Muito talento e pouco juízo; idéias em excesso, sem disciplina alguma para organizá-las; muitas características, mas nenhum caráter. Um momento: leia-se o termo no sentido do herói sem nenhum caráter, que Mário de Andrade quis dar a sua melhor personagem, o múltiplo Macunaíma, que era tantas coisas e, afinal, nunca conseguia ser alguma. A palavra não pode ganhar aqui o significado comum, de conotação moral e moralista. Até porque escrevo sobre um ilustre brasileiro, mais que ilustre, um autêntico brasileiro, o antropólogo e romancista, senador e ministro, vice-governador e educador Darcy Ribeiro, uma personagem, ou melhor, uma figura.
Ninguém era capaz de resistir a seu charme - qualquer um de nós, amigos ou inimigos, eleitores ou adversários, leitores ou desconhecidos, entenderá muito bem o desabafo de sua ex-namorada Irene Ferraz, de 38 anos. A cineasta e ex-namorada chorou muito sobre o caixão de seu ‘‘grande amor’’, para arrematar com uma frase capaz de fazer estremecer Nelson Rodrigues diretamente da tumba: ‘‘Te odeio, mas ainda te amo’’. Darcy Ribeiro, o verdadeiro bem amado, chegou a declarar, numa entrevista, que todo homem precisa de, no mínimo, três namoradas. A terceira, certamente para evitar a dose de culpa que uma relação bígama sempre carrega. Afinal, um brasileiro culpado não é um brasileiro completo.
Ocorre-me, agora, ao correr do teclado, que este é o segundo necrólogo de intelectuais que faço neste mesmo espaço em duas semanas. Inevitável. Até porque não se fala na morte de Macunaíma, mas de sua ressurreição, também múltipla. Escrevo contemplado pelos olhos doces do mestre de Apipucos. Gilberto Freyre, que nos concedeu Casa Grande & Senzala, mereceu um belíssimo prefário de Darcy Ribeiro e não podia faltar.
Escrevo ainda, ao som de Villa Lobos. Somente um brasileiro como este poderia perdoar o fato de Darcy, logo o pregador do Brasil como o berço da ressurreição da romanidade em forma indígena e africana, ter pedido música de Bach para velar seu último sono. Mestre Heitor, ele mesmo, jamais esqueceria que na base de sua obra mais inspirada e mais brasileira, estava o mestre-capela da Leipizig. Entre tantas coisas, o Brasil é bachiano.
O já citado Nelson Rodrigues não deixaria de se deliciar com o fato de um materialista de carteirinha ter pedido exéquias religiosas. Ainda que seu corpo tenha sido encomendado por frei Leonardo Boff, sem autorização da Igreja para oficiar tais exéquias, o pedido não deixa de lembrar uma frase capaz de tornar brasileiro o mais espanhol dos cineastas, o surrealista Luiz Bu¤uel, que dizia: ‘‘sou ateu, graças a Deus’’.
Taís Roberto DaMatta que não me deixa mentir. Brasileiro não nasceu para essas coisas de apertar parafuso nem fixar arrebites, analisar pipetas ou fazer controle de qualidade. É praticamente uma questão de DNA, como diria o sociólogo paulista Leôncio Martins Rodrigues. Brasileiro competente é Joãosinho Trinta, que passou por cima de um insulto cerebral para vencer mais um carnaval. Este povo é bom de cabeça e ágil no pé - não tanto com as mãos e, por isso mesmo, nunca produzimos os melhores goleiros do mundo. Nosso Darcy Ribeiro é da estirpe dos artilheiros, como Romário, o baixinho atrevido que trocou a beleza heráldica da Catalunha pela sem-vergonhice do futvôlei no Viajandão, não é um hotel de luxo, mas um trailer de praia. Por isso, pensar que ele morreu e chorar sua morte é puro non sense.
Como terá morrido o grande romancista que nunca escreveu um grande romance ou o educador venerado que tem em seu currículo dois grandes monumentos às deficiências da educação brasileira, a Universidade de Brasília e os Cieps do engenheiro Leonel Brizola? Como terá desaparecido o sonhador que, em plena era da globalização, dedicava todo o seu muito engenho e ainda maior parte à improvável sobrevivência dos povos da floresta, um mito que ele mesmo ajudou a inventar? Como poderá sumir no esquecimento o homem que, às vésperas do Natal, mandou uma mensagem ao presidente Fernando Henrique Cardoso, pedindo-lhe o impossível, o fim da fome? Existe algo mais brasileiro do que sobreviver 23 anos a um câncer de pulmão, só para debochar dos militares que o expulsaram do país e permitiram sua volta para morrer logo?
Não. Macunaíma não morreu. E o Brasil, meus amigos, pode até não ser o país do futuro, da profecia destrambelhada de Stefan Zweig. Mas certamente é um lugar muito agradável, ‘‘bonito e inteligente’’, como o próprio Darcy Ribeiro descreveu ser o presidente Fernando Henrique Cardoso. Pouco importa se isso não basta, do ponto de vista prático e material, constatação que ele fez sobre FHC. Afinal, parodiando outro santo safado destes tópicos alegres de tanta tristeza, o poetinha Vinicius de Moraes, ‘‘as muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental’’.

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