Buenos Aires - O futuro presidente Luiz Inácio Lula da Silva embarcou ontem no final da tarde para sua primeira viagem internacional depois de eleito. Ele tinha chegada prevista na Argentina por volta das 22 horas, na base aérea militar Aeroparque, onde seria recebido pelo chanceler argentino, Carlos Ruckauf.
  Lula visita uma Argentina que pede aos gritos tábuas de salvação, como o ressurgimento do Mercosul para o governo peronista de Eduardo Duhalde ou o nascimento de heróis e modelos a serem imitados, para a oposição de centro-esquerda.
  Abandonada pelos círculos financeiros globais, que lhe retiraram o apoio pelo menos até que firme um acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Argentina se volta cada vez mais para seus sócios regionais, buscando um salva-vidas para não afundar no enfurecido mar de sua crise econômica, social e política.
  O Brasil, o gigante sul-americano e principal sócio comercial da Argentina, aparece como um bálsamo em um horizonte com mais dúvidas do que certezas para o governo de transição de Duhalde.
  Durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, o Brasil soube manter separadas as águas para não ficar ligado a uma Argentina que em dezembro de 2001 declarou a moratória unilateral com credores privados, e com elegância mas firmeza deu um profundo ‘‘não’’ à proposta de Duhalde de formar um clube de devedores.
  O Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, com Chile e Bolívia como sócios externos) apareceu então como o cavalinho de batalha para Duhalde em seu duplo jogo de insistir num acordo com o FMI e de encostar-se em seus vizinhos subcontinentais.
  Nessa política, Duhalde valoriza o fato de Lula, um símbolo da esquerda sul-americana, ter escolhido Buenos Aires como primeiro destino internacional depois de seu triunfo no segundo turno da eleição presidencial em 27 de outubro.
  O mandatário argentino continua intrigado com a possibilidade de que outro peronista, o ex-presidente Carlos Menem, possa sucedê-lo na Casa Rosada.
  Tamanha é a inimizade entre os dois homens que compartilharam a chapa vencedora de 1989 que os menemistas acusam o atual chefe de Estado de intensificar manobras sujas para impedir a reeleição de Menem, ao mesmo tempo em que líderes piqueteiros (pobres e desempregados) acusam os partidários de Menem de fomentar o caos e instigar saques para desestabilizar Duhalde.
  Continua soando como a mais suave das melodias nos ouvidos de Duhalde a declaração de Lula durante sua campanha eleitoral, quando colocou Menem no pódio dos governantes corruptos da América Latina.
  A verdade é que todos, ou quase todos, do Governo ou da esquerda, vão querer sair na foto junto com Lula em sua curta permanência em terras argentinas, antes de embarcar para o Chile amanhã.

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