LUTA CONTRA O ÁLCOOL - 'Somos o último recurso'
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de setembro de 2007
Fábio Cavazotti<br> Reportagem Local 
Vieira tem 75 anos e não bebe desde 1981. Seu passado, como de todo ex-alcoólatra, é recheado de passagens que prefere esquecer: vexame em festas familiares, problemas no casamento, mentiras... Atualmente, porém, é um senhor vivaz, de bem com a vida, e que dedica seu tempo a ajudar outros alcoólatras a se livrar da dependência - como coordenador do Grupo Central dos Alcoólicos Anônimos (A.A.), que se reúne todas as sextas-feiras na Catedral de Londrina. De acordo com Vieira, o A.A., ao contrário de outras terapias, só consegue ajudar o dependente se ele reconhecer sua ''doença'' e estiver disposto a mudar. ''Não fazemos tratamento involuntário nem botamos o dedo no rosto do cara para dizer o que ele deve fazer'', contou. Com a ressalva de que parte de suas declarações são pessoais - e não um posicionamento oficial do A.A. -, concedeu entrevista à FOLHA:
O alcoolismo está crescendo?
Cada vez mais. O cara bebe no Natal, no Ano Novo, no aniversário, no casamento, até no velório. Todo mundo bebe, é normal, não tem polícia correndo atrás, o cara não é traficante nem criminoso. Há boteco para todo lado. Esquecem que o álcool é droga psicotrópica - aquela que muda o comportamento do usuário. Vou te contar, o que tenho de companheiro que tentou parar de beber, não conseguiu e morreu... E não é só de cirrose, não. É tuberculose, úlcera de estômago, de esôfago, e outras doenças.
O consumo aumentou entre as mulheres também?
Sim, um crescimento grande. E as coitadas têm um agravante em relação aos homens, elas são muito mais discriminadas. A sociedade machista acha que alcoolismo do homem não é bom, mas, coitado... Já na mulher é horrível, está bêbada, se prostituindo por aí.
Quem é a mulher que bebe?
Todas, não tem categoria. Tem muita dona de casa que está bebendo. Quando ela cozinha, só sabe fazer o tempero com o copo do lado. Já a meninada, é só você ver nos bares, estão cheios de jovens bebendo. É de todo jeito.
Qual é a maior dificuldade para superar a dependência?
Desacostumar o organismo. A ''máquina'' que Deus nos emprestou para andar por aí é tão perfeita que se auto-regula, adapta-se a um determinado nível de álcool no sangue e passa a se auto-regular. Então, o cara acorda no dia seguinte e está tremendo, desestabilizado. Aí ele toma, uma, duas, a dor de cabeça passa, o enjôo também, a mão pára de tremer... Esse é um sintoma clássico da dependência profunda: o cara tenta matar uma com a outra.
E os remédios, funcionam?
Esses que o familiar coloca na comida sem o bêbado saber podem ser perigosos. Se o cara for cardíaco pode até ''bater com as botas'', porque ele funciona como aversivo. Ele toma o remédio e, se beber, sente-se mal. Há uma mudança no metabolismo daquele álcool, o cara fica vermelho, dá taquicardia, essa veia do pescoço chega a pular, e se o cara tiver algum problema, pode morrer... Outra coisa: com o tempo, o organismo absorve aquilo, o efeito passa, e o cara volta a beber igual.
Qual é o público do A.A.?
Somos o último recurso. Quem chega no A.A. está no desespero, já procurou, ou procuraram por ele, a clínica médica, psicológica, as igrejas, os remédios... Nós só ajudamos quem quer ser ajudado. O alcoolismo é uma doença que se desenvolve em mais ou menos 10% de quem bebe. Os outros 90% podem se embriagar eventualmente, mas não criam dependência.
Como o A.A. trabalha?
Para nós, não é só parar de beber, você tem que ter uma sequência espiritual - que é para todas as religiões. O cara tem que se arrepender, corrigir as coisas erradas que fez. Nós temos um sistema de 12 passos que ajuda o cara a mudar de vida.
SERVIÇO
Outras informações no www.alcoolicosanonimos-pr.gov.br ou no (43) 3323-7336.


