Chegam a provocar náusea o volume e o tom do noticiário dos meios de comunicação - principalmente as emissoras de rádio e televisão, mas também os veículos impressos - a respeito da recente libertação de João Acácio Pereira da Costa, o ‘‘bandido da luz vermelha’’.
A náusea tem duas naturezas. A primeira delas diz respeito à insistência com que todos os seus passos e todas as suas palavras são reproduzidos, tornando-o, primeiramente, um tipo de ícone pop e, em segundo lugar, uma espécie de oráculo universal. Com a alta frequência das questões sobre arrependimento que lhe foram apresentadas ao microfone de praticamente todas as redes de rádio e televisão do Brasil, não seria estranho que ele viesse a ser convidado pelo editor da moda, o do guru Paulo Coelho, por exemplo, para escrever algum tratado sobre a ética do ponto de vista de um assassino que cumpriu pena integral, uma raridade no sistema jurídico e no universo penal brasileiro.
Na verdade, o episódio é apenas o mais recente, nem chegando a ser exemplar, pois a reprodução descontrolada dos conceitos filosóficos, políticos e econômicos de pessoas famosas, seja por que motivo for, virou uma espécie de instituição na sociedade de massas em que vivemos. Isso é tão comum como a invasão da privacidade desses famosos. Alguns brasileiros chegam a ser vítimas preferenciais de tal instituição - caso do craque Edmundo, do Vasco da Gama, que pensa com os pés e chuta com a cabeça e, ainda assim, tem suas sentenças idiotas reproduzidas com mais assiduidade do que seus gols geniais. No capítulo mais recente dessa novela de mau gosto, políticos oportunistas tentaram processar o artilheiro por ‘‘racismo’’, por ter ele chamado um árbitro cearense de ‘‘paraíba’’.
No episódio do criminoso solto, a questão ganha tons mais graves, porque não se trata apenas de multiplicar a Lei de Murphy por mil, como foi no caso do jogador. As imagens e os sons produzidos em seu primeiro passeio na rua ou em sua primeira viagem de avião, após libertado, constroem uma imagem simpática de um marginal violento.
Não é a primeira vez que isso ocorre. Sociólogos respeitáveis escreveram tratados tentando provar que o sanguinário cangaceiro Lampião era uma espécie de Robin Hood da caatinga, que roubava dos ricos para distribuir entre os pobres, ou ainda uma vítima do latifúndio improdutivo. A aura romântica da reportagem policial e da literatura envolveu assassinos sem escrúpulos como Mineirinho, Paraíba (este, Edmundo não conheceu), Lúcio Flávio Vilar Lírio ou Escadinha. Como lembrou Boris Casoy em seu telejornal na Record, até hoje Ronald Biggs, um dos assaltantes do trem pagador inglês, é socialite no Rio de Janeiro.
João Acácio Pereira da Costa foi protagonista do noticiário policial nos anos 60, e, submetido a tratamento estético por Rogério Sganzerla, inspirou o filme que foi talvez o maior clássico do cinema underground brasileiro. A auréola de simpatia que o cerca agora não faz justiça a seus crimes, de uma frieza impressionante.
Como a romaria da mídia pela mídia é superficial, igual a nata sobre leite fervido, não tem sido possível discutir com alguma seriedade o segundo motivo de náusea, provocada por sua figura tatibitate ao microfone. Ninguém se surpreende com o fato de ele ter se tornado mais uma vítima do sistema penitenciário brasileiro. Ninguém é ingênuo o suficiente para imaginar que, em algum momento, nossas prisões tenham servido para reeducar criminosos, antes de devolvê-los ao convívio social. Ao contrário, elas servem de universidade para o crime, conforme comprova o bárbaro assassínio da artista plástica pelo jardineiro no Morumbi. A tragédia brasileira é um pouco esta. Mas é também o fato de todo mundo estar careca de perceber isso, mas nada fazer para corrigi-lo.
O que o ‘‘bandido da luz vermelha’’ fez foi terrível e não pode ser varrido para fora do alcance da luz dos refletores da TV. O que dele foi feito também é lamentável. Mas talvez o mais grave de tudo seja o fato de que, ao vê-lo e ouvi-lo, todos estejam interessados em ser informados sobre seus conceitos de ética, esquecendo-se de perguntar sobre o que o presidente da República, o ministro da Justiça, os governadores estaduais e os secretários estaduais de Justiça e Segurança Pública têm feito para tornar as prisões brasileiras mais humanas. A ‘‘luz vermelha’’ do ‘‘bandido’’ está servindo, então, para ofuscar, não para iluminar.

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