As últimas pesquisas de opinião começam a reforçar uma tendência que já vinha se delineando há três meses. Fernando Henrique será um grande eleitor no pleito de outubro e um candidato governista passará ao segundo turno com muita probabilidade de vencê-lo. A surpresa vem por conta da ascensão vigorosa de Roseana Sarney, que, na última pesquisa do Datafolha, aparece com 23%, tecnicamente empatada com Lula. Quais as explicações para se entender os eixos que movimentam a roda pré-eleitoral?
Primeiro, a ajuda de São Pedro. As fortes chuvas que molham todas as regiões do País afastaram de vez a ameaça do apagão. Segundo, a passagem incólume pelo túnel da crise na Argentina. O barulho do panelaço diário quase chega aos nossos tímpanos, mas o Brasil não recebe nenhum impacto. Os investimentos internacionais não tiveram o fluxo de ingresso interrompido. A recuperação surpreendente da economia norte-americana emerge como um pano de fundo azul a enfeitar os nossos horizontes.
No plano interno, a dengue, é verdade, pode picar a imagem do governo, particularmente a pele do candidato tucano José Serra. Ocorre que o efeito da dengue, mesmo assumindo uma caracterização de epidemia, incrustou-se no sistema de cognição dos brasileiros, porque vem sendo noticiado, em pílulas, há bastante tempo, não ocasionando o rombo devastador das grandes novidades. Ademais, a atuação do ex-ministro Serra em outras áreas – genéricos, combate à Aids – aparece como contraponto para desviar parcela das críticas.
No campo político, as maiores surpresas ocorrem, primeiro, no campo do PT. A queda de Lula nas pesquisas tem como explicação uma teia de complicações que embaralha os avanços do partido. O deslocamento do PT para o espaço do centro e, mais ainda, em direção a clássicos redutos da direita, está entortando sua coluna vertebral, abrindo insuperáveis atritos internos e provocando o que, na linguagem do marketing político, chamamos de desvio da identidade. O PT passou décadas combatendo as práticas do liberalismo, incriminou os evangélicos da Igreja Universal, em quem identificava as práticas da mais pérfida comercialização religiosa, e nunca cultivou em seu ideário as rezas que, hoje, Lula, o novo convertido, faz questão de invocar. A busca de apoio do PL, com o grupamento da Igreja comandada pelo bispo Edir Macedo, deve estar revirando apóstolo liberal Álvaro Vale, em seu túmulo, ele que via no PT a encarnação da maldade sobre a terra.
A queda de Lula tem, porém, outras origens. No momento em que aparecem mais perfis na linha do horizonte, o efeito-comparação ganha corpo. Lula tem uma imagem saturada. A liturgia que o embala, a voz, os gestos, a peroração plena de diagnósticos, os velhos chavões, a retumbante trombeta contra os efeitos perversos da globalização, os contatos com Fidel Castro (Cuba), o coronel Chavez (Venezuela) e Alejandro Toledo (Peru), líderes que tanto admira, são fatores que corroem a base de sua sustentação. Ou seja, Lula, ao invés de correr o mundo das grandes lideranças modernas, percorre a geografia do retrocesso. E para arrematar a imagem em corrosão, há as panelas argentinas, que conduzem a uma inexorável comparação, ou seja, com Lula no poder, a situação brasileira poderia se assemelhar à da Argentina.
O Brasil estável e equilibrado, em um contexto internacional favorável, é o maior endosso a uma candidatura governista. A questão é saber: quem irá para o segundo turno? Roseana ainda é um balão com gás. Mas Serra não pode ser desprezado, até porque é o mais preparado entre os candidatos e a eleição privilegiará o discurso. Garotinho tem condições de crescer, até que o eleitorado ingresse no funil de uma polarização, onde serão identificados com nitidez os campos situacionista e oposicionista. O dilema do governador do Rio é o de aumentar os palanques nos Estados. Está difícil.
No mais, a conclusão que parece estar ficando clara, pela indicação das tendências: hoje, as chances de vitória de um candidato do governo subiram para algo em torno de 27% a 30%. Esta campanha tem um diferencial de outras: nunca os contendores, no início da corrida, estiveram tão próximos uns dos outros.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e consultor político

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