Mesmo que nada mais aconteça, Caetés, no sertão pernambucano, nunca mais será a mesma. Há cinquenta anos uma família de retirantes - a mãe e oito filhos - deixava a então Vargem Grande num ``pau-de-arara`` para fugir da seca, da fome e da miséria absoluta que ainda teimam em resistir. Destino: São Paulo. Meio século depois, cumprindo à risca o que escreveu Euclides da Cunha, em ``Os Sertões`` - ``o nordestino, antes de tudo, é um forte`` - Luiz Inácio Lula da Silva sobrevive à fome, à seca, à miséria e é eleito Presidente da República.
Pela primeira vez na história deste país as chamadas elites dominantes são obrigadas engolir, a contragosto, o sabor amargo da derrota. Não que estes donatários tenham vencido sempre, mas ao longo de cinco séculos foram suficientemente hábeis para se alternarem na composição e condução dos interesses comuns, onde cada clã mantinha seu quinhão e depois, numa espécie de partilha consensual, definiam regras segundo as conveniências. O que não imaginavam é que um dia o poder, até então exercido pela aristocracia, pudesse cair nas mãos de um operário nordestino, sem curso superior ou qualquer outra formação acadêmica.
Lula é simplesmente um brasileiro. Um mortal comum que sentiu na pele a desgraça de viver no submundo da sorte, cujo desafio maior foi superar os preconceitos dos que se julgam acima do bem e do mal. Forjado pela vida, seguiu seu destino buscando não só enfrentar como vencer os obstáculos. Em alguns foi vitorioso; noutros derrotado. Agora, conquista a maior de todas as suas façanhas: a Presidência da República.
Enquanto isso, na Casa Grande, a nobreza torce a boca, olha de soslaio e não admite que um operário troque o macacão de metalúrgico pelo terno George Armani; ou então, que possa degustar um vinho Romanée-Conti. À Senzala sempre esteve reservado o prazer menor, como um trago de cachaça ou algumas cervejas nos fins de semana. Quando muito, o futebol, afinal, o espetáculo tem que continuar.
A realeza verde-amarela foi incapaz de compreender, em quinhentos anos de história, que se a pátria amada não deu certo é justamente porque os excluídos são muitos; os contrastes sociais são gritantes, abismais; daí o porquê somos um dos países mais injustos e cruéis em termos de distribuição de renda. E é por isso que deu no que deu. Durante anos o Carnaval e a bola serviram de antídotos capazes de anestesiar consciências, mas com o passar dos anos, o povão descobriu que a democracia é um instrumento eficaz, passível de mudar os caminhos e os destinos de toda a gente. Por isso resolveu tentar.
Mas não se iludam, pois as transformações não virão do dia para noite. O terrorismo financeiro, alimentado pelos que ganharam sempre - e muito - permanecerá atento na defesa intransigente de seus interesses; as oligarquias políticas, principalmente as que se alternaram no poder durante décadas, não vão entregar a rapadura de graça; o fisiologismo, uma prática incrustada nos hábitos da vida pública desde os tempos do império, sem dúvida permanecerá na espreita em busca de um vácuo no poder. É a lei da sobrevivência. Muito menos Lula, como presidente, será capaz de alterar os rumos da história num passe de mágica.
A experiência petista, inédita, não pode ser mensurada quanto aos resultados futuros. O placar das urnas, tanto no primeiro como no segundo turno, deixou um claro recado que o Brasil requer profundas transformações. Durante o processo eleitoral, alguns setores tentaram criar um cataclismo infundado, uma guerrilha eleitoreira onde o argumento era que a mudança geraria uma instabilidade política e econômica capaz de levar o País à bancarrota. Nada foi suficiente para brecar os anseios dos eleitores. A sociedade está madura.
O País vive um processo democrático pleno e ninguém conseguirá assaltar os sonhos de cada brasileiro. Além do que, o papel do Congresso Nacional será fundamental para garantir a governabilidade, através de um presidente eleito pela vontade da maioria.
Afinal, Lula chegou lá.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba

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