Quando o presidente Lula, já reeleito, manifestou o propósito de reunir-se com as lideranças dos partidos e com os futuros governadores - o que deverá ocorrer ainda neste ano - o questionamento deste Jornal foi quais projetos o Presidente irá levar em mãos para esses encontros. Porque, para obter o apoio que espera dos aliados e das oposições, precisará apresentar propostas que os sensibilizem e os envolvam numa agenda comum pró-Brasil. Passadas duas semanas da vitória de Lula, alguns notáveis da imprensa paulista fazem indagações idênticas e cobram programas mais consistentes de governo para o segundo mandato, que não sejam apenas de opção pelos pobres em forma da assistência individualizada, embora isto também seja necessário diante de tanta pobreza acumulada. O enfoque é sobre o que o novo Governo Lula - e já ninguém menciona um Governo petista - vai fazer para a arrancada do crescimento econômico. A expectativa é que haja prioridade para o desenvolvimento via incentivo aos negócios, que são os que acionam a economia, geram empregos e recolhem impostos, pois esta é a mais salutar fórmula de eliminar as misérias. Mesmo com a ampliação da Bolsa-Família, que catapultou o Presidente para o segundo mandato, o produto interno bruto permaneceu estacionado e ficou em penúltimo lugar no ranking da América Latina. Fazer governo com preferência apenas para os pobres poderá torná-los ainda mais pobres, porque se falta a alavancagem à cadeia produtiva, o padrão de vida dos patrícios carentes não melhorará e poderá agravar-se, e assim quem tem emprego correrá o risco de perde-lo e quem não o tem não terá chance de sair dessa condição. Ontem, o pronunciamento de Lula preocupou. Ele disse que manterá o atual modelo econômico, que conforme seu entendimento ''foi um sucesso'' (embora fale em aperfeiçoá-lo), e que não pensa em reduzir gastos. O Brasil perde para a China e para a Índia em investimento produtivo, e para emergir desse desconfortável patamar o governante Lula terá de fazer malabarismo e recuperar o tempo perdido. Os críticos mais contundentes incitam o futuro Presidente a abandonar a sua propensão para ser ''pai dos pobres'', a menos que, paralelamente, cuide também dos ricos e capitalistas, isto traduzindo-se pelos que tocam empresas e se arrojam em empreendimentos e são os que podem salvar o Brasil. Porque eles são indispensáveis. O paternalismo assistencial pode continuar, porém seguido de um macro-programa de incentivo à cadeia produtiva e aos serviços, o que passa pela reforma de leis, pela diminuição da carga tributária e das amarras da burocracia, e pela modernização da infra-estrutura instalada. Uma pesada avaliação é que Lula, mesmo que bem intencionado, não tem ousadia, não se arrisca e contenta-se com o ir levando; e que é um conservador, o que contraria o apregoado ideário petista, que acabou revelando-se não mais que um ideário e não um revolucionário projeto de governo, destes que entusiasmem a nação e a façam marchar junto.

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