Luzes e sombras
De luzes e sombras é feita a vida de cada um de nós, com suas conquistas e derrotas, alegrias e tristezas, encontros e desencontros, pois é disto que a existência se tece. Sombras e luzes também se projetam na espiral do tempo por onde circula a história. Assim, clarões intensos existiram na décima oitava dinastia do Egito Antigo, quando foi atingido o apogeu de uma das mais portentosas civilizações do mundo. Na Grécia Antiga houve uma luminosa concentração de cérebros privilegiados, talvez nunca mais repetida ao longo dos caminhos humanos em busca de sabedoria. Já o Renascimento fez desabrochar a liberdade de pensamento, do descortinar de novos horizontes mentais e geográficos, sacudindo-se o jugo teológico que impregnou toda a Idade Média e manietou a vontade criadora do indivíduo.
Estes são exemplos marcantes de épocas de luz em contraste com as de muita sombra, sendo que mesmo naquelas não faltou entre esplêndidas cintilações a sombria ignorância geradora da destruição, do ódio, da dor, da intolerância, no fanatismo, da violência presentes nas guerras, nas marcas negras legadas à humanidade, e que podem ser exemplificadas através da Nova Inquisição ou dos sistemas totalitários do século passado como o nazismo e o comunismo onde a liberdade, esse dom mais precioso do homem depois da vida, desapareceu calcada sob o arbítrio dos senhores da pseudo razão e da pseudo verdade.
No Brasil também tivemos luzes e sombras. Nossos anos mais dourados transcorreram quando emergiu das urnas um líder com a estatura de um estadista: Juscelino Kubitschek de Oliveira. O afável e carismático mineiro de Diamantina foi popular sem ser populista, e hábil mestre das articulações de forças adversárias ou aliadas. Ele inaugurou um estilo de governo através de sua conduta democrática e da mentalidade arrojada voltada para o desenvolvimento do país, que queria industrializado, sonho que sintetizou no slogan: Cinquenta anos em cinco. Juscelino foi a antítese do caudilho centralizador e autoritário tão comum nessa plagas latino-americanas.
Recordando JK, comentava dia destes um grande amigo meu: Nônô Pé-de-Valsa foi o homem que ensinou aos brasileiros um dos maiores valores da vida: a confiança em si próprios, a confiança na capacidade de fazer. Com Juscelino construímos o país que aí está e incorporamos o futuro ao nosso cotidiano. Passamos a acreditar e a construir um amanhã melhor, e começamos a perceber após aqueles anos de sonho e de trabalho, que estávamos melhores que nossos pais e avós. Nós tínhamos ido para frente com nosso sonho e nosso braço e nos sentíamos orgulhosos de nós mesmos. E assim inventamos a bossa nova e mostramos nosso valor no futebol ganhando a Copa do Mundo pela primeira vez, pois tinham sido inventados Pelé e Garrincha a alegria do povo. Foi comprado o primeiro porta-aviões. Construiu-se Brasília, o que afastou mais os políticos da realidade do País, mas também colocou o Brasil de costas para o mar e de frente para seu território que tinha de ser domado e dominado. Juscelino cortou o País de estradas como a Belém-Brasília, asfaltou a Belo Horizonte-Rio de Janeiro, fez e asfaltou a São Paulo-Curitiba, e a São Paulo-Belo Horizonte. Criou a indústria automobilística brasileira, a indústria naval no Rio de Janeiro, etc, etc, etc. (antes de Juscelino importávamos talheres, penicos, panelas, colchões sendo que estes últimos voltamos a importar).
Tudo isso acontecia numa democracia que não era apenas a democracia retórica das universidades. Tínhamos uma democracia para a alegria e para o desenvolvimento do País. Juscelino enfrentou as rebeliões de Aragarças e Jacaréacanga e anistiou todo o mundo. Fazia questão de fazer metas para ser medido e cobrado, e com isso praticava a comunicação social governo-povo povo-governo. Era tão democrata que perdeu a eleição e entregou a Presidência com um sorriso. Quantos serão tão bons quanto ele?
Quantos tão bons? O presidente Fernando Henrique Cardoso parece ter tido JK como modelo nessa fase da história oriunda da Nova República das desilusões, iniciada com José Sarney, o vice de Tancredo Neves que pelos azares do destino tornou-se presidente. Ao final do governo de Sarney, onde vários planos econômicos fracassaram, assistia-se ao que Hélio Jaguaribe chamou de canibalização do Estado. Tínhamos uma inflação de 80% ao mês.
Depois, Collor. E depois de Collor o dilúvio, como diria Luiz XVI. E outro vice, Itamar Franco, tornou-se presidente. Seu ministro da Fazenda, Fernando Henrique, junto com economistas como Edmar Baixa e Pérsio Arida deram à luz o Plano Real. Suprimiram a correção monetária e acabaram com a inflação. FHC, duas vezes presidente eleito pela vontade popular, passará à história, se não por todas suas realizações, pelo menos por seu maior feito: a estabilização econômica, única maneira de distribuir renda e fazer o País prosperar.
O que virá depois? Luz ou sombra? Nos sombrios embates do poder, já enjoa e enoja as tramas de ACM e seus aliados petistas, todos imbuídos do mesmo sentimento golpista, do espírito inquisitorial que assola o Brasil e da indiferença diante dos danos que suas intrigas e futricas podem causar aos destinos da Nação. Lula, candidatíssimo pela quarta vez, ensaia de novo a pose de presidente e quer dialogar com o mundo à respeito de Caymãs e temas correlatos. Provavelmente ele não abrirá espaço para outros quadros petistas concorrerem, como um Cristovam Buarque, bem mais preparado e experiente. É que Lula andou aprendendo democracia com Fidel Castro.
Quem virá por aí? Ciro Gomes, o clone com defeito de Collor? José Serra? Enéas? Itamar, o Napoleão das Alterosas? Santa Clara, clareai. De muita luz precisamos para que voltemos a confiar em nós mesmos.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária.





