Luiz Geraldo Mazza
Oscilação para o alto
A mais recente pesquisa Vox Populi, que esta Folha publica de forma detalhada, aponta para a manutenção da distância entre Lerner e Requião em 18 pontos, repetindo-se, ainda que com números diferenciados, a situação mostrada pelo Datafolha. Com os 51 a 33 verificados, revela-se uma constante no lento, mas firme, crescimento de Lerner, e na oscilação entre manutenção dos números e queda do senador. No Ibope foi 48 a 31, igual a duas pesquisas atrás.
As variações de julho (18) a setembro (22) consolidam uma tendência: Lerner saltou de 44 para 51 e Requião caiu 1 ponto (34 para 33). No Ibope, em uma semana, também a percepção de estabilidade com pequena oscilação em favor do candidato oficial. A oposição apostava tudo nessa sondagem porque a anterior havia revelado recuperação infinitesimal de Requião, mas que, estreitado o campo de observação para a Região Metropolitana de Curitiba, não era pequena para apontar uma curva ascensional, tanto na Capital, como nas cidades que a integram.
Essa postura que lembra orador evangélico com exortações bíblicas, adotada por Requião nos programas eleitorais, mais o tom melodramático dos quadros em torno do homem que perdeu o trator (que teve o seu início quando entrou na fria do ‘‘Panela Cheia’’), não trazem a força que ele ganha quando ataca o Judiciário, embora suas últimas declarações sejam menos contundentes.
O cronograma é curto, não há denúncias de impacto a fazer, a baixaria seria mal recebida em qualquer hipótese e o surto emocional em cima da crítica ao Poder Judiciário tende a anular-se até porque nesta semana o Superior Tribunal de Justiça mandou arquivar denúncia-crime que Requião fizera contra Lerner. Assim não é apenas o Judiciário local que desagrada intentos do oposicionista. E, obviamente, não seria temerário ao ponto de atribuir a todo o poder judicante as mazelas que enxerga especificamente em magistrados paranaenses, pois nas duas vezes em que foi cassado, contou com a revisão da instância superior, a qual recorreu agora, mesmo reincidindo, como tem feito, na infração de usar o espaço das eleições proporcionais, irregularíssima, como entendimento pacífico na Justiça Eleitoral. O que faz presumir o desejo de provocar para sofrer a sanção e fazer-se passar por vítima.
Quem nutriu Requião foi, sobretudo, a incompetência do governo e de seu staff jurídico querendo, a todo custo, tirar espaço da oposição quando ela tende justamente a cair quanto mais o utiliza. Deveriam brigar pelo contrário: que ele tivesse o máximo de espaços para chiar, agredir, prometer e imitar pastor.

GLOSA
Mais uma ameaça de bomba ontem na Prefeitura de Curitiba. É mais fácil, como se vê, evacuar a prefeitura do que nela evacuar (até porque ninguém entra)


AXIOMA Aníbal Khury deve ser um dos mais votados para deputado estadual, embora mal saia do lugar. Seus adversários e até inimigos, que não são poucos, divulgam uma piada para desclassificá-lo. Consiste no seguinte: perguntar se alguém já viu cabeça de bacalhau, santo de óculos, negros gêmeos e eleitor do Aníbal. A piada é boa, mas distante da realidade.
BIZARRICE O governo Lerner gastou em propaganda nada menos do que R$ 261 mil por dia. Exagero criou problemas na população. Jovens vão, por exemplo, ao McDonald’s e pedem ‘‘solta um big MacLerner’’, e de refri, querem uma Coca-Colerner. A Brastemp é Braslerner.
FRASE ‘‘Requião é a Hebe Camargo da política.’’ Fábio Campana. Se tiver a durabilidade da apresentadora na política, será a glória.
AMBIVALÊNCIA Há varias anedotas sobre as indecisões de Lerner. Algumas repetem situações atribuídas a Richa. Tem a do boteco de estrada em que o governador pede um misto para tomar com café e o homem que o atende pergunta ‘‘quente ou frio?’’ Ele responde atarantado: ‘‘Será que até nisso tenho que decidir?’’
Ontem ficou marcada a sua ambivalência, falta de peito, no caso da sanção da anistia às multas do trânsito. Manteve as multas, mas retirou os pontos. O que deveria fazer, se fosse governador e não um despachante, seria o veto, puro e simples. Com temor reverencial de Aníbal Khury, buscou saída menos pesada. Já havia se atritado com Cássio Taniguchi, que chamou de demagógica a lei, por ter mexido com os interesses do ‘‘Buda’’.
Esperamos que o Ministério Público, fiscal da lei e representante dos interesses difusos da sociedade, entre com a ação de inconstitucionalidade.
SPRAY Detalhes do Ibope-Globo de ontem: Lerner subiu 1, Requião desceu 2. - Na espontânea, 39 a 26 para Lerner. Aí também Lerner cresceu 2 pontos e Requião se manteve no patamar da anterior. - Curiosidade agora é saber como está o quadro regional metropolitano. Sobre isso há advertência de técnicos: as campanhas não devem ser direcionadas em cima de dados locais que se diluem no cojunto em função da amostragem. - Na anterior, o governo se sensibilizou com a questão revelada na Grande Curitiba e aí concentrou esforços. - Detalhe do Ibope mais recente: ele restabelece os números de duas sondagens atrás. Alteração, portanto, mínima. - Curiosidade agora é saber quem foi o mau caráter que pretende se beneficiar com votos de Fruet. Pode ser do PSDB, do PMDB e até do PFL. De alguém que deseje votação hegemônica em Curitiba e esteja disposto a tudo. - Infeliz o ‘‘out door’’ de amigos de Fruet, que botaram aquela frase mal inspirada ‘‘de pai para filho’’, que já era do conhaque Dreher. Gustavo é um apaixonado pelo pai, mas em muitos aspectos caminha para superá-lo no campo da ciência política e da filosofia, por exemplo. Na arte de fazer amigos tem muito a aprender. Lá em casa, o voto é dele.
FOLCLORE Em 1950, Getúlio Vargas veio a um comício na Boca Maldita e ficou em cima do muro entre os candidatos ao governo paranaense Munhoz da Rocha e Ângelo Lopes (meu tio), o primeiro do PR apoiado pelo PTB e o segundo do PSD, mas botou na rua 50 mil pessoas, sem cantores para atrair povo. A melancolia foi ver, ontem, Brizola, que se crê seu herdeiro, não conseguindo reunir nem 20 pessoas. É um sinal da resistência do povo à classe política e seus cacoetes e indicador de que melhoramos bastante em juízo de valor.
CROMO Por que não cantar o que parece prosaico? A ode à cebola de Neruda e à aspirina de João Cabral são referências. Por que não o urinol e a sua inata impassibilidade de um só braço?
AFORÍSTICO Jair Rodrigues canta amanhã a ‘‘Disparada’’ de Lerner nas pesquisas no comício do Requião, 11 horas, Boca Maldita.

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