Luiz Geraldo Mazza
Enfim, juntos
Requião assumiu para valer a conexão com Lula sabendo de todos os efeitos deletérios de uma possível contaminação pelo sentimento generalizado, pelo menos no Paraná, de rejeição ao ex-metalúrgico. Agora se o acusarem de valer-se da ponte via Álvaro Dias para ‘‘beliscar’’ algum voto junto a FHC, o que foi providenciado pelo seu fiel escudeiro Luis Cláudio Romanelli, o mais consequente e brigador deputado oposicionista, ele poderá repicar com o fato de que Lerner aparece com Lula na chapa do PSB. A razão, todos sabem, é uma só: Arraes, mordido pela campanha de Requião, que o atingiu na CPI dos Precatórios, decidiu mexer no diretório regional e entregá-lo a lerneristas.
Mas a aliança entre Requião e Lula pode não ser tão episódica: estreitam-se as possibilidades de sobrevivência fértil do senador paranaense no PMDB. Tanto que no diretório nacional do partido há dois paranaenses - justamente Mário Pereira e Djalma de Almeida César - de linha contrária ao requianismo. Requião pode ser o grande nome que o PT até hoje não tem, quer para o seu proselitismo interno ou nacional. Tem chances, inclusive, de ser candidato presidencial do partido, embora a maior expressão intelectual de figuras do Brasil Meridional, como Tarso Genro e Olívio Dutra. Assim, sugerem alguns situacionistas, ele teria chance de um segundo turno com Lerner para disputar a Presidência em 2002. A piada é boa, mas Lerner não está com essa bola toda num partido de raposas como o PFL, e ainda mais numa coligação abrangente como a que hoje se alinha em torno de FHC. Aí, convenhamos, a chance de Requião, por absurdo que pareça, é maior. No PT, é claro. No PMDB, nem pensar.
Há, é claro, complicadores. Por exemplo: petistas, segundo o Ibope, em 32%, votam em Lerner neste pleito, o que prova que há pedras no caminho não tão poéticas quanto as de Drummond de Andrade no poema reticente.
Na condição de conselheiro de Lula, Requião já entrou de sola, querendo, o que é bem do seu estilo, ensinar o padre a rezar missa: acha que ele precisa ser mais ‘‘povão’’ (não se trata de aproximação com Ratinho, Leão ou Falcão, fauna do pátio de milagres, mas de um foco maior em coisas de ‘‘concretude’’ indiscutível) e que deve fazer o que ele vem obtendo diante de Lerner. Isso aí também é meio vago, pois pelos sensores do Ibope, a fora a recuperação na Região Metropolitana de Curitiba, significativa, mas insuficiente, tudo está como Dantes no quartel de Abrantes. Parece discordar do tom apocalíptico de Lula quando insiste em explorar o amargor das medidas que virão, o que silogisticamente significa que já sabe da derrota.
Enfim, Lula e Requião juntos. Resta saber nessa convergência quem mais tira do que dá.


AXIOMA
Em Ponta Grossa, festas de aniversário, apresentação de um coral de mudos, todos devidamente paramentados com o traje apropriado, valendo-se de um play-back para expressão corporal. Essa seria a apoteose de um programa de TV na linha Ratinho ou Leão pelas reações paradoxais que provoca



GLOSA Outra, na mesma linha, anunciada pelo PT no seu dia lilás na Boca Maldita, reservado à ala feminina: Sirley declama o poema ‘‘Aviso da lua que menstrua’’. A inspiração é desértica. Se a lua menstrua, aplica Ob. Mas já é um avanço. Afinal, o PT andava tão cauteloso que queria negar o vermelho e apelar para o branco que Brizola mostrou ser sinal de rendição.
BIZARRICE Curitiba vai ser inundada hoje de out doors com a dupla Rafael Greca e Tony Garcia, ambos teatralmente sorridentes, e com o texto esclarecedor ‘‘Abre teu sorriso’’. Como na anedota portuguesa, corre-se o risco de a mensagem provocar mais venda do sucessor do Kolynos, a pasta ‘‘Sorriso’’, do que ser vertida em votos. Está aí um exemplo de comunicação que pode até dar algum resultado indireto como ‘‘merchandising’’.
A anedota portuguesa referida é aquela das propagandas do Marlboro, que em Lisboa vendeu mais cavalos do que cigarros.
ANTARES E Curitiba está vivendo algo parecido com a ficção de Érico Veríssimo com essa história do enterro de Luciene, que foi assassinada no Chile: os pais dela não queriam admitir a aproximação do marido, Aristóteles, que suspeitam ter sido o autor do crime e insistiam em ver o cadáver para reconhecimento. Luciene está morta há mais de 40 dias.
Pela demora e pelos transtornos, confusões burocráticas, a novela está com um ritmo muito parecido com o do romance ‘‘Incidente em Antares’’. Só que naquele caso, os sete defuntos não podiam ser sepultados por causa de uma greve geral que alcançava a classe dos coveiros e os mortos, saindo do caixão, passaram a pegar no pé das autoridades, exigindo o cumprimento do ritual cristão.
Ontem, convidado para uma palestra no Colégio Expoente, para falar sobre o livro de Veríssimo, abri o papo com essa referência ao episódio de Curitiba, mostrando que a nossa realidade factual é, às vezes, realismo fantástico. E é mesmo: vejam que ontem, em Londrina, um estado de excitação levava muita gente a ver Nossa Senhora. Aqui em Curitiba, no Bosque do Papa, muitas pessoas quase perderam a visão por olharem fixamente para o sol em busca da visualização da santa. E mais: no noticiário internacional havia o caso da autopista alemã bloqueada por 30 toneladas de chucrute. E à noite o circo de horrores do horário gratuito eleitoral, o teste mais forte às nossas partes baixas.
SPRAY Mais surrealismo: no comitê de eletricitários de Lerner há gente ligada também em energia sobrenatural. Fica pertinho do Curitiba Shopping. - Com 3,3 leitos hospitalares por mil habitantes, o Paraná é o quinto do Brasil atrás da Paraíba (3,5), Rio de Janeiro (4,4), Maranhão (4,7) e Goiás (4,9). Informe da revista ‘‘Amanh㒒. - Secretário Rubens Tanure, da Segurança, participa da 14ª Reunião do Codesul (inclusive com gente de outros países, abrangendo o Mercosul) em Foz e entrega viaturas em vários municípios. A frota, que em 94 era de 3.267 unidades, chega agora a 6.474.
FOLCLORE Guaratuba agora tem uma categoria nova: a dos sem-ginásio. É que o Ginásio de Esportes, desde já, está interditado para uso da Justiça Eleitoral, onde haverá o pleito e a apuração até o dia 14 de outubro. A área era ocupadíssima para funções culturais, recreativas e desportivas.
CROMO Um zeppelin de propaganda flutua nos céus de Curitiba: as pessoas deixam a postura cabisbaixa, admiradas com o artefato. Quando criança, vi o verdadeiro e que servia de propaganda do nazismo passar por aqui e Paranaguá.
AFORÍSTICO A Caixa Econômica Estadual é Banestado regra 3 do interesse de velhas clientelas e por isso não será admitida pelo Banco Central.

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