Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
O machão tardio
Requião, para surpresa do situacionismo, não está agressivo. Prometeu até, o que é um gesto de cristão, não tocar mais nos problemas da Leasing Banestado, como uma homenagem oblíqua ao seu dirigente que morreu tragicamente. Como dizia Guimarães Rosa, os que morrem ficam encantados. É ato de respeito aos familiares, um impulso de contrição.
O ex-governador, tido como um demolidor, está soft e até adota uma postura quase evangélica para tratar das questões sociais e econômicas, o que faz com razoável desenvoltura, embora adotando uma linha regressiva de ataque à industrialização, primária, sem consistência e pregando as vantagens do ruralismo, arcaísmo insustentável. Quem o ouviu ontem tinha a impressão, ao vivo e a cores, de estar diante de um discurso calcado em Gilberto Freire, em Casa Grande & Senzala e com os sons de A Pastoral de Beethoven.
Pois se Requião faz um discurso tão distante da realidade a troco de quê uma linha do lernerismo pretende que o seu candidato passe ao ataque, ao jogo de braço e à truculência? Em primeiro lugar, quem está ganhando não se desespera, a não ser que estejam escondendo ibopes, como Lula desconfia que FHC faz e age diante da crise das Bolsas.
Lerner tem todos os dias a oportunidade de reagir quando o oprimem e não o faz. Prova maior é sua relação com o Legislativo e especialmente seu chefe, Aníbal Khury, que mandou, há muito, para o espaço a regra tripartite do sistema representativo de Montesquieu. Não deu duro nos casos de corrupção e quando agiu, como se deu com o chuncho do Clube dos 60, ficou em crise porque alguns empresários indiciados eram seus cabos eleitorais. Foi peitado, várias vezes, e não reagiu. Seu imobilismo lembrava um iogue ou um estóico do pré-cristianismo ou aquele guarda do Palácio de Buckingham que se mantém como estátua mesmo quando sua calça é invadida por um esquilo à procura de nozes, justamente nas partes baixas e nem se mexe e muito menos exerce qualquer piscar de olhos ou contração muscular.
A amenidade de Lerner pode ser vista como qualidade diante do paradigma oposto, mas de gênio de campanha eleitoral se pode esperar de tudo, inclusive a sugestão de uma postura empostada e incabível, como a que alguns imaginam, para o candidato. Aliás, pelo porte, Lerner ficaria bem em luta de sumô. Ou entraram em pane pela recuperação do agrarista na Grande Curitiba, como se viu no Ibope, ou estão projetando problemas e os transferindo, sem que se saiba do que se trata. Enfim, mostram fraqueza quando tentam mudar o Lerner coloquial num brigão disposto a todos os desafios.
Requião poderia perfeitamente mostrar aspectos negativos do industrialismo: a qualidade de vida de Curitiba, tão ligada à ideologia de Lerner, já piorou e se tornará mais caótica. Dá para citar um exemplo: Belo Horizonte, uma das poucas cidades planejadas do Brasil, pagou ônus pesado ao parque automotivo de Betim e Contagem, embora tenha sido maravilhoso para o conjunto de sua economia, o que lhe deu o terceiro posto no ranking nacional, colada no Rio de Janeiro. Nada justifica a desarrazoada pregação de Requião, maniqueísta e, por isso mesmo, nada científica, primária até.
De outro lado, espera-se que não tentem fazer de Lerner um machão que, conforme a caricatura cinematográfica, pode virar o gozadão dos faroestes antigos.
AXIOMA
Afinal, por que estaria sobrando Viagra nas farmácias de Curitiba? Simples: depois da depressão com a queda das Bolsas tivemos a fase em que quase todas as ações subiram. Pelo jeito, tudo subiu.
GLOSA A pregação anti-industrial é uma leitura mal feita dos textos de Paulo Arantes. O tom da pregação oposicionista parecia coisa do Pol Poth, que integrava o pessoal no campo na marra no Cambodja.
BIZARRICE O ceguinho foi levado até a Praia de Caiobá. Aí o seu condutor pediu-lhe que respirasse fundo pertinho da Praia Mansa na alta temporada. Na primeira puxada de ar houve o protesto: Você me prometeu levar ao litoral e me traz para a foz do Rio Belém de Curitiba?
SPRAY A caminhonata do Requião, que pretendia politizar o pedágio, reuniu apenas nove caminhões. O Moreno, candidato a federal pelo Prona, fez ontem, pela manhã, no centro de Curitiba, uma carreata bem maior. - Mas se a oposição dá mancada, não há como aceitar aquele exagero das decalcomanias, segundo as quais pedágio é vida. Ocorre que se não ficar garantida a continuidade (e aí entram duplicações) das obras, o que o governo tenta na Justiça Federal, esse eslogam não funcionará porque acidentes fatais continuarão acontecendo. - A propalada propina (de R$ 300 mil) que teriam pedido, no Porto de Paranaguá, para a campanha de Lerner, na concorrência do terminal de caminhões, não tem qualquer fundamento, pois a licitação está suspensa desde junho. Pescador de águas turvas adora o clima portuário. - Fez bem a Assembléia Legislativa em suspender para valer as sessões até depois do pleito. O público andava enojado da farsa das convocações e falta de quorum. Com isso, estancam em parte o desgaste incontrolável da instituição e seus integrantes. Por essas e outras razões é que o público anda saturado de política e por isso teremos avalanche de votos nulos e brancos. Quem viver verá. - O Paraná é a sexta renda per capita do Brasil, com US$ 5.117. Brasília em primeiro, com US$ 11.722. É que lá está o poder. - Curitiba, segundo o levantamento da revista Amanhã, foi a única das capitais que cresceu no índice potencial de consumo, pulando de 1,75% para 1,88%. Londrina, com 0,42, ganha de Joinville (primeiro de SC, com 0,38), de Caxias do Sul (segundo do RS, com 0,36), Uberlândia (segundo de MG, com 0,37), etc. - No Paraná, depois de Londrina temos Maringá, com 0,28, Ponta Grossa, 0,21; Foz, 0,20; Cascavel, 0,19; São José dos Pinhais, 0,13; Guarapuava, 0,10; Colombo, 0,10; Paranaguá, 0,09. - Amanhã autoridades do Ministério da Previdência vêm a Curitiba para ver a proposta do Paraná (de Renato Follador Júnior) para a área. 30% da receita líquida é canalizada para pagamento de pensões e aposentadorias. O Banco Mundial gostou do modelo paranaense.
FOLCLORE Na cidade corria um boato de que Fábio Campana estava no comitê de marketing de Lerner. Não é verdade. Fábio está fora. Mas auto-suficientes do lernerismo argumentaram: Devem ter entendido mal, o que temos aqui de sobra é sábio. A piada é boa, mas distante da verdade, pelo que vemos na telinha e nas ações eleitorais. O Lerner com jeito de Leonardo di Caprio é uma referência.





