Luz vermelha
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 29 de agosto de 1997
Maria Lucia Victor Barbosa 
Muitos cultores do politicamente correto não aceitam o que se denomina de psicologia dos povos, o que traduzido em palavras simples significa que cada povo tem uma personalidade evidenciada no seu comportamento, no acatamento de certos valores e em atitudes que lhe são peculiares. Evidentemente, a humanidade é uma só, e o ser humano compartilha com os demais em toda a parte da terra de sentimentos comuns como o medo do desconhecido, a necessidade de afirmação, a tendência ao hedonismo, a capacidade de fazer tanto o bem quanto o mal etc. Mas não se pode negar em sã consciência que exista uma psicologia dos povos, mesmo levando-se em conta a unidade da matriz humana, distinta em grau das outras espécies animais. Dentro dessa afirmação, concluiu-se então que a partir de certas variáveis culturais, políticas e econômicas, cada povo desenvolveu ao longo de sua história uma maneira específica de ser, uma personalidade coletiva, exatamente como cada indivíduo, grupo ou classe social se distingue dos demais dentro de uma dada sociedade.
Referindo-me ao Brasil, não poderia apresentar no pequeno espaço de um artigo os fatores que forjaram nossa personalidade enquanto povo. Isso eu o fiz em dois livros. Em todo o caso, mesmo correndo o risco da incompreensão por conta da brevidade da análise, quero apontar pelo menos uma das características de nossa personalidade coletiva, a qual, aliás, já me referi em outras ocasiões: o culto a antivalores, o que traz, entre outras consequências, o arraigado hábito de transformar bandidos em heróis.
Vários exemplos podem ser dados desse traço da personalidade brasileira. No momento, tomemos apenas dois, por serem mais atuais. O primeiro pode ser ilustrado com João Acácio Pereira da Costa, apelidado de Bandido da Luz Vermelha por usar uma lanterna com filtro vermelho nos assaltos que praticou.
Luz Vermelha foi solto esta semana por já ter cumprido 30 anos de prisão. Tantos anos de encarceramento foram devidos a 88 condenações por 4 assassinatos, 7 tentativas de homicídio e 77 roubos. Entre suas vítimas de assassinato estão: o estudante de 19 anos, Walter Bredan, morto em 3 de outubro de 1966, um operário que o havia encarado num bar, e que foi executado dez dias depois; o industrial Jean Von Christian, aniquilado em um assalto em 7 de junho de 1967; e um vigilante, que um mês depois, em outro assalto do bandido, pagou com a vida o cumprimento do dever.
Conforme nosso Código Penal determina, ninguém pode ficar mais de 30 anos preso e, assim, Luz Vermelha foi solto. Em países onde existe a pena de morte ele já teria torrado numa cadeira elétrica, sido enforcado ou coisa que o valha. Mas é brasileiro, e segundo nossas leis já cumpriu pena, estando teoricamente regenerado apesar de parecer não estar em seu juízo perfeito, o que seria de se esperar depois de 30 anos de prisão.
Até aí tudo bem, mas entronizá-lo no altar dos heróis da pátria por conta de sua trajetória, só mesmo no Brasil, o país da impunidade. E é a isso que se assiste pela imprensa de modo geral. Juntamente com a ex-sem-terra e atual sem-roupa da PlayBoy, Luz Vermelha já é a sensação do momento. E se no passado seus feitos viraram filme, agora ele pretende ser escritor, sendo que com certeza não faltarão editores sequiosos para publicá-lo. Provavelmente, também frequentará programas e comerciais de televisão, desfilará no sambódromo, aparecerá nas páginas amarelas da Veja, será eleito se assim o desejar a algum cargo político e, finalmente, sacramentará o status de herói que já possui, com o de santo que, aliás, vem reivindicando. Afinal, ele está sendo consagrado como uma das grandes personalidades brasileiras da atualidade.
Outro exemplo da glamurização do crime pode ser encontrado no Movimento dos Sem-Terra. Um dos líderes, José Rainha, que já foi representado romanticamente em novela de televisão, responde a 56 inquéritos policiais e oito processos criminais somente nas comarcas do Pontal, além de já ter sido condenado por homicídio duplo. Outros líderes como Márcio Barreto e Valter Gomes, também estão com pendências na Justiça. Enquanto isso, os sem-terra, impunemente, têm se dedicado a pilhagem e a destruição. E agora, além de atear fogo a pastos, passaram a queimar também carros, como foi o caso da Brasília do arrendatário Homero Ramos Palma, incendiada pelos sem-terra na Fazenda Nossa Senhora Aparecida em Alvorada do Sul.
A diferença entre Rainha e seus seguidores, e Luz Vermelha, é que este último foi preso. De resto, são todos heróis. E enquanto não for corrigido este traço de personalidade, tão acentuado pela esquerda sempre inspirada por ideais stalinistas, nenhum brasileiro poderá se queixar quando for roubado, lesado ou tiver um parente morto, porque um pacto foi feito com bandidos para chamá-los de heróis. E enquanto todos se calarem diante da omissão governamental e por temor aos heróis, a sociedade continuará encarcerada e os bandidos soltos.


