Lula, de terno Armani
As mudanças de discurso e de imagem do candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, sempre podem dar argumento aos adversários para questionar a sua sinceridade política. Faz sentido no País que ignorou o passado de um presidente, votou nele e no seu impeachment, apenas dois anos depois. Mas é no plano dos costumes que as reações às suas mudanças são mais surpreendentes. Quanto mais Lula se esforça para entrar no estereótipo do presidente da República ternos bem cortados, cabelo escovado, sapatos lustrados , mais é lembrado de sua origem humilde, de metalúrgico sem cultura e trato.
Durante entrevista à Rádio CBN, esta semana, Lula reagiu às críticas à sua nova imagem chamando-as de preconceituosas. As pessoas acham que, por ter sido metalúrgico, tenho de andar de macacão e sandália. Ainda não estou usando Armani, mas vou usar, disse Lula, referindo-se à grife italiana que faz um dos ternos mais bem cortados do mundo. Não tenho nenhum preconceito contra coisa boa. O candidato do PT pode ter mudado ao longo do tempo, mas, pelo jeito, a sociedade, não.
Ainda se acredita que pessoas de origem humilde não sabem apreciar as coisas boas da vida, como um vinho importado ou um tecido macio. Idéias assim justificam a exclusão social e geográfica de boa parte dos brasileiros. Não são raros os casos de moradores de centros urbanos que se revoltam contra a implantação de linhas de ônibus ligando-os à periferia. Ou contra a construção de escolas públicas em áreas consideradas nobres. O apartheid social, portanto, não pode ser atribuído apenas à ausência de políticas públicas voltadas para a população mais pobre, mas à dificuldade da chamada classe média de bem em conviver com os excluídos.
O poder público é reflexo desse tipo de pensamento. Boa parte das obras sociais, como escolas ou casas populares, é feia, mal-acabada e malcuidada. Com a desculpa de que os prédios logo serão depredados por uma orda de garotos violentos, constroem-se verdadeiros caixotes de cimento. Sem nenhuma preocupação com o conforto dos ocupantes. Os chamados centros culturais da periferia, em geral, não têm quadros pendurados na parede ou flores nas mesas e janelas.
Aliás, centros culturais na periferia são poucos. Comuns mesmo são os centros de lazer, com campos de futebol e quadras de bocha. Afinal, não é isso que esse pessoal gosta? Conjuntos populares, na prática, viram favelas de alvenaria por falta de manutenção e infra-estrutura. Acredita-se que, para quem tem muito pouco, qualquer coisa ajuda. É assim também quando se faz caridade. Dão-se coisas velhas, às vezes rasgadas ou defeituosas, porque quem recebe pode nem notar a diferença. Seria um desperdício dar coisas novas.
O componente social ainda não apareceu de forma clara na campanha eleitoral, porque é politicamente incorreto lembrar as diferenças de origem entre as pessoas. Mas é óbvio que sentimentos como esses ainda existem na sociedade, refletidos nos elevadores reservados para empregadas domésticas, por exemplo, apesar da proibição legal. Ou no medo generalizado da implantação de políticas de cotas para negros nas universidades e no serviço público.
A eleição presidencial deste ano promete grandes emoções. Primeiro, porque será disputadíssima e não há um só guru exotérico capaz de prever os seus resultados. Depois, porque trará à tona sentimentos de classe que nem o mais bem cortado terno Armani poderá disfarçar.
ARLETE SALVADOR é jornalista em Brasília





