisão, para falar a verdade, gosto muito da notícia. E gosto de ouvir os políticos também’’.
E o Baiano Saboeiro me segredou anos atrás: ‘‘Mas o voto vai mesmo é para quem nos ajudar de verdade’’. Portanto, que ninguém duvide hoje da força do Plano Real. O povo quer mais governo e menos campanha.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga

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