Mais que o mero instinto de preservação da espécie, a maternidade é fundamental, pois é o apogeu da essência feminina. É desabrochar da existência, amor desprendido, doação perfeita, laço mais profundo, integração íntima que passa pela gestação e se perpetua vida afora.
Mãe é elemento universal, elo da coesão familiar, unidade primordial de organização da sociedade. E não importa a raça, o credo, a cultura, a classe social pois em toda a parte do mundo quando um filho chora, a mãe acode; quando ele está em perigo, ela o protege; e quando a criança chama, só pelo prazer de chamar, a mãe responde.
Mães são guardiães da vida. Quando o filho ainda está no seu corpo, ela o nutre com seu sangue, quando nasce, o alimenta com seu leite; e pela vida afora mães cuidam e se preocupam com seus filhos, o que é uma forma de estar sempre lhes transmitindo vida.
Em todas as sociedades e em todos os tempos, a figura materna é uma das mais respeitadas, na verdade, quase sagrada. E sagrada ela o é em todas as religiões a partir da dualidade que une homem e mulher e se desfecha na trindade através do filho. No Egito dos tempos imemoriais, por exemplo, Ísis, mulher de Osíris, era mãe de Hórus, muitas vezes adorado como criança divina. Ela criou o filho em isolamento para protegê-lo do perigo, e ele se tornou o deus nacional do Egito e ancestral dos faraós, que chamavam a si mesmos de ‘‘Hórus vivos’’.
Na Grécia Antiga, Deméter era cultuada como a Mãe-Terra. Acreditava-se que sua filha Perséfone fora raptada por Hades, deus do mundo inferior. Perséfone permanecia com Hades por quatro meses, passando o resto da ano com sua mãe, e seu retorno à superfície simbolizava a vinda da primavera, quando a feliz Deméter dava vida às plantas.
Na Índia, a Deusa-Mãe (Mahadevi) manifesta-se tanto como consorte das principais divindades masculinas como de uma forma genérica, que encerra milhares de deusas locais. Estas podem ser benignas e frutuosas, como Lakshmi ou Parvati, ou poderosas ou destrutivas como Kali e Durga.
Na cristandade, Maria é a mãe de Jesus e, no Brasil, o mês de maio e o mês das mães e o mês de Maria. Mês do azul mais intenso durante o dia, dos belos pores-do-sol, das noite mais estreladas. E nas horas de aflição os filhos de Maria suplicam pedindo-lhe proteção: ‘‘A Vós suspiramos, gememos e choramos nesse vale de lágrima.’’
Mãe há de todo o jeito. Algumas são suaves. Outras, severas. E qual mãe já não se impacientou diante das travessuras dos filhos pequenos ou dos erros dos filhos adultos? Mas da palmada ao xingatório, das pequenas implicâncias ao zelo excessivo, tudo é amor de mãe e os filhos acabam compreendendo. É que nessa relação especial, de ambas as partes prevalece uma capacidade infinita de perdão.
Há mães que não podendo gerar um filho de sua carne trazem ao mundo um filho do seu coração. Dá na mesma com aqueles que são adotados, pois não faltam às mães que os receberam as noites sem dormir, as preocupações e os desvelos, as alegrias e os cuidados que um filho requer, prevalecendo assim o constante amor de que são feitas as mães.
Existem tias que são como mães dos sobrinhos. Freiras, que cuidam de todos como se fossem seus filhos, porque todos são filhos de Deus. Essas e muitas outras, que não podendo gerar filhos deram um jeito de exercer a maternidade, são mães sem parto.
Existem, é claro, as mães desnaturadas que abandonam seus filhos ou que convivendo com eles lhes são indiferentes. Mas não as julguemos, porque ninguém pode julgar o desespero dos outros. Entretanto, umas das coisas mais dolorosas para um filho é o abandono ou a indiferença de sua mãe. Lembrem-se disso aquelas as quais foi dado o dom da maternidade.
Para compensar as mães desnaturadas existem as avós, duplamente mães, duas vezes privilegiadas. Mais maduras e experientes, elas muitas vezes consertam os erros cometidos com seus filhos através do netos. Portanto, muitas vezes as avós enxergam com mais nitidez o renovar da vida. Elas podem entender bem o que escreveu Guimarães Rosa: ‘‘Nasceu um menino. O mundo vai começar outra vez.’’
E há as mães que perderam seus filhos, sendo esse sofrimento um dos mais dolorosos entre os que existem. Mas tanto para essas, quanto para todas as demais, que a homenagem do Dia das Mães esteja no poema de Khalil Gibran: ‘‘Teus filhos não são teus filhos/ São filhos e filhas da vida por si mesma./ Eles vêm através de ti, mas não de ti/ E embora estejam contigo, não te pertencem. Poderás dar-lhes teu amor, mas não teus pensamentos/ pois eles têm seus próprios pensamentos./Poderás acolher seus corpos, mas não suas almas,/pois suas almas habitam a mansão do amanhã/que não podes visitar nem mesmo em sonhos./ Poderás tentar ser como eles, mas não tentes torná-los semelhantes a ti/pois a vida não pára nem se atrasa com o dia passado. Tu és o arco pelo qual teus filhos como flechas vivas, são projetados/O Arqueiro vê o alvo no caminho do infinito, e Ele te dá Sua força para que suas flechas voem céleres para longe./Que tua firmeza pela mão do arqueiro seja para a alegria;/pois assim como ele ama a flecha que voa, ama o arco que permanece firme.’’
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
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