Mais gols e menos faltas
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quinta-feira, 08 de agosto de 2019
Folha de Londrina 
Faz algum tempo que a política assumiu no Brasil um espaço equivalente ao do futebol: todos os dias emoções variadas tomam conta da população, um nervosismo de time em campo, uma expectativa em relação aos juízes, um clima de torcidas que se digladiam ou quase.

Na quarta-feira (7) mais uma vez a política nacional tomou conta dos noticiários, com chamadas urgentes nos sites e nas tevês, por causa da possibilidade do ex-presidente Lula ser transferido da superintendência da Polícia Federal em Curitiba – onde se encontra preso desde 2018 – para a penitenciária de Tremembé, em São Paulo. Num clima de apostas, nas redes sociais havia opiniões sobre tudo: desde de a torcida para que ele não fosse transferido até o drama de que no trajeto ele pudesse “sofrer algum atentado'.
Depois de um dia de expectativas, o STF decidiu por maioria que o ex-presidente ficaria mesmo na capital do Paraná, atendendo a um pedido da sua própria defesa. E lá se ia mais um dia de expectativas transferidas para o campo político num país que, durante décadas, só sofria dos nervos por causa do esporte.
Antecedendo a possibilidade de transferência de Lula, outro “capitão” de time tem dado motivos para seus torcedores e adversários se descabelarem frente a uma atmosfera de surpresas que balançam o noticiário como bola na rede em dia de gols contra.
Enfileirando jogadas, nem sempre aplaudidas, o presidente Jair Bolsonaro navega águas turbulentas mirando vários alvos: ora dispara em cima do meio ambiente, tentando alvejar o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), ora dispara contra a Fiocruz ou o IBGE, em franca caçada aos dados fornecidos pelas instituições de pesquisa, ora mira os jornais baixando uma MP que fragiliza ainda mais as relações empresariais e de trabalho num país que já não se encontra feliz como num campo de esportes, mas como campo minado.
O fato é que há décadas o Brasil não respira a atmosfera da tranquilidade perdida que permeava governos que causaram menos turbulências e menos naufrágios. Dias em que o Ministério da Agricultura, na gestão de José Eduardo de Andrade Vieira, em vez de anunciar a liberação de mais agrotóxicos, criava o Proaf , um projeto ousado que forneceu crédito rural a milhares de famílias de pequenos e micro agricultores, fossem eles donos da terra, arrendatários, meeiros ou porcenteiros.
Da mesma forma, perdem-se numa longa estrada de disputas os anos em que Lula navegava nas águas tranquilas da valorização das commodities que em toda década de 2000 permitiram excelentes resultados ao Brasil na exportação de minérios e grãos, favorecendo ainda cadeias produtivas como a venda de maquinários agrícolas e caminhões.
Na esteira da recessão econômica que se apresenta ainda como uma tempestade de fortes ventos, todas as bandeiras tremulam atualmente num clima de insegurança que parece um desses jogos de tensão permanente nos quais os torcedores levam um susto a cada passe errado, sentem um sobressalto a cada bola na trave, uma angústia a cada vez que um juiz vai definir o jogo sem que os cidadãos saibam ao certo qual apito ele toca.
De olho no futuro, driblando caminhos íngremes num campo minado, os brasileiros esperam ainda a vista espetacular de um país pacificado retomando seu rumo. E que num pódio simbólico haja troféus para todos com mais gols e menos faltas.
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