Atribui-se ao ex-senador mineiro, Magalhães Pinto, a frase de que ‘‘política é como nuvem: você olha tem uma forma; quando olha outra vez, já tem um novo formato’’. Qualquer analista que se debruçasse sobre os números ou fatos da sucessão presidencial há trinta dias, diria que naquele instante a incógnita era saber quem disputaria com o candidato do Partido dos Trabalhadores o segundo turno das eleições. Nos dias atuais, apesar de Lula continuar liderando todas as pesquisas, o que alguns começam a questionar é quem será o adversário do senador tucano José Serra, pressupondo que haverá uma reviravolta nos números e na ordem de classificação dos postulantes. Um sem número de dossiês, invasões, bate-bocas, acusações, acabaram ressuscitando e transformando o processo eleitoral no Febeapa, de Stanislaw Ponte Preta - o Festival de Besteira que Assola o País.
Nas últimas três eleições, as pesquisas mostraram que Lula disparou na liderança nos primeiros meses para depois amargar derrotas sucessivas. Em 89, disputou e perdeu no segundo turno para Collor de Mello; em 94 e 98 foi nocauteado no primeiro round pelo presidente Fernando Henrique. A maldição do petista é que sua votação não consegue romper muito além da casa dos 30%. Neste ano, outra vez saiu na frente - e ainda permanece - mas já começa dar sinais de ‘‘cansaço’’. Os institutos têm apontado índices que o colocam na faixa dos 25-26%, porém num processo de queda nas intenções de voto. Se já havia um certo temor nas hostes petistas, certamente que após o episódio de invasão da fazenda dos filhos do presidente FHC, por parte do Movimento dos Sem Terra - MST, a coisa transformou-se em pânico.
A reação imediata dos adversários de Lula foi associar o MST ao PT. Aliás, o primeiro a manifestar-se publicamente foi o ministro da Justiça, Aloysio Nunes Ferreira, numa ação no mínimo desastrosa para quem ocupa um dos cargos mais importantes. Tanto que o próprio presidente veio a público no dia seguinte para amenizar as declarações de seu subalterno. Desde sua criação, o PT sempre apoiou as ações do movimento em ocupações de propriedades agrícolas para forçar os governos a acelerarem o programa de reforma agrária e agora se torna difícil, perante parte da opinião pública, cortar este cordão umbilical. Nada poderia ser pior aos petistas que esta atabalhoada ocupação nas terras da família do presidente, principalmente pelas cenas mostradas na televisão e que foram um verdadeiro acinte a figura do Presidente da República. Sem dúvida que a direção do partido não sabia da invasão. Caso tivesse conhecimento prévio, teria feito o possível e o impossível para evitar que isso acontecesse, afinal, o estigma mais desfavorável e que os petistas ao longo destas duas décadas não tem conseguido superar é exatamente o de ser ligado a grupos radicais. Como não bastasse, Lula viu-se metido numa tremenda saia justa, uma vez que além de não poder aceitar este fato perante os eleitores mais conservadores, também não pode admitir ser contra a reforma agrária, que sempre foi uma das bandeiras do partido. Não fosse o PT uma espécie de condomínio ideológico, o candidato deveria ter vindo a público para condenar com veemência a atitude do MST. Politicamente não teria nada a perder, afinal, aos sem-terra não resta nenhuma opção de voto diferente de Lula, enquanto os setores mais conservadores teriam uma demonstração maturidade política.
As próximas pesquisas deverão mostrar o tamanho do estrago - caso haja - que este episódio pode ter causado à candidatura de Lula. O risco maior que o partido corre até as eleições de outubro próximo é o de se transformar em refém de si próprio. Se a diversidade de opiniões é o sustentáculo da democracia, no caso do PT, uma verdadeira babel de tendências e vertentes ideológicas, poderá se transformar novamente em pedra de tropeço na corrida presidencial. Sem dúvida que faltou ao partido uma decisão firme e destemida reprovando a atitude do MST. Agora, as consequências virão nos resultados dar urnas eleitorais.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba

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