LUIZ GERALDO MAZZA Literatura e jornal (4)
Ao contrário do que se imagina o campo da literatura não se limita aos cadernos como o hoje ''Rascunho'' que avança bastante em postura crítica ante o que havíamos obtido com os inúmeros do ''Diário do Paraná'', o último deles o ''Pólo Cultural'' orquestrado por Reynaldo Jardim e que criou um palco para o animador cultural Paulo Leminski, sua expressão maior. Tivemos um suplemento em formato tablóide no ''Diário'', secretariado pelo Eduardo Rocha Virmond, e que, guardadas as proporções, era uma espécie de ''Mais'' da ''Folha de S.Paulo'' traduzido em maior concisão e sem vôos ensaísticos tão longos.
A nossa ''Folha de Londrina'' tem a tradição do caderno próprio e que já teve como editoras a doce Dulcinéa Novaes e a guerreira Joana Lopes, esta militante do feminismo que chegou a lançar um jornal de circulação nacional em defesa da boa causa e também por muito tempo publicou textos de Domingos Pelegrini, Nilson Monteiro, Paulo Briguet, Nelson Capucho, Délio César, Estélio Feldman dentre outros. Fizemos aqui também, e nessa eu me engajei, numa edição esportiva, que saía às segundas feiras, muita ficção, de tom literário, em que relatávamos a mitologia do futebol. Numa dessas publicações, véspera de Atletiba, fizemos duas páginas geminadas com o poeta populírico Liberalino Estevam, fotografado com a camisa do coxa e do furacão e em que versejava, através dos dois personagens, Castilho e Marambaia, as provocações de um para outro. Tivemos, também, nas edições normais não poucos estudos de Jacques Brand, um apegado à recuperação das arcádias, da Sucursal de Curitiba, e que mostrava a cintilação de autores que a vanguarda repudiava, boa parte deles membros da Academia Paranaense de Letras, tudo com jeito de provocação.
PASSIONALISMO Certa ocasião, e isso se acentuou num Congresso Regional de Escritores nas comemorações do Centenário do Paraná em 1953, fizemos uma barragem anti-acadêmica. Fomos de um patrulheirismo delirante ao conseguirmos isolar o pessoal da Academia, tomando-lhes os espaços nos jornais. Era uma espécie de continuidade das gozações da revista ''Joaquim'', de Dalton Trevisan, em que havia provocação e deboche, em torno dos pintores e escritores paranistas. Mesmo entre acadêmicos havia ''racha'' como o deflagrado entre Valfrido Piloto e a dupla David Carneiro, o historiador, e Leonor Castelano. Os pegas iam do verbo às vias de fato com pessoas brigando por gostar ou não gostar de um poema ou de um acróstico.
Fiquei longo tempo sem falar com o livreiro Aristides Vinholes por causa de um mal entendido em conversa de rua sobre o peso de figuras tão díspares como Graciliano Ramos e Mário de Andrade. Realçada a polivalência do líder da Semana de Arte Moderna, o irado intelerlocutor entendeu como se fosse um confronto desse tipo de contribuição abrangente e a do gênio do conto e do romance e também, de certa forma, do memorialismo. Ninguém se envolveu em tantas batalhas culturais como o Aramis Milarch, um jornalista arquivo, que colecionava desafetos devido a preferências estéticas na música, no cinema, na pintura e na literatura.
IDEOLOGIA O que mexia com todos também era a ideologia e a Guerra Fria. Uma polêmica sem qualquer sentido se deu no ''Diário do Paraná'' por causa de análise teatral entre um especialista, ator e crítico Renê Dotti, e o Jairo Régis, contundente doutrinador sobre a peça ''Chapetuba Futebol Clube'' do Oduvaldo Viana Filho, o Vianinha. Jairo, que realçava a ideologia, mandou brasa num artigo ''Chapetuba não é só futebol'' por supervalorizar a questão da luta de classes. Lembro dos artigos rigorosos do pintor Loio Pérsio em defesa do figurativismo e da sua virada para a abstração e também da mudança conceitual que afetaria as artes visuais pela ação apaixonada nos jornais.





