Luiz Geraldo Mazza
A ‘‘boca esquenta’’
A Boca Maldita, que já foi área de desfiles militares e carnavalescos, de manifestações contra a carestia e choques de estudantes e cavalarianos por causa do aumento da carne ou até do ingresso dos cinemas, vai ser o cenário das últimas celebrações desta melancólica e tediosa campanha eleitoral. Já na manhã de ontem, dando sequência a atos de resistência que vinham ocorrendo com televisores mostrando programas de Requião proibidos pelo TRE, tivemos comício que tinha o sentido preparatório para o de amanhã, quando Lula e Brizola aqui estarão.
Comícios na região eram inicialmente no coreto, hoje inexistente, da Praça Osório, com a multidão já transbordando para o território da Boca Maldita. Na primeira eleição, depois da derrubada de Vargas, lembro de um comício do Partido Comunista Brasileiro em que a palavra de ordem era ‘‘Yedo, Yedo, Yedo não tem medo’’, exortação ao engenheiro do DNER, Yedo Fiuza, seu candidato presidencial. O maior dos comícios foi o do brigadeiro Eduardo Gomes, herói dos 18 do Forte de Copacabana, em torno de quem as mocinhas cantavam a quadra ‘‘Brigadeiro, Brigadeiro, é bonito e é solteiro’’. Quem ganhou foi o general Dutra, apoiado por Getúlio Vargas, discretamente.
Foi, no entanto, na eleição de 1950 que tivemos na sacada do Braz Hotel o maior comício de todos os tempos no Paraná: 50 mil pessoas, na Curitiba provinciana, se acotovelavam desde a Praça Osório até a Dr. Muricy. Como hoje há eleições paralelas para o governo e o apoio de Getúlio, aquele tempo, se tornava fundamental, pois os candidatos eram da coligação comum: Munhoz da Rocha, do PR (Republicano) apoiado por majoritária dissidência do PTB, e Ângelo Ferrário Lopes, pelo PSD. Este partido acabou esnobando o seu candidato, que era Cristiano Machado (com o que surgiu a palavra ‘‘cristianização’’, mais ou menos o que José Janene está fazendo com Lerner) e apoiando Getúlio.
Getúlio quis manter-se em cima do muro e elogiou os dois candidatos, mas o clima era francamente a favor de Bento, porque os trabalhistas montaram claque fortíssima que ocupava os maiores espaços da avenida. Houve tumulto porque o Carlinhos Pereira, rei da briga de Curitiba, arrancou uma faixa de apoio a Bento com o que se generalizou o conflito, saindo ferido, também, o Murilo Beltrão. O famoso ‘‘Anjo Negro’’, Gregório Fortunato, guarda pessoal de Getúlio, que me jogaria delicadamente da escada do Palácio São Francisco em 1953, lá estava e acabou administrando parte do entrevero. Pior do que o empurrão na escada seria a conspiração para matar Carlos Lacerda e que levaria Vargas ao suicídio em 54, e que abortaria a tentativa de impedir a posse de JK.
Outro comício, bem menor, foi o das ‘‘diretas jᒒ, que lançou a campanha no Brasil, mas que não reuniu, a despeito da relevância da convocação, um terço da multidão presente em 1950. A troco de que esse papo? Amanhã e quarta-feira teremos comícios de Lula e FHC sem a vibração dos anteriormente referidos, mas com uma semelhança, uma simetria, com o de 50: a campanha presidencial está ligada à regional. Já em 55 isso não aconteceu: Juscelino perdeu para Adhemar de Barros no Paraná, embora vitorioso no Brasil, e o integralista Plínio Salgado, da ultra-direita romântica e nacionaleira, levou a melhor em Ponta Grossa e Curitiba. Lupion venceu no Paraná e foi cobrado em sua fidelidade e isso prejudicou nossa região nas suas reivindicações. Dessa feita, não há risco e a vinda de FHC mostra a sincronia que poderá devolver ao Paraná sua presença nos ministérios. A diferença daqui, diante de Lula, será a maior do Brasil. Em cada 10 votos, seis para FHC, dois para Lula. Isso é bom para o Paraná.

GLOSA
Em 1950, nesse comício de Vargas, alguns trabalhistas tentaram invadir a Casa do Estudante, que ficava onde é o Hotel Plaza, na Avenida Luís Xavier, e o Goyá Campos viu o estudante Joaquim Penito Monteiro segurar a massa no ‘‘bico’’, no papo. O que parecia temerário serviu de contenção.


AXIOMA Getúlio anunciou - e essa cena eu vi também - em 1953, numa reunião da CIBPU (Comissão Interestadual da Bacia Paraná-Uruguai), a criação da Eletrobrás, o que provocou reações nas bolsas e até insolentes manifestações de dúvida de dirigentes de corporações energéticas do exterior.
BIZARRICE Nas vezes em que o Paraná se abriu para candidatos derrotados, como Adhemar de Barros em 55 (Plínio Salgado na Capital e Ponta Grossa) e Afif Domingos em 89 (vitória de Collor), acabou levando a pior. Agora, com FHC, temos tudo para recompor alianças e recuperar prestígio, desde que a autofagia, que nos prejudicou quando Munhoz da Rocha poderia ser vice em 55, não atrapalhe.
A frase de Joffre Cabral Silva é alertadora: o homem que aparecia com a sega à mão no símbolo do Paraná não é ‘‘lavrador, não, mas alguém disposto a cortar a cabeça do primeiro que pretenda aparecer’’.
MEMÓRIA O Brasil em 54 tendia a hostilizar Getúlio diante das denúncias do mar de lama do Catete e da conspirata dos pistoleiros que acabaram matando o major Vaz e ferindo Lacerda, o que deu origem à República do Galeão, com a alta oficialidade (exaltada, diga-se) tocando o IPM. Getúlio, com seu suicídio, dá o contragolpe. Um sentimento coletivo de remorso toma conta das ruas e a massa passa ao quebra-quebra, também de instalações diplomáticas ianques. Estou a caminho da Faculdade de Direito e ouço a notícia da tragédia, volto para casa para dar ânimo ao meu pai com quem discutira várias vezes sobre as ocorrências. No dia 23, se houvesse uma pesquisa, o Brasil estaria contra Vargas; com seu martírio, voltou a ser o pai de quase todos.
Silvino Neto, que fazia no rádio a ‘‘Pimpinela’’, lê, imitando a voz de Vargas, a Carta Testamento. Nada mais forte do que a mídia quente do rádio. Surge um distintivo, uma bola vermelha, como a desses alfinetes usados em mapas, como se fosse o sangue de Getúlio. Léo de Almeida Neves, um doutrinador, Harold Laski da nossa província, colega de turma, está com um deles na lapela e me explica, cheio de emoção, que é o sangue de Vargas.
FOLCLORE Na ditadura, Estado Novo, havia o clássico retrato de Vargas com a frase ‘‘O Brasil confia no Chefe da Nação.’’ Depois da queda do regime e do exílio, Getúlio é candidato e, como Dutra, derrota o mito Brigadeiro Eduardo Gomes. Com a volta, há a marchinha carnavalesca ‘‘O Retrato do Velho’’, que era assim: ‘‘Bota o retrato do velho outra vez// bota no mesmo lugar// o sorriso do velhinho// faz a gente trabalhar//’’

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