O governo fez menos do que parecia. A oposição fez mais do que se imaginava. Isto quer dizer que essa eleição não foi aquela pasmaceira que se imaginava, que estava sendo anunciada. Houve movimento. Houve deslocamento, geração de energia. E isso é avanço. É esperança. Mostra que o processo de aprimoramento da democracia está em curso.
O processo não foi interrompido apesar do uso que se fez das pesquisas e das doses industriais de marketing manipulador de imagens. Ainda falta muito, o caminho é muito longo, mas depois das eleições já se pode acreditar em um certo amadurecimento.
Nesse primeiro momento a lição das urnas ensina que o governo não poderá ser tão arrogante e a oposição não poderá ser inconsequente. Talvez para o governo não haja saída. Está sentado com a crise no colo e vai ter de enfrentar essa situação da frente, não dá mais tempo para tergiversar. E felizmente parece que a taxa de sensatez nos palácios de Brasília aumentou bastante nesses últimos dias.
A oposição não pode fingir que o assunto não é dela. A oposição não pode se esconder. Já foi chamada para a discussão e precisa aceitar o convite. Talvez a história que foi escrita nessa eleição tenha um fundo pedagógico que ensina o pessoal da esquerda, da oposição, que eles também são responsáveis pelo que acontecer. As votações milionárias de José Genoino, de Miro Teixeira, de Marcelo Déda e de várias outras figuras qualificam a oposição como interlocutora. E mais importante ainda: dá a oposição o poder de tentar influir, e até modificar, políticas de governo que estão sendo preparadas para a crise. Acabou o período da adolescência. Agora o comportamento precisa ser adulto e coerente.
Depois dessa eleição até que dá para ser um pouco otimista quando se descobre que o voto não é tão bobo quanto parece. Ele tem a sua lógica e não é dado de graça por aí. Talvez o exemplo mais claro dessa sabedoria seja a derrota do ex-ministro da Previdência, Reinhold Stephanes que foi barrado na Câmara depois de quatro mandatos.
Que bom se depois dessa nós ficássemos livres dos marqueteiros. Isso ainda não é para já. Mas o quadro mostra que as pessoas estão começando a desconfiar da imagem sedutora que passa na televisão. O massacre foi tão grande que talvez tenhamos chegado ao fastio da imagem virtual embrulhada em celofane e papel alumínio. Os fazedores de sonho mentiroso devem ter tomado um susto. Devem ter percebido que as coisas não têm só um caminho. Os eleitores estragaram o espetáculo, descobriram os truques desses mágicos mambembes.
Por outro lado, é preciso ter cuidado com o otimismo porque a televisão ainda continua brincando de esconde-esconde. Mais preocupada com a baleia da Disneylândia, com a cacatua que toma sorvete e com a macaca devassa. E os políticos ainda aparecem com o rosto envernizado e polido prometendo coisas que não podem cumprir.
Mas vá lá, até que foi bom.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo

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