O meu bairro está todo iluminado. As árvores das ruas, cobertas de luzes coloridas. As sacadas de muitos prédios estão decoradas com pisca-pisca. Nas noites agradáveis desse quase-verão, é possível andar pelas ruas e encontrar vizinhos passeando com o cachorro ou casais aproveitando uma caminhada noturna para pôr os assuntos do dia em ordem. Uma São Paulo que poucas vezes se vê no noticiário dos jornais e na televisão. Um lugar para viver, ter filhos, construir uma história e um futuro.
Deve ser assim também no Iraque. Talvez sem as luzes características do período de Natal, mas há gente por lá passeando com o cachorro, a esposa ou o filho. Fazendo compras. Nem sempre essa faceta da vida cotidiana do Iraque está nos jornais. Da mesma forma como o noticiário, em geral, só destaca a violência, a poluição e o trânsito caótico de São Paulo, também o Iraque costuma ser confundido com o seu ditador Saddam Russein. São Paulo não é só violência. O Iraque não é Saddam Russein. Mesmo assim, a população vem sendo tratada como se fosse.
Os iraquianos já sofrem terrivelmente por causa do bloqueio econômico ao país. Não bastasse isso, na noite passada, mísseis americanos desabaram sobre o país pela enésima vez. Digam o que disserem os tecnocratas da guerra, nunca acreditarei na capacidade de um míssil de acertar apenas alvos militares. Tem gente morrendo por lá. Não espere ver os corpos na televisão, porque isso a televisão não mostrará. Não interessa aos assassinos. O máximo que veremos, de novo, são pontinhos de luz brilhando no céu do Iraque.
Poderiam ser confundidos com luzes de Natal.
O bombardeio dos Estados Unidos e Grã-Bretanha ao país de Saddam Russein, evidentemente, não leva em conta as vidas dos iraquianos ou seus filhos. Parece-me uma ingenuidade cobrar esse tipo de sentimento de quem aperta o botão que dispara os mísseis. Há muitos interesses pessoais, particulares e políticos em jogo para que o presidente americano, Bill Clinton, perca seu tempo analisando as consequências de um bombardeio, poderoso como o que foi feito na madrugada quarta-feira, sobre os cidadãos comuns do Iraque.
O que me impressiona é a independência com que o presidente Clinton fez o que fez. Num dia qualquer, se ele quiser, pode despachar um míssil sobre o meu bairro e acabar com as árvores, os casais e os cachorros. Está faltando explicar quem deu autorização ao governo americano para atacar o Iraque. Sem consulta aos outros membros do Conselho de Segurança da ONU, sem negociação. Assim, como alguém que pede uma água ao garçom. Quem deu esses poderes aos Estados Unidos?
Portanto, quando se caminha pelas ruas iluminadas de São Paulo, não se teme mais apenas a ação de um bandido qualquer, armado com um revólver para levar o que tivermos na carteira. Há se que temer também que um louco irresponsável, instalado na outra ponta da América, deixe seus charutos de lado (ou por causa deles) e resolva brincar de juiz do mundo. E ainda dizem que terceiro mundo somos nós.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em São Paulo

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