EditorialLuta contra a fome
As violentas cenas de confronto entre a população e membros das forças de segurança da Indonésia, mostradas pela televisão, e que lembram ocorrências similares em outros países, provocam sentimento de revolta e medo, ainda que reflitam a reação de uma coletividade desesperançada. De fato, o que se passa hoje na Indonésia é uma tragédia provocada por uma série imensa de fatores, o mais sério dos quais o do abuso político que produziu um governo verdadeiramente dissociado dos interesses e do bem-estar da população. A revolta popular é, normalmente, uma reação diante de situações inaceitáveis, de um sofrimento sem solução ou alternativa. Quase sempre, ocorre diante de governos totalitários e corruptos, que tentam se eternizar no poder, usando de todos os meios imagináveis, só sendo contidos pela manifestação quase desesperada dos que são oprimidos e humilhados por longo tempo.
Esta não é, inegavelmente, a situação brasileira atual. O país enfrentou uma dura época totalitária, com todos os seus efeitos nefastos. Houve repressão e violência, além de imensas dificuldades para a população, que chegou a enfrentar séria recessão. Todavia, mesmo naquela época, a reação popular não chegou ao ponto de uma violência tenebrosa. Houve conflitos, mas o Brasil, através de seu povo e também do governo totalitário, acabou encontrando caminhos mais amenos - e positivos - para resolver sua crise. De tal modo que a redemocratização prescindiu de choques intestinos, acontecendo de modo lento e gradual (como pretendeu o último presidente do período ditatorial, Ernesto Geisel), desembocando o processo na situação atual.
Existem hoje muitos e grandes problemas no Brasil, sem dúvida. Há o desemprego, que constitui drama terrível, existe a seca, que produz fome para 10 milhões de brasileiros, estão aí as doenças atingindo até mesmo regiões consideradas desenvolvidas. São muitos os desafios, mas não se pode sequer justificar atitudes de violência como saída para tentar encontrar soluções. Estimular saques, como está se notando no Nordeste, ou provocar manifestações junto a supermercados, o que está se fazendo em alguns pontos do Estado de São Paulo, constituem formas erradas de agir, ainda mais neste momento.
Pior é que estas manifestações são organizadas por entidades legalmente constituídas, como a CUT, Central de Movimentos Populares, Movimento dos Sem-Terra e Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto. Anunciar que o ato é simbólico, que os manifestantes - que planejam permanecer por 24 horas no pátio de alguns supermercados - estão orientados no sentido de não provocar nenhuma ação mais radical, como saques ou confrontos com seguranças, não é suficiente. Na verdade, a manifestação em si é violenta e a possibilidade de choques é real.
O mais grave, porém, é que este tipo de atitude não ajuda a resolver os problemas colocados ali, como os da fome e desemprego. Muito mais adequadamente age uma central sindical, que resolveu promover cursos de habilitação profissional para milhares de pessoas, partindo da premissa de que este é o caminho para dar mais possibilidades ao povo de resolver seus problemas, notadamente o da falta de emprego.
‘‘A ordem é ninguém passar fome’’. Esta é a frase criada para a campanha contra o desemprego, lançada ontem. Não há quem possa ser contra este tipo de palavra de ordem. Entretanto, não é preciso violência e nem confrontos para resolver este desafio. Ao contrário, o que se reclama é união e objetividade no sentido de dar ao povo aquilo que reclama e precisa.

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