Mais cuidado com os peixes
PUBLICAÇÃO
domingo, 25 de maio de 2003
Paulo Cezar Basilio 
Dois pescadores seguiam pelo caminho numa pequena carroça, contentes, levando em alguns cestos uns peixes de variado tamanho, resultado de muita paciência e perspicácia. Comentavam entre si o quanto eram bons no manejo dos anzóis e das redes.
Jamais tinham voltado para casa sem levar as amostras de suas qualidades pesqueiras, fato que deixava a criançada muito orgulhosa de seus pais, verdadeiros pescadores, muito além dos causos. Com eles não tinha conversa. O maior não ficava na água, estava ali, pronto para a panela, ao alcance de toda a família.
Mas neste dia em que vemos os dois deslizando no campo livre, radiantes por mais um feito que irá prolongar a reputação de mestres da pesca, lá na frente, com o estômago fino, encontrava-se uma raposa. Completamente dominada pela fome, o animal ardiloso sente o cheiro de peixes e percebe a aproximação da carrocinha.
Uma raposa mesmo bem alimentada, quando pode, é capaz de atacar a sua presa simplesmente pela satisfação de subjugar a desafortunada que não consegue lhe opor resistência. Imaginem o que não fará agora essa desesperada vilã, louca por uns bocados. Ah! Satisfeitos pescadores se alguém os avisasse...
Que nada, os heróis da carroça são incapazes de qualquer precaução. Conheciam bem o lugar. Não havia assaltantes. Podiam continuar assim, conversando, rédeas folgadas, viajando no falatório para além do que aquela estrada os levava.
Rapidamente a raposa deita-se, fazendo-se de morta. O primeiro pescador que a enxergou caída, indefesa, no meio da passagem fica encantado. Que animal mais bonito! Nunca vi uma pele tão perfeita. O outro concorda em recolhê-la. Isso tudo para completar o dia de sorte. Bons peixes mais uma linda pele, que maravilha, comentavam os homens ao jogar a raposa entre os cestos.
A viagem continuou. Logo se aproximariam da vila e era preciso decidir com quem ficaria a magnífica pele que a sorte de pescador lhes presenteou. Não houve acordo. Resolveram dividí-la. Quando chegaram, com a peixeira em punho foram à tarefa.
Repartir? Não havia mais raposa. Apenas alguns peixes menores com marcas de mordidas testemunhavam o rápido, porém farto banquete! Duas lições (entre outras):
1) Nunca se encante por uma raposa: quanto mais frágil aparentar, mais preparada estará para atacar.
2) Jamais conte com o peixe fora da frigideira.
PAULO CEZAR BASILIO é professor e vereador em Pinhão.


