Mais do que movimento feminista
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 07 de março de 1997
Letícia Gorri Molina 
Ao enveredarmos pelo campo teórico, com relação ao tema Movimento Feminista/Movimento do Gênero Humano, vemos que há duas décadas um certo furor atacou diversos campos do saber, ligados aos movimentos feministas, o que representa uma tentativa de dar estatuto de saber à vivência e estudos sobre a mulher. Era a época de viabilizar a história da classe trabalhadora, de força de trabalho na indústria. De uma certa maneira, caminhavam interligados o campo teórico e os movimentos que gestavam no país, pós anos 70. A luta pela abertura política no Brasil teve um impulso maior com a vinda de militantes exilados pelo regime ditatorial, já que em outros países a discussão sobre a opressão feminina se encontrava em estágios bem avançados. Estes encontros/desencontros internacionais fizeram surgir a afirmação do movimento feminista no Brasil: viabilizar o feminismo enquanto elemento qualitativo e construtivo da população e das instituições brasileiras. Afirma-se desta época, já início dos anos 80, temáticas que levassem em conta a importância da participação das mulheres no seio dos partidos/sindicatos, movimentos de bairros/instituições em geral, tentando apontar para a ocupação de um segmento importante, qualitativamente numeroso no âmbito do macrossocial.
Num segundo momento nessa história da construção do conceito de Gênero Humano, mais do que movimento feminista, gestava-se uma outra necessidade dentro dos diversos movimentos. Precisava-se entender a identidade feminina, desvendando as relações do cotidiano. Havia, por um lado, resistência social e acadêmica a estas idéias e, por outro, as mulheres feministas, na busca de tentar atender a especificidade de ser mulher, ainda se colocavam nos seus guetos. Essa atitude visava poder responder às inúmeras provocações por parte dos companheiros que, reafirmando a assimetria do masculino e feminino na sociedade, afirmavam, por exemplo, que a compreensão do surgimento do movimento operário brasileiro não mudou porque souberam que as mulheres participavam da sua formação.
Um terceiro momento, atual, no qual a discussão do feminino/masculino busca lutar contra guetos e resgatar aliadas (os). Se os movimentos de mulheres e feministas tinham descerrado os véus da invisibilidade no seio dos movimentos sociais, ainda assim se encontravam nos guetos. Embora politizando os espaços públicos e afirmando que o privado também era importante, pois esse era um grito necessário, acabavam falando delas para elas mesmas. A construção cultural, a linguagem, a moralidade, a ética, as institucionalidades das mais diversas (medicina, justiça, igreja, saber científico, etc), regentes da sociedade, estão impregnadas por um discurso do chamado Outro e o dominante social teimava em vir à tona. Resgatar o ser mulher foi importante para os diferentes movimentos, mas não significou mudanças nas relações sociais expressas nas práticas cotidianas, nas práticas institucionais.
Mais do que espelhar a construção, é o momento de buscar entender o que particulariza a totalidade e o contrário. Com estes elementos em mãos podemos buscar, nesta etapa do movimento de mulheres, compreender a noção de Gênero Humano enquanto possibilidade de instaurar o diálogo no seio dos movimentos e da Ciência. Este momento pertence à todos nós, Gênero Humano, e só através da compreensão de todo este megassitema é que poderemos ser plenos, homens e mulheres.


