Lula e o MST
Maria Lucia Victor Barbosa
Já escrevi neste ‘‘Espaço Aberto’’ que o Movimento dos Sem-Terra é o braço armado do Partido dos Trabalhadores no campo, mas creio que preciso esclarecer melhor essa afirmação. Evidentemente, nem todos os indivíduos que seguem as lideranças do MST são potencialmente revolucionários. Diria mesmo que a maioria inserida nas invasões de terras se divide basicamente em duas partes: a primeira é do meio urbano e tem origem rural, e gostaria de voltar às suas raízes como proprietária de um pedaço de chão. São estes os vocacionados da terra, que ainda mantém nas mãos os calos adquiridos no trabalho árduo da lavoura. E deles ouvi muitas conversar que registrei fielmente no meu livro ‘‘O Voto da Pobreza e a Pobreza do Voto - a ética da malandragem’’.
Recordo-me, por exemplo, das palavras de Luís Amâncio Alves, nascido em Campo do Brito, interior de Sergipe, e que hoje deve estar, se ainda vivo, com setenta anos. Quando lhe perguntei o que o presidente Sarney devia fazer para melhorar a situação dos brasileiros, ele respondeu com seu palavreado peculiar: ‘‘O que eu achava que ele podia fazê era esse tar de negócio da reforma. Quem quisesse ir pra roça, fosse. E ponhava indústria na cidade pra dá emprego. Mas num tá certo tomá as terra dos fazendeiro. E num basta só dá terra. Sem semente, sem nada, sem crédito, que é que vou fazê? Morrê de fome? Eu, no meu eu, penso que o governo tem de dá a terra e tem que fornecê o necessário um ano. Dentro daquele ano a pessoa tem de produzi’’.
No mesmo tom e tipo de linguagem, manifestou-se José Filomeno dos Santos, conhecido por Mata-Sete: ‘‘Pro presidente ajudá mesmo, tinha que fazê a reforma agrária, que o pessoal tá tudo amontoado nas cidade grande, nas cidade pequena. Se tirasse a metade do povo pras parte da agricultura, ia ficá bom no comércio. Num tinha concorrência de ter 10 emprego e 20 desempregado. Dez família pra lá já é 10 vaga que fica aqui na cidade. Então nos tamo é muicho embolado. Tivemo nas colônia dos rico, caímo nas margem das cidades pra dar trabalho pra sociedade, onde nós podia tá dando era vida pras pessoa. Que é da lavoura que a gente produz. É da lavoura que a gente sustenta a cidade.
No raciocínio da também favelada e analfabeta, Maria Sebastiana, tão pouco faltaria a lucidez presente nas respostas dos muitos que entrevistei: ‘‘Com a reforma agrária, acaba todo o sofrê, acaba o povo sem-vergonha, acaba a malandragem. Mas num é nada, a malandragem é porque o povo quer mesmo, num é? De fome ninguém morre. Se eu hoje num tenho cedo comida, de tarde eu já tenho. Essa reforma interessa pra quem já tá acostumado a trabaiá. Mas pra vagabundo, num tem serviço pra ele. Vagabundo qué serviço? Qué não. As vezes, olha o serviço, entra dois, três dias, e depois não quer mais’’.
As opiniões sobre a reforma agrária, que ouvi de pessoas humildes, foram dadas com entusiasmo, com emoção, com misto de sabedoria e ingenuidade, mas ao mesmo tempo com ponderação nas soluções apresentadas. Isto, contudo, não descartava uma certa revolta latente, cujo potencial, sem dúvida, é hoje largamente aproveitado pelos que manipulam o MST. Além do mais, a manipulação alcança a segunda parte da maioria que segue o Movimento, ou seja, os não-vocacionados do campo, que jamais se adaptariam à vida rural, preferindo suportar as agruras do meio urbano, e que usam de esperteza para ganhar um pedacinho de chão que depois será vendido. Estes, especialmente, dão o tom capitalista do Movimento, apresentado equivocadamente pelas lideranças como anti-capitalista. Eles são capazes de matar se for preciso, dos fazendeiros aos seus iguais, não porque sejam socialistas revolucionários, mas simplesmente porque defendem com unhas e dentes sua pequena propriedade privada, conquistada ou a ser conquistada com fins especulativos e, portanto, com objetivos de lucro individual.
Por trás da violência levada ao campo, regozijam-se os verdadeiros líderes. Não um José Rainha, que seria julgado no ano passado por duplo assassinato, mas cujo julgamento desapareceu misteriosamente nas brumas de certos bastidores do poder. Não um Stédile, que vocifera e ameaça, e depois recua sinuosamente, jogando com a simulação e a deturpação, ou os demais que aparecem na imprensa com a mesma arrogância advinda da impunidade. Por detrás do MST estão os verdadeiros líderes, aqueles que se interessam pela desestruturação da sociedade a partir da desestruturação do campo, pois são adeptos do quanto pior melhor com vistas a galgar o poder. São eles os falsos defensores dos fracos e oprimidos, manipulando através dos seus envaidecidos marionetes a pobreza, a miséria, o desespero e, porque não, a esperteza, marca cultural tão nossa que impregna a sociedades através de todas as classes sociais.
Agora o MST apregoa o que já se sabia: irá apoiar a candidatura de Lula. É o braço armado do PT no campo assumindo escancaradamente o jogo político, em que pese alguns líderes insistirem numa autonomia que não possuem. mas talvez por esse apoio, Lula e Brizola poderão perder para Enéas. Em breve as urnas poderão confirmar essa previsão.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga.

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