Salvo um fato inusitado, o candidato do Partido dos Trabalhadores, Luiz Inácio Lula da Silva, deverá ser escolhido no próximo domingo o novo Presidente da República. Segundo o diretor do Ibope, Paulo Montenegro, seu potencial de votos para o segundo turno no Rio de Janeiro pode atingir a estratosférica marca de 82% dos votos válidos. Mais: chega a afirmar que ''nada é capaz de impedir a vitória de Lula''. Só ele próprio. Para o diretor do instituto Datafolha, Mauro Paulino, ''uma eventual reversão por parte do tucano seria um feito inédito, sem precedentes no histórico das pesquisas''.
A presumível derrota traz a reboque uma série de fatores que podem explicar a frustrada tentativa do senador José Serra. A mais lógica é, sem dúvida, a insatisfação da sociedade com os rumos do País, principalmente a partir do segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso. O curioso, no entanto, é que a popularidade de FHC anda, segundo os institutos de pesquisas, com índices acima de 30%. Mesmo assim, foi incapaz de transferir, em forma votos, sua performance ao candidato tucano.
Este percentual demonstra que o cidadão Fernando Henrique Cardoso deixa o governo sem nenhuma pecha que possa macular seu extenso currículo de intelectual e político. Pode-se discordar dos métodos econômicos ou sociais praticados em sua administração, no entanto, sua conduta ética e, principalmente, sua condição de estadista, é irreparável. O problema é que estes dois atributos pessoais - principalmente o primeiro - podem ser condições necessárias, porém não suficientes para que a tigrada tenha, no mínimo, uma vida digna e condições de sobrevivência.
FHC - e por conseguinte seu candidato, José Serra - foram julgados pelos resultados que apresentam agora, depois de quase oito anos de governo. Politicamente o erro de Serra foi tentar se postar na condição de candidato oficial sem o ônus que o poder traz consigo. Tentou mostrar aos eleitores que seu governo seria uma continuidade dos acertos de FHC, mas foi incapaz de explicar em quê; afinal, para isso, seria necessário reconhecer que nem tudo foi um mar de rosas. Durante toda a campanha ele viveu o drama hameletiano do ''ser ou não ser. Eis a questão''.
Sua candidatura, na realidade, já nasceu fragilizada em forma de ''crônica de uma morte anunciada''. Em primeiro lugar dentro do próprio PSDB, uma vez que seu nome nunca foi consenso entre os tucanos. Serra se impôs goela abaixo na expectativa que, no futuro, houvesse uma união ao seu redor. Depois, quando acreditou que poderia vencer trazendo apenas o PMDB como aliado, deixando o PFL à margem, afinal, o ''pefelê'' - segundo imaginou -viria no vácuo da situação. Acontece que a pedra no caminho chamava-se Roseana Sarney e para detoná-la, os engenheiros políticos usaram uma dosagem de nitroglicerina que arremessou estilhaços por todos os lados, fragmentando ainda mais o que tinha pouca consistência. Aliás, até mesmo o PMDB veio rachado. O governador de Minas Gerais, Itamar Franco, que garantiu um caminhão de votos a Lula, à época foi um dos primeiros a pular fora do barco.
A estratégia de marketing para o horário eleitoral do rádio e televisão foi outro fracasso. No primeiro turno, os tucanos elegeram Ciro Gomes como adversário; na reta final, as baterias se voltaram contra Lula para garantir a ida ao segundo turno, porém todas as consultas mostravam que, à medida que subia o tom das críticas, Serra patinava e não conseguia superar seus limites.
Agora no segundo turno, a diferença se amplia cada vez mais e todos os indícios são claros em apontar o petista como vencedor. Se alguma lição deve ficar ao PSDB - e ao próprio candidato - é que as evidências não podem ser subestimadas. Há quem diga que a onda agora é Lula, por isso qualquer candidatura estaria fadada ao fracasso. Pode até ser verdade. Mas a razão fundamental da mudança não é, necessariamente, a força do PT. Simplesmente a sociedade aprendeu a gritar e descobriu que o voto é uma arma poderosa e por isso quer mudar. Daqui a quatro anos quem sabe a história se repita, afinal, isso tem nome: chama-se democracia.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba

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