LUTA CONTRA A AIDS O preconceito é o maior inimigo
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domingo, 01 de dezembro de 2002
Ana Setti<br> Reportagem Local 
Luciana (nome fictício) estava com 22 anos quando soube que tinha Aids. Acabara de fazer uma série de exames no hospital, à procura de uma explicação para as convulsões que sofrera recentemente. Os médicos a chamaram para uma conversa, mas ninguém parecia ter coragem de lhe dizer alguma coisa. Ela esperava, aflita. Finalmente, um deles comentou, penalizado: ''Você está com HIV''. Apesar da seriedade do momento, Luciana não entendeu bem o que estava acontecendo e perguntou: ''Isso morde?''
Só foi ter alguma reação depois de 20 minutos. Chorou e se preocupou com a filha, com 3 anos na época. Será que ela também estaria infectada? Não estava e ficou aliviada por isso. Logo, contudo, vieram a revolta e o sentimento de culpa. ''Por que eu?'', ela se perguntava. ''Como é que eu fui me deixar contaminar?'' A partir daí, começou uma caminhada em busca de informações, esclarecimentos, apoio e tratamento, que já dura 4 anos. Casou-se pela segunda vez e o atual marido, que não é portador de HIV, a ampara em sua luta. As exigências do tratamento a impedem de trabalhar fora. Por isso, com o auxílio-doença que recebe mensalmente, compra algumas roupas para a filha e linha para fazer peças de crochê, que vende na vizinhança onde mora.
Luciana acredita que ''a cura está acontecendo a cada dia''. Com a doença, aprendeu a se cuidar e a se valorizar mais e ''a aproveitar o que é de melhor agora''. Contudo, sofre com o preconceito, que ela já viu que pode alcançar e fazer sofrer a sua família. Quando foi procurar uma creche para deixar a filha, soube que havia três vagas disponíveis. Ao revelar que sua decisão se devia ao fato de estar doente, com Aids, as vagas desapareceram como num passe de mágica e só voltaram a aparecer quando uma equipe de profissionais de saúde interviu, afirmando que a filha de Luciana não era portadora de HIV e, mesmo que fosse, teria assegurado o direito de frequentar qualquer instituição.
Roberto (nome fictício), 39 anos, desconfia que se contaminou ao compartilhar seringas com colegas usuários de drogas injetáveis. E achou que devia fazer um exame, para comprovar sua suspeita, quando muitos desses mesmos colegas começaram a morrer por causa da Aids. Estava, então, com 27 anos e, além de usar drogas, bebia muito. Depois de confirmada a contaminação, decidiu beber ainda mais. ''Vou morrer mesmo'', pensava, encontrando uma desculpa para não assumir a doença.
Essa atitude, contudo, fez com que seus problemas se multiplicassem, levando-o a uma internação por neurotoxoplasmose. Na estada no hospital, como conta Roberto, ''a junta médica me perguntou se eu sabia o que era uma casa''. Ele sabia, naturalmente. Aí lhe disseram: ''Pois é, da sua casa já caíram três paredes, mas ainda tem jeito de reconstruir, o que você quer fazer?'' Ele optou pela reconstrução.
Trabalhando eventualmente como pedreiro, há 1 ano e meio Roberto não bebe mais e toma a medicação ''direitinho''. Casado e com uma filha de 5 anos, que não é soropositiva, ele acredita no futuro. ''Estou esperando pela vacina'', comenta, animado. Procura não pensar na Aids, mas, às vezes, o preconceito não o deixa esquecer. Como exemplo, cita o caso de seus tios, que evitam usar os talheres de sua casa ou o banheiro em que ele tenha estado.


