Luiz Geraldo Mazza
A guerra psicológica
Estamos na safra dos boatos, como todos sabem. Tanto que o PDT, animado pelas fantasias que a coligação divulgou, enviou um release dizendo que a diferença entre Requião e Lerner havia caído para menos de 10 pontos. Só que no mesmo dia em que essa nota circulava, o Brasmarket, instituto no qual a oposição se agarrava porque mostrava distância pouco superior a 4, divulgou a sua mais recente sondagem e que ampliava para 8 pontos; quer dizer: ao invés de cair, Lerner subia, com o diferencial de 43 a 35. Também nessa oportunidade o ‘‘Vox Populi’’ dava o resultado de sua última pesquisa: Lerner 50, Requião 35.
Como é indispensável manter o ‘‘moral’’ da tropa principalmente quando ela se sentiu motivada com o último Ibope, que mostrou notável recuperação do senador Roberto Requião em Curitiba e Região Metropolitana, o caminho foi o de especular em cima dos resultados. Como o ‘‘Vox Populi’’, tal qual o Ibope, faz trabalhos internos para o governo argumentou-se que esses institutos poderiam perfeitamente arredondar números com a manipulação da chamada margem de erro que é de três pontos em média. Assim, pois, os 50 a 35 do ‘‘Vox Populi’’ seriam 47 a 38, nove pontos, o que se revela próximo do Brasmarket.
Esse ‘‘engordamento’’ dos números, que faz parte das suspeitas de oposição, é relativo. O Ibope, mais antiga organização do gênero, correria muito risco se a sua imagem ficasse afetada no hipopético ajuste de percentuais. A diferença de 9 pontos na Região Metropolitana, excluída a Capital (17 pontos), ambas significativas, no conjunto trouxe apenas 2 pontos para Requião e a perda de só 1 para Lerner.
A oposição, sem os recursos do governo (financeiros, materiais, máquina), está se saindo muito bem. É um Exército de Brancaleone (a cúpula-chave é Benedito Pires na visão política e no texto, e Jamil Snege e Néslio Pinheiro na parte de marketing, juntamente com o agilíssimo Pissetti) contra uma esquadra de primeiro mundo. Até no boato e na contra-informação esse grupo leva à distonia neurovegetativa a equipe celebrada e premiada de Lerner e esse processo penetra, capilarmente, no sistema, como se viu com algumas das especulações que o próprio Requião fazia na base da confidência para conferir-lhe suposta autenticidade, de papo de ‘‘cocheira’’.
Uma das armas que o situacionismo pretende acionar é terrível: espera ganhar o direito de resposta em questões como a dos gastos em propaganda, em trâmite no TRE, o que a habilitaria a ocupar o espaço da coligação oposicionista tantas vezes quantas ela usou, o que praticamente a tiraria do ar. Também nesse particular o governo não está levando a melhor quando se sabia que o advogado (no tapetão) como o marqueteiro seriam peças essenciais no processo.
A pompa está levando a pior diante da equipe mais enxuta. Ganha, se consideradas as suas condições, o confronto, mas perde a eleição. E isso, na cabeça de um político, vale mais do que qualquer coisa. Em 85, a campanha de Lerner, derrotado por Requião, também era a mais bem-feita. Naquela ocasião Requião era governo, com Richa e Fruet, como também assim se apresentou em 90 com Álvaro Dias. Essa é a sua primeira disputa como oposição, experiência que Lerner tem e ele não.

AXIOMA
Quando o malufista soube que o basqueteiro Oscar estava próximo do Suplicy na disputa do Senado paulista tascou: ‘‘Agora ele acerta três de três pontos e está liquidada a fatura!’’


GLOSA Observações do Elísio Marques sobre o cartaz cultural e a sua relação com as eleições: Cinemateca tem em cartaz ‘‘La Serva Padrona’’ com Nilton Servo e sua entourage néo-comunista-lernerista do PPS; ‘‘A Última Tentação de Cristo’’ com Júlio de Jesus do PSTU e seus doze apóstolos eleitores; ‘‘‘A Noviça Rebelde’’ com dona Maria Fernandes, candidata ao Senado pelo PSC.
BIZARRICE Fernando Sabino, o escritor, estava preocupado com sinais de falta de memória e comentava isso com o cronista Rubem Braga que dizia ter melhorado nesse aspecto seguindo um conselho médico do romancista Pedro Nava. Braga não lembrava do nome do medicamento e ligou para Pedro Nava. Este indagou de Rubem se ele lembrava do nome daquela flor que tem espinhos, que irrompeu do asfalto num poema de Drummond de Andrade, que foi cantada por tantos, do Malherbe a Gertrude Stein. Aí a cabeça de Nava iluminou e ele gritou ‘‘Rosa!’’ e chamou a empregada: ‘‘Rosa, como é o nome daquele remédio para a memória?’’ Fernando Sabino percebeu que tinha entrado numa gloriosa ‘‘fria’’.
SPRAY Uma pesquisa, não eleitoral, demonstrou que a frequência a supermercados aos domingos tende a aparecer até o fim do ano em segundo lugar como procura. - É que está em terceiro lugar atrás do sábado, que é o primeiro, e da quinta-feira. - Espera-se com isso um agravamento das discussões entre comerciários e patrões, uma batalha que tem tudo para dar contra o empregado, embora olhada como uma vitória do cliente. - Um dos argumentos que os comerciários estão agora acionando: é o de que o trabalho aos domingos está contribuindo para a desarmonia familiar com aumento de separações. O capitalismo não cede ao melodramático no qual tanto se aferra o brasileiro nas lutas sociais. - Para quem viu a resistência no município de Curitiba contra a liberação do horário mesmo limitado a estabelecimentos especiais (shoppings) pode ter uma idéia do que está para vir. - Ao sindicato resta uma luta que não se limite a ganhar tudo no contrato coletivo, e que se caracterize por uma fiscalização da própria categoria organizada, já que é inútil confiar na tutela do Ministério do Trabalho que não tem estrutura para responder por essa responsabilidade.
FOLCLORE Falava-se, em meio a boataria eleitoral, que tinha chegado ‘‘cascalho’’ para a campanha de Lerner, cujo superdimensionamento foi criticado com bom humor e firmeza por Requião. No coral, que repete a palavra ‘‘quem paga?’’ ficou mais ou menos nítida a voz de um jornalista-chave da campanha, o que comprova a economia e a eficiência oposicionistas contra a opulência governista.
CROMO A bola flui na grama e os atletas se ajustam para lhe dar o destino certo e glorioso: perto do gol, a lembrança do humorista Rossê Cavaca de que ali há tanta maldição que não cresce nem a grama. E isso atinge o goleiro-filósofo como Albert Camus quando defendia o Orange na Argélia.
AFORÍSTICO Se for corajoso para valer e austero, Lerner veta a anistia aos infratores do Código de Trânsito, esperança tão possível quanto a vitória de Requião.

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