‘‘A saudade é uma voz que vem de toda parte e voz que ecoa atravez (sic) da noite vinda de alguma estrela perdida no infinito de algum astro peregrino ou talvez do meu próprio coração que anseia pela seu minha querida filha’’.
  As palavras se espremem na letra miúda e bem feita de Marilza de Oliveira Valentim, 48 anos. O texto acima é um trecho de uma das dezenas de cartas que ela escreveu para a filha Valdinéia. Todas registradas num velho caderno universitário, guardado em cima do guarda-roupas. Um caderno-livro, onde Marilza registrou a tristeza pela separação da filha, a saudade, a preocupação e a esperança de que Valdinéia um dia voltasse para casa.
  A história, que teve um final feliz, é como milhares de outras histórias que retratam os dramas humanos. O caderno e as cartas, no entanto, tornam essa história uma história especial.
  Marilza estudou só até a 3ªsérie. Quem lê as cartas, porém, fica surpreso com o vocabulário, a poesia misturada na prosa e a capacidade de manifestar sentimentos profundos. ‘‘No tempo que eu estudei não era que nem hoje, a minha terceira série vale pela quinta de hoje. Naquela época, pra passar de ano tinha que saber a matéria. Hoje, você põe o filho na escola e ele passa direto, mesmo sem saber nada’’, diz Marilza.
  No barraco onde ela mora, no Assentamento Novo Amparo (Zona Norte), outra surpresa: retalhos de mármore e granito no banheiro, sofá com capa, tapetes no chão, desenhos na parede. Tudo limpo, bem arrumado, alegre. Tudo construído por ela e a filha: ‘‘Fizemos as paredes, o assoalho, a cerca... quase morremos para trazer as pedras do banheiro até aqui mas valeu a pena, ficou chique no úrtimo (sic)!’’, brinca Marilza.
  Sentada no sofá, ao lado de um gato e das duas netas, como qualquer outra vovó de contos de fada, Marilza conta a história do caderno. Criada só pelo pai e com uma madrasta ‘‘daquelas’’, Marilza colocou na única filha todos os sonhos e toda sua capacidade de amar. Quando a menina tinha 12 anos arrumou um namorado e engravidou. Veio a primeira neta, Rafaela.
  ‘‘Eu fazia qualquer coisa para manter as duas, até pedia esmola quando era preciso’’, lembra. O namorado resolveu assumir a criança e levou a filha e a neta embora. ‘‘Para mim foi como se elas tivessem morrido. Eu fiquei tão deprimida que não saía de casa e não conversava com ninguém. Daí achei o caderno e comecei a escrever’’, conta.
  O rapaz e a família não deixavam mãe e filha se verem, apesar de estarem morando na mesma cidade. Valdinéia não podia nem mesmo atender os telefonemas da mãe. ‘‘Eu escrevia como se estivesse falando com ela, procurava minha filha e achava ela nas páginas do caderno’’, fala Marilza. Foram seis meses de sofrimento até recuperar a filha, com a ajuda da Justiça.
  A volta da filha coincidiu com o fim do caderno. ‘‘No começo era tanta alegria que eu nem pensava em escrever. Tinha tanta coisa pra fazer com minha filha e neta que o tempo era só pra isso. Depois, quando lembrei, não tinha mais caderno’’, diz Marilza. Durante cinco anos o caderno com as cartas decoradas com desenhos coloridos feitos pela mãe ficou guardado em cima do único guarda-roupas do barraco. Marilza ganhou mais uma neta, hoje com 3 anos. As goteiras molharam as páginas. ‘‘Mas eu acho que as minhas lágrimas molharam muito mais’’, observa Marilza, rindo.
  Um dia, um grupo de alunos do curso de psicologia da UEL apareceu no Novo Amparo. Eles estão fazendo um projeto de pesquisa com os moradores, um levantamento sobre a capacidade criativa. Um dos alunos descobriu o caderno de Marilza. ‘‘Que gozado, eu nunca pensei que alguém fosse se interessar ou gostar das coisas que eu escrevia’’, comenta ela. Além de atenção, esta semana Marilza também ganhou outro presente muito especial: cadernos novos e uma caixa com lápis de cor.
  ‘‘Antes eu passei a dor, agora tenho que passar coisas alegres. Agora eu posso escrever coisas felizes, coisas bem bonitas. Vou escrever sobre as pessoas daqui, sobre as pessoas que compartilharam coisas comigo, sobre minhas princesas, minha filha e netas, sobre meu barraquinho, que eu consegui... me sinto uma vencedora’’, conclui Marilza.
  A mulher que até as netas chamam de mãe ajeita os óculos no rosto e confessa que ainda tem sonhos a realizar: ‘‘Eu gostaria muito de publicar um livro. Seria para as mães que tem filhos drogados, filhas que saíram de casa... e para os filhos saberem como é a dor de uma mãe’’.
  Depois, olha em volta e fica em silêncio durante algum tempo, segurando com força os cadernos. Uma vozinha fina traz Marilza de volta à realidade: ‘‘Vovó, me empresta um lápis?’’

Durante muito tempo fiquei aqui parada olhando para o papel brincando
com a caneta e deixando meus pensamentos viajar e chegar até você tudo por
medo puro medo de confeçar (sic) meus sentimentos de mãe e todo amor que
tenho por você

Eu sei que sou uma simples mulher que existe pela imensidão de saudades esperei que viesse me encontrar com carinho e afeto mas infelizmente não tive o previlégio (sic) de quem eu gerei com amor e carinho me alegrar neste domingo fiquei sozinha olhando pela janela do tempo

Fecho meus olhos nas horas tristes da noite, quando o silencio (sic) chega a invadir meu quarto e sonho. Sonho como se fosse um ser perdido. Sonho como se fosse a função única da minha existência. Deixa que meu pensamento se envolva na tristeza da solidão. Minha alma vibra e deixa-se esquecer pelos reflexos distantes de chamas apagadas que já não existem. No entanto, a saudade vem e faz ninho em minha alma

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