Luiz Geraldo Mazza
Entre as várias promessas não cumpridas do grupo dominante no poder (estadual e municipal de Curitiba) estão duas relevantíssimas: a despoluição do Rio Belém, feita por Lerner no seu primeiro governo, quando a capital era de certa forma monitorável, ao prometer que devolveria ao Rio Belém os lambaris de rabo vermelho, e uma ação sistemática de colocar a cidade a serviço do homem e não do automóvel, o que equivalia a um compromisso não apenas com qualidade de vida como certamente com um sistema de circulação que nada tem a ver com esse que aí está.
Os dois projetos não só se integram como se tornam indispensáveis na medida em que se procura fazer com que a cidade real se aproxima da decantada no campo virtual, o da propaganda massificada, e que insiste em falar de uma urbe que se esgotou no fim dos anos 70.
Claro que houve alguns ganhos como a qualidade, inegável, do transporte de massa e que buscou uma solução linear sobre pneus, embora o prefeito e o governador atual tivessem declarado, em documento técnico, para justificar o VLT, o Veículo Leve sobre Trilhos, o badalado bonde, que a alternativa, ainda hoje dominante, havia se esgotado num horizonte anterior aos anos 80, quando não se imaginara a capacidade do Ligeirinho em desafogar o eixo das canaletas exclusivas.
O lançamento ontem do programa Cidadão em Trânsito, inicialmente em dez escolas da capital, mostra que se procura corrigir a amnésia e que transformou Curitiba num caos, agora depois das férias e com a retomada das aulas para a qual se prevê um aumento de 30% no fluxo de carros nas ruas. Apesar de tudo, Curitiba, segundo registros de 1992, registrou um acidente por grupo de 172 habitantes, situação bem melhor que Porto Alegre (1 por 98), Belo Horizonte (1 por 144 habitantes) e São Paulo (1 por 139 habitantes). Goiânia, Salvador, Fortaleza e Rio apresentam números bem mais civilizados. Já o Departamento Nacional de Trânsito indicou, em 1993, que em Curitiba mais de 700 pessoas morriam por ano no trânsito. O número é contestado porque de janeiro a junho de 92 tivemos 7.490 acidentes com 297 mortos, 3.848 feridos e 772 atropelamentos, indicador que não pode orgulhar ninguém.
O trânsito depende de soluções culturais como a empreendida, desde ontem, mas também de propostas de engenharia que mexam no sistema e derrubem, antes de tudo, a camisa de força ideológica do Ippuc abertamente contra viadutos e passagens subterrâneas, fórmulas adotadas com o engenheiro Saul Raiz quando a cidade não perdeu encanto e beleza por se tornar mais concreta e verdadeira.
Ninguém precisa engessar a cidade e torná-la mais árida com minhocões para melhorar o fluxo de tráfego. Mas há limites a essa resistência ditados pelo bom senso quando se percebe que abrir avenidas, a três por dois, nos bairros está apenas quebrando a rotina dessas áreas com uma violência que era apropriada ao Anel de Tráfego Lento, porque acabamos caindo no anel do trágico rápido.
É um ganho para a cidade a disposição de rever mitos e isso credencia, desde logo, a gestão de Cássio Taniguchi. Ajustar o que dá certo e corrigir o que revela distorções é o caminho.
BIZARRICE - O novo presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Henrique Lenz César, quer o convívio com o sindicato dos trabalhadores da área. Na posse dos judiciários, o representante do TJ, desembargador Gomes da Silva, disse que a disputa entre a instituição e o sindicato lembrava a saga dos Mezenga e Berdinazzi, da novela O Rei do Gado, e que por isso tinha tudo para ser resolvida. Está faltando a Luana porque com ela até a reforma agrária acaba saindo, pois, a rigor, estava dos dois lados.
SPRAY - Mexer na pista da BR-376 no domingo, quando era mais forte o fluxo de veículos de retorno de Santa Catarina, mostra como a irracionalidade pública é uma rotina. - Saul Schulman, maior criador de alevinos do Paraná em Campina Grande do Sul, registrava domingo a eclosão de um milhão de bagres africanos, o espécime mais procurado por seu rápido crescimento e desfrute. - Outro criador, entusiasmado, é o vereador curitibano Jorge Samek, que tem sua base em São Francisco do Sul (SC), e o peixe da moda é a piraputanga da bacia do Mato Grosso do Sul. E se um sem-terra urinasse no tanque do Samek ele daria uma de Rondon, aquele que dizia em relação aos índios morrer sempre, matar nunca? - Por falar em sem-terra, o Paraná está presente à marcha a Brasília e da qual se espera que seja melhor sucedida do que a caravana da cidadania do Lula. Roberto Baggio, que nada tem a ver com aquele admirável italiano que nos deu o tetra, promete que a luta aqui é valorizar o diálogo sem novas invasões. Urge autocontrole, para não haver desvios como o de Campo Bonito, em que o transbordamento da área invadida deu margem ao conflito que matou três PMs e o líder Teixeirinha, esquecido rapidamente pelos basistas.
FOLCLORE - Apesar de insistir que fez 6 mil obras em Curitiba, Rafael Greca alegou exiguidade de prazo (15 dias) para relacioná-las, conforme pleito da bancada do PT. Só falta algum assessor do ex-prefeito alegar que contar as suas obras é como relacionar, uma a uma, as estrelas. Ademais contá-las, como diria o Greca, amante do imaginário popular, dá berruga no dedinho.
CROMO - Só no Litoral poderia acontecer essa: em meio a tanto pesque-pague, a dona de uma boate, daquelas com lâmpada vermelha, botou na placa peque-pague, algo que nem os nossos criativos publicitários seriam capazes de imaginar. Numa estradinha de Alexandra, esse rasgo de genialidade.





