Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Quebrar o termômetro?
Aos que desconfiam das pesquisas normalmente é lembrada a fábula da quebra do termômetro para evitar a febre. No caso é justamente o contrário: tenta-se desqualificar as pesquisas justamente porque os números e as diferenças parecem elevados demais para quem os contesta.
O termômetro quebrado com o mercúrio, adequadamente chamado de azougue, correndo pelo chão e se atomizando ao toque, é o resultado final da operação inútil, no fundo apenas o inconformismo com a realidade. Obviamente, a quem está perdendo nas pesquisas não há outra alternativa, até para manter a paz interna e aquele mínimo de esperança em cabos eleitorais e militantes, que não a de detratar pesquisas e mostrar que elas são compradas.
No caso, o fato de o Ibope e o Vox Populi estarem, sob contrato, prestando serviços, isto é, as sondagens internas e não autorizadas à divulgação, para o comitê lernerista, é explorado como indicador de aproximação e parcialidade. Aí nessa linha de visão conspiratória surge, rapidamente, a explicação do arredondamento da margem de erro em favor de Lerner e o achatamento contra Requião em três pontos percentuais.
O DataFolha, que deu o número mais robusto, 55 a 37, o que abarca, só aí, 92 pontos (1 para Júlio de Jesus, 3 entre branco, nulo, nenhum e 5 indecisos completam o mapa) mostrou uma subida de 5 pontos de Lerner e uma queda de 3 de Requião. Como o Brasmarket, que era citado como real por apontar a menor distância entre os candidatos, mostrou que a diferença dobrou de 4 para 8 pontos, percebe-se que há alguma coerência nos indicadores. Já no Vox Populi, repetindo uma leve distância da anterior em favor de Requião (51 a 34), os números permaneceram em 50 a 35.
O Ibope foi até agora o único instituto que registrou ganho importante de Requião, especialmente em Curitiba e Região Metropolitana, ao captar no raio-X desta uma recuperação relevante: 9 pontos na Região e 14 na Capital, o que mexeu com os nervos da coordenação situacionista e empolgou a oposição. No total, esse avanço se traduzia em 2 pontos de ganho do senador e 1 de perda do governador, oscilação discreta demais, se não olhada no detalhamento regional. Nesta semana, quinta ou sexta, haverá outro Ibope e aí será possível analisar o que de fato teria mudado.
Pesquisas induzem, não há como negar, mas fazem parte do processo moderno das eleições, tanto no Primeiro como no Quarto Mundo. Não vale a pena exorcizá-las sob razões discutíveis. Em 85, elas apontavam Lerner com 65% e Requião com 5% e, na sequência, mostraram a recuperação e a vitória, obtida no olho mecânico. Foi a força do governo, a mobilização do partido, o prestígio de lideranças como as do governador Richa e do prefeito Maurício Fruet, a máquina operando (Deni Schwartz arrumou ônibus que trouxeram 50 mil pessoas do interior para boca de urna e o PDT, à época, acusou a operação de fraude por alguns eleitores do interior terem votado) que garantiram a vitória. Pelas condições atuais e a escassez de recursos, a oposição até que está se saindo bem, o que, em boa parte, se deve às fragilidades governistas com sua megaorganização.
AXIOMA
No PMDB, os realistas, que seguiram FHC como Romanelli, repetiam o clássico eu não disse?, ao mostrarem que no Paraná o presidente dá de 56 a 22 em Lula. Aí um mais ponderado chamou a atenção: Agora não adianta chorar o Lula derramado. O original é leite e não Lula, mas a observação é de que este acabou talhando
GLOSA Para o Senado, vote na mais bonita. É o slogan de um grupo favorável a Maria Fernandes, do PSC. O objetivo é evitar que se vote no mais bonito, que já ganhou a parada previamente.
BIZARRICE Hitoshi Nakamura, secretário do Meio Ambiente, quando Requião era prefeito ficou com um cargo no setor de praças e jardins em que dirigia uma Kombi e entregava marmitas a peões de obras públicas. Assim que Lerner voltou à prefeitura ele teria devolvido as marmitas a Requião. É uma lenda que corre por aí, facilitada pela incrível incapacidade de comunicar-se, o que o torna até nesse aspecto um lernerista de primeiríssima linha.
PEDÁGIO Todo o mundo pensava que o pedágio ia pesar nas eleições. Tanto não está que o secretário de Transportes, Heinz Herwig, encontra tempo para debate com universitários, como fez semana passada com estudantes de Engenharia. No seu estilo mais grosso do que curto alinhou algumas pérolas: Estacionamento é para emergência e não pra fazer xixi, as estradas rurais (caminhos da educação) lembram fio dental - só cobrem o necessário. Quando um estudante perguntou se o pedágio era repassado ao custo das mercadorias, replicou: O feijão que você come não subiu de preço.
SPRAY Uma reação bem ao estilo de Requião, no meio da tarde de ontem: irritado com as perdas de horário na Justiça Eleitoral, ele promete ir a Brasília brigar sobre o assunto e denunciar também manipulação eleitoral, não afastando a hipótese de tirar o time de campo, isto é, renunciar. - Os prefeitos do PMDB ameaçados de expulsão, por estarem ligados a FHC e a Lerner, respondem que os que levaram o partido à derrota é que devem explicações. Essa vai engrossar. - Amanhã, 14h30, na sede do Curso Decisivo da Comendador Araújo (Clube D, espaço para discutir tendências no pré-vestiba) entrevista coletiva com Zuenir Ventura, que lança Mal Secreto, obra sobre a inveja. - Dia seguinte, Zuenir faz tarde de autógrafos no mesmo local, das 14h30 às 16 horas, e às 18h30 faz palestra sobre o tema do seu livro. - Bindê Araújo, jornalista de Cascavel, edita Viafax, publicação alternativa, que às vezes sai na frente como quando denunciou um surto de salmonelose na cidade. - Um detalhe relevante da pesquisa Datafolha: além de obter percentual elevado de votos do PT, Lerner conta com 68% dos que votam em FHC contra 28% de Requião. - Incrível: depois de tantos anos, a campanha eleitoral de FHC chegou sábado à Ilha do Mel para fazer proselitismo em cima dos seus 130 votantes.
FOLCLORE O prefeito de Paranaguá, Mário Roque, viu aquele anúncio eleitoral da mocinha que põe parafusos no prato e a eles se refere como parafusos do Requião. Paranaguá quer mudar sua dieta e ter também parafusos, além do peixe, camarão, laranja mimosa, farinha, bacucu, ostra no prato.
CROMO O avesso da ostra é a beleza da madrepérola, sua dupla face, a alma bem mais reluzente do que o corpo exterior. E a pérola, a doença segregada.
AFORÍSTICO Curitiba tem a arte greco-sansone como novidade.





