Luta pela sobrevivência
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sexta-feira, 21 de abril de 2017
Viviani Costa<br>Reportagem Local 
No percurso de aproximadamente 5 mil quilômetros em que seria construída a Rodovia Transamazônica, indígenas de dezenas de etnias permaneciam em meio à natureza na década de 1970. O fato não foi considerado empecilho pelo governo militar. Os índios foram transferidos de local, sem estrutura e planejamento adequados. Houve centenas de mortes causadas por epidemias, sede e fome.
Parte da história do Brasil foi rememorada por antropólogos, missionários, servidores públicos, sertanistas e indígenas no livro "Os fuzis e as flechas - História de sangue e resistência indígena na ditadura". O autor, Rubens Valente, é jornalista há 28 anos e trabalha na sucursal da Folha de S.Paulo em Brasília. Nascido em Goioerê (PR), ele passou a adolescência em Mato Grosso do Sul, onde teve o primeiro contato com uma aldeia indígena. Dedicou parte do seu tempo a pesquisas sobre o tema e teve acesso a documentos antes sigilosos. Na semana em que se comemora o Dia do Índio, o autor traz à tona as contradições do governo na busca do desenvolvimento do País.
Como foi o processo de produção do livro?
Em 1989, como repórter, comecei a cobrir a questão indígena. Conheci várias aldeias em Mato Grosso do Sul e depois em Cuiabá (MT). Ao longo do tempo, comecei a ouvir muitas histórias da ditadura militar e percebi que isso mereceria uma pesquisa mais aprofundada. Os índios narravam transferências forçadas. Tomei conhecimento que em Mato Grosso uma epidemia havia matado mais de 100 índios xavantes na ditadura militar na região de São Marcos (MT). Eram várias doenças ao mesmo tempo... sarampo e gripe. Quando eles foram transferidos de região, foram levados por aviões da FAB (Força Aérea Brasileira). Eles chegaram ao local de destino e simplesmente morreram porque não havia estrutura. Eram poucos médicos e o regime militar não havia preparado a chegada desses índios. Reuni essas histórias ao longo do tempo e comecei a coletar documentos, depoimentos, fontes e informações. Em 2008, o governo federal fez a primeira abertura de documentos militares sigilosos da área da Funai (Fundação Nacional do Índio) e do Ministério da Justiça. Em 2012, o governo permitiu a consulta por nomes de pessoas. A partir daí, me dediquei à escrita e ao trabalho de campo.
O que mais o impressionou ao longo da pesquisa?
Foi o volume de casos e a quantidade de histórias parecidas com finais trágicos. O governo estabeleceu alguns métodos como a transferência compulsória de índios e de grupos inteiros. Eles eram tratados como objetos. De acordo com a conveniência do momento, por razões políticas, por razões mal explicadas, por objetivos de colonização ou por uma obra que estava passando, o regime militar simplesmente retirava esses índios do caminho. Há o depoimento de um general sobre isso: "Eu consigo retirar qualquer etnia indígena do caminho de uma rodovia. É só indicar o caminho". Muitos casos que hoje as pessoas leem e se surpreendem não foram tornados públicos na época com a dimensão necessária. A imprensa estava sob censura e houve dificuldade de acesso à informação porque muitos fatos se passaram no interior da selva, na mata. Poucas pessoas presenciaram isso. A contribuição que se procura fazer nesse livro é mostrar o quadro geral de como funcionou a ditadura em relação ao índio e dar uma cronologia dos eventos. Muitos servidores da Funai, antropólogos, sertanistas e indianistas estavam em franca discordância com o regime militar. Então, eles não concordavam com o que estava acontecendo e, de certa forma, procuravam amenizar o impacto dessas obras. Alguns sertanistas foram perseguidos, afastados e houve uma grande demissão em massa no fim dos anos 1970, com mais de 40 demissões de pessoas contrárias à ditadura.
Quais relatos foram mais marcantes?
Grandes personagens, que são pessoas anônimas, dedicaram a vida aos índios. Indígenas contaram fatos com muita riqueza de detalhes, como se tivessem ocorrido ontem. Isso nos dá a noção de que houve um trauma tanto entre os índios quanto entre os indianistas antropólogos. Antonio Cotrim Soares, funcionário da Funai, foi um herói da resistência indianista porque ele se insurgiu contra o regime; ele convocou uma entrevista coletiva em Brasília, em plena ditadura militar, para denunciar que índios estavam morrendo naquele período. Ele declarou: "Eu não vou ser coveiro de índios". Pediu demissão e abandonou a Funai. Eu o reencontrei e ele fez depoimentos muito reveladores. Outro depoimento que destaco é o de um indígena araweté, lá do Amazonas. Ocorreu uma marcha forçada nos anos 1970, em que o governo obrigou os índios a caminhar por quase 100 quilômetros na mata. Porém, ele não planejou essa caminhada e os índios começaram a morrer na estrada. Ao final de todo o episódio, 60 morreram, o que representou em torno de 36% da etnia inteira. Esse índio se apresentou e narrou em detalhes o trajeto. Os índios foram caindo no caminho. Caíam de gripe, caíam de fome... Também há o depoimento de um sertanista chamado Afonso Cruz, considerado um dos grandes sertanistas da história brasileira. Em um dos depoimentos, ele contou como foi orientado pelos responsáveis do governo na época a não escrever relatórios sobre uma mortandade de 43 índios kararaôs que haviam sido contatados pelo extinto SPI (Serviço de Proteção aos Índios), antes da criação da Funai, em 1967. Aquele depoimento me revelou uma política de acobertamento mesmo. Ficou claro que havia medo de que os fatos chegassem ao conhecimento do público.

Foi possível mensurar, aproximadamente, quantos indígenas morreram durante a ditadura militar?
Tenho evitado falar em números para não transformar a discussão em algo apenas sobre números, mas sim sobre essas vidas. Mas a Comissão Nacional da Verdade chegou ao número de 8 mil índios. Eu não cheguei a tanto e creio que não atingiria essa quantidade. Porém, para mim, se fossem 20 índios, 30 índios ou mil índios, a questão seria a mesma. Havia uma dificuldade no governo militar para quantificar a população indígena. O cálculo que é feito é assim: antes do contato com os índios havia "x", depois do contato eram "y" índios. Portanto, morreram "z" nesse período. Acho essa conta um pouco temerária. Não há dúvidas de que, pelo menos, 60 arawetés morreram. Não há dúvidas de que mais de 100 índios xavantes morreram. Índios kararaôs, panarás e waimiris não resistiram.
O livro aborda a questão indígena no Paraná?
O Paraná é citado e menciono um trabalho feito na época pelo padre Egydio Schwade, que fez uma espécie de raio x nos anos 1970 da situação dos postos indígenas do Sul do Brasil. Há também um documento da própria Funai com relatos de abandono, fome e falta de condições nos postos indígenas para atender a população kaingangue. No livro também faço menção à história do Ângelo Kretã. Ele morreu em um acidente de carro no Paraná e era um líder kaingangue muito importante. Curiosamente, o período de grande repressão também é o período de grande efervescência nas aldeias. Líderes indígenas começaram a se afirmar e a procurar a mídia. Kretã simbolizou isso e acabou morto em um episódio controverso. Ele estava jurado de morte, era perseguido e andava com seguranças. Em uma curva, o carro dele bateu em um veículo estacionado em um local perigoso. Nesse momento, os seguranças dele, que eram policiais militares, disseram ter visto jagunços de uma madeireira próximos a esse veículo, mas a investigação não avançou. A Comissão Nacional da Verdade afirma que Kretã foi assassinado.
Que avaliação você faz sobre o desconhecimento e até a desvalorização da história do País ligada aos indígenas?
Há muita desinformação e muita generalização. A situação é gravíssima do ponto de vista da tolerância e do preconceito em relação aos indígenas. O quadro é grave. Você pode ver pelas redes sociais ou caixas de comentários de sites de notícias o tom agressivo contra os índios e o preconceito ou intolerância. Fiz uma pesquisa rápida na internet e encontrei pessoas sugerindo linchamento de índios, que eles sejam metralhados e atropelados. É uma crueldade assustadora. Porém, como sou otimista, creio que esses comentários, na verdade, nos permitem perceber com toda a clareza um lado do brasileiro que talvez não tenha sido registrado ao longo da história, que é esse ódio contra os índios, que talvez exista há 500 anos e a gente ainda não havia visto em toda a sua dimensão. A saída sempre está na informação. É um processo longo, é um aprendizado, infelizmente tem sido um processo lento no Brasil. Eu lamento porque o País fica patinando e, às vezes, estamos debatendo as mesmas questões que discutimos há 50 anos, há 60 anos e os temas voltam à tona, mostrando que, quando a gente acha que o Brasil amadureceu e se consolidou, há na verdade um grande retrocesso.
Como você analisa a questão política relacionada aos indígenas no Brasil? O que poderia ser feito atualmente?
É preciso ser feito um pedido formal de desculpas. A Comissão Nacional da Verdade propôs uma série de medidas na questão indígena. Uma delas é simples: é o pedido formal de desculpas. Até o momento, três anos depois da Comissão Nacional da Verdade, nada ocorreu. Outra questão é o reconhecimento dos fatos pelo Estado brasileiro e pelas Forças Armadas, para que isso seja traduzido em uma reparação real e objetiva. A Funai tem alegado que a própria Comissão da Verdade é um reconhecimento pelo que houve. Mas quem reconheceu foi o setor civil do governo e não o setor militar. Não há um pronunciamento das Forças Armadas sobre o período. A reparação tem ocorrido em casos isolados. São ações ou iniciativas do Ministério Público Federal. Tivemos uma decisão recente que pedia indenização de R$ 10 milhões para uma etnia chamada tenharim em razão da construção da Rodovia Transamazônica. Houve indenizações e mudanças de paradigmas na questão panará, mas são casos isolados, em que é preciso ir ao Judiciário. O Estado deve pagar pelos erros que comete. Há um sentido pedagógico nessas indenizações. Não é apenas uma questão pecuniária. É uma questão ética.


