Luiz Geraldo Mazza/Revogue-se o povo
Vicentinho tende a ser um seguidor de Jaime Ovalle ou de Nelson Rodrigues como frasista. Outro dia, irado com o imobilismo dos funcionários federais, chamou-os de peões frouxos, como se fosse um cultor da agressão como forma educativa, algo como aquela piada do fradinho do Henfil que sugeria que se chutasse um pobre para fazê-lo, pela reação, a recuperar a autoestima.
Uma das deformações clássicas do PT, nosso melhor partido, é a crença no voluntarismo, algo típico do setor radical ligado à igreja. Ela é visível no Movimento Sem-Terra, o mais importante dos que atuam no país, menos pela prioridade da reforma do que pela existência de processos expulsivos decorrentes de ajustes no campo em função da concentração da terra e migração.
Reforma agrária é algo que perdeu o bonde da história lá pelos anos 20 e que foi empurrada com a barriga na revolução de 30, porque o Brasil era dominantemente rural e o PSD seu maior partido criado por Vargas; passou pelas mudanças da redemocratização e na Carta de 46 tivemos um avanço com o usucapião prolabore, cresceu com Jango na sindicalização rural e sofreu o breque pela demagogia de querer indenizar desapropriação com títulos públicos.
A GINCANA - A forma como se dá a ocupação de terras é algo mais próximo de uma gincana do que de um ato revolucionário e isso está visível na maior delas, a de Pinhal Ralo, no latifúndio produtivo da Giacomet-Marodin (e que quando pertencia ao progressista Ermírio de Moraes era apenas a maior reserva de araucária do mundo e intocada sem manejo ou experimentação como os atuais proprietários fizeram, inclusive, com o pinhão de proveta que garante o crescimento precoce da espécie).
Eventos sangrentos como os de Corumbiara e de Eldorado de Carajás são a exceção e não a regra, como se dá em termos locais com o maior deles em Campo Bonito, com baixa de três milicianos e do líder Teixeirinha, ou o de mais baixos teores como o de Santa Isabel do Ivaí. No qual o governo Lerner jogou a culpa no comandante do Policiamento do Interior, truque manjadíssimo de todas as gestões como a de Álvaro Dias no caso da repressão aos professores.
ARISTOCRACIA OBREIRA - Vicentinho, acostumado a lidar com empresários de multinacionais e em canais governistas como o das câmaras setoriais, desconhece que o servidor público, vítima de uma desmoralização por método, está como o boi na hora do abate, tocado por choque elétrico na direção da guilhotina (a demissão voluntária é a forma pasteurizada escolhida e que não vai reduzir o tamanho do Estado e muito menos o seu custo) e só pode expressar apatia e angústia.
Agora chama o povo, generalizando, de mole, como se as pessoas pertencessem à aristocracia do trabalho que pessoalmente desfruta e garantida ainda pela imunidade sindical.
Uma das ilusões do basismo é a de que um sindicato, por exemplo, é instância de poder e que uma central como a CUT seria um signo assegurador de luta e de vitória. Enfim o mito do exato, do premunitório, do profético, o que cabe no campo da fé, mas nem sempre no da racionalidade.
A estabilização desmistificou o poder de fogo do sindicalismo e o entrevero máximo foi o dos petroleiros contra os quais o governo tudo usou e abusou, sabendo que a opinião pública, a começar da dona de casa (o fogão a gás é o bem mais universalizado neste país, visível em qualquer rancho ou barraco), era contra aquela arregimentação que, se vitoriosa, mandaria para o espaço o Plano Real.
SEM APOCALIPSE - Está havendo distribuição de renda no País em escala nunca registrada, apesar de não existir vacina contra o processo de exclusão que se tornará mais agudo com a modernização da economia. E é ante esse futuro, que certamente não será apocalíptico, que se deve fixar as bases da luta para dar ao trabalho, como fator de produção, a relevância que tem em termos de dimensão humana da economia como lecionava o padre Lebret que opunha à opção entre capitalismo e socialismo burocrático e policial a alternativa do solidarismo.
Teremos, em breve, outra encíclica sobre o trabalho, do Papa João Paulo II, e que não terá a aura nem da Rerum Novarum muito menos das elaboradas por João XXIII (Mater et Magistra e Pacem in Terris) ou as de Paulo VI, porque a falta de alternativas claras induz ao ceticismo.
Se Vicentinho tem parte de razão em cutucar um povo anestesiado pelo consumo e que por isso se especializa em egoísmo entendo igualmente que a postura de agredir leva a um raciocínio de risco: a minoria ativa não pode isolar-se porque estaria desertando.
Sua palavra equivale ao seguinte silogismo: se o povo é apático e incurável em maioria, revogue-se o povo e que prevaleça a minoria tirânica que sempre é melhor do que a maioria silenciosa. Raciocínio fascista, que inspirava as brigadas de camisa negra de Mussolini, e centrado em axiomas como aquele de que mais vale ser um leão por um minuto do que um cordeiro a vida inteira.





