Lula, o presidente 'superstar'
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domingo, 24 de novembro de 2002
Agência Estado 
São Paulo Quando a porta da garagem se abre, um nervosismo, misturado com ansiedade toma conta dos admiradores. Fotografia, autógrafo ou um simples abraço é suficiente para acalmar os ânimos dos presentes. O carro sobe a rampa e, de repente, o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), desce para ir ao encontro dos fãs.
Não tem como errar. Quando Lula está em seu apartamento em São Bernardo do Campo (SP), invariavelmente, uma legião de admiradores toma conta da entrada do prédio. O horário para encontrar o presidente 'superstar' é sempre o mesmo: entre 8h e 9h. Para essas pessoas, Lula significa esperança, desejo de um País melhor. E orgulho de ver que alguém como elas tornando-se presidente do Brasil.
Muitos o acompanham de longa data desde 1978, quando greves pararam o ABC; desde 1980, quando o PT foi fundado. E o sentem tão próximo como naquela época. ''Ele é companheiro, perseverante, não decepciona'', diz a dona de casa Lúcia Costa, de 54 anos. Ela conta com orgulho que foi uma das primeiras filiadas do partido.
Com caneta e um pedaço de papel, lá foi ela enfrentar a pequena multidão e passar por baixo dos braços dos seguranças. ''Eu o abracei e disse a ele que lutei muito para vê-lo presidente.'' A assinatura de seu herói está bem guardada e só não vai ser enquadrada porque o papel não faz jus a importância do rabisco.
Neide de Carvalho, de 46 anos, já teve oportunidade de levar o papel que quis para Lula autografar. Conseguiu quatro. Um deles tem destino certo. ''Liguei para minha irmã no Ceará e disse que sou íntima do presidente.'' Segundo Neide, a irmã ficou tão empolgada que encomendou o dela.
Para Neide, que conheceu Lula em 1979, conseguir abraçar o presidente é fácil. Neide é babá de Pedro Henrique, um garoto de 9 anos, que faz aulas de futebol em uma escola ao lado do apartamento do presidente. ''Quando ele está em casa, corro para a porta da garagem para vê-lo.'' Pedro gostou da brincadeira e ganhou um autógrafo no calção. Para comprovar, caso a tinta da caneta saísse na hora da lavagem, tirou várias fotos da peça.
Lula também autografa camisa, calça, boné, carteira de identidade e até maços de cigarro, como o de Laura Coelho, de 43 anos. ''Só tinha o maço na mão. Não pensei duas vezes.'' A recordação será guardada junto com duas revistas com a história de Lula e uma fita com a gravação de um programa especial sobre ele.
O encontro na última semana não foi planejado, mas não foi a primeira vez que Laura tentou chegar perto de Lula. Como vota na mesma escola que o novo presidente, para ela, dia de eleição é dia de plantão. ''Chego cedo e espero ele aparecer'', afirma. ''Por duas vezes dei sorte e o vi votando, mas tinha muita gente''.
''Que Deus te abençoe, para você abençoar o Brasil'', foi a única frase que, emocionada, Laura conseguiu dizer. Ela estava preparada para fazer apenas um aceno para o presidente eleito. Mas ele, como faz na maioria das vezes, desceu do carro, na porta da garagem. ''Eu ia só jogar um papel pela janela do carro, para perguntar se ele leu as duas cartas que lhe mandei: uma no primeiro e outra no segundo turno''.
Mas reconhece que foi muito melhor. Quando chegou em casa, seu marido, Gilmar, que, segundo ela, ''já bebeu com o Lula'' e seu filho, apelidado de ''PTzinho'' desde pequeno, não acreditaram. ''A emoção é muito grande e a gente sempre sonhou com esse momento.''
O comerciante Gilberto Gonçalves, de 47 anos, também passa com frequência na frente da casa do antigo ''companheiro'', mas só o encontrou uma única vez. ''Foi de madrugada e ele desceu do carro para me cumprimentar''.


