Luiz Geraldo Mazza
Um mau exemplo
Deveria existir um dispositivo na lei eleitoral, já que não basta a imposição de um fundamento ético, que expressamente proibisse a tramitação e a sanção de leis assistencialistas e fisiológicas como essa, de autoria de Aníbal Khury, que anistia os infratores do Código de Trânsito. Não bastasse o traço acintoso da iniciativa, tivemos, no curso da semana passada, uma convocação do presidente da Assembléia Legislativa ao diretor do Detran para tratar do assunto, como se a matéria já tivesse sido aprovada, cumpridos os seus trâmites constitucionais.
Como não se pode esperar atitudes de coragem do governador Jaime Lerner, sabidamente um omisso nos enfrentamentos de poder (basta lembrar a submissão às decisões na área de segurança, setor mais frágil da sua gestão, onde até admitiu tocar nos fundamentos hierárquicos da Polícia Militar para atender pressões de campanário) e que não soube conter atos de corrupção internamente, festeja-se previamente a anistia das multas, vandalismo institucional à altura dos padrões de Macunaíma. Como disse o desembargador Otávio Valeixo, aplicado estudioso da problemática do trânsito e um dos mais credenciados intérpretes na área do direito especializado, essa lei é ‘‘caça votos’’. E é nesse sentido, muito bem destacado pelo jurista, que se torna inaceitável a sua imposição.
Beneficiando infratores, a lei é uma contradição em termos: opõe-se ao sentido mais radical do direito e da justiça, além de ser um exemplo vil de comportamento num cenário eleitoral. A aprovação unânime agrava e não elide a responsabilidade negativa dos que se envolvem nesse episódio. A corporação legislativa não depura o ato por essa alegada circunstância: apenas agrava o sentimento de ceticismo que toma conta da maioria dos brasileiros, cada vez mais desencantados com a forma como se faz política no Brasil, expressa, de forma contundente, na pesquisa Datafolha, que mostrou que se houvesse o voto facultativo, a metade, pelo menos, do eleitorado se omitiria. De pouco vale essa lição, pois os deputados estaduais e federais, que serão eleitos, não olharão a catadupa de votos nulos e brancos como rejeição aberta ao que fazem no cotidiano e que abre caminho, infelizmente, para saídas autoritárias. Quem está matando a democracia é a classe política e seus maus exemplos.

AXIOMA
Se Lula for negado pela terceira vez, o que tudo indica que vai acontecer, o eleitorado terá sido para ele o que São Pedro foi para Jesus?


GLOSA Um ex-ministro da Aeronáutica disse, semanas atrás, que colocar o ILS-3 no Aeroporto Afonso Pena equivale a usar um canhão para matar um colibri.
BIZARRICE No meio do azáfama na Bolsa de Valores, havia um cabisbaixo, num momento de alta das cotações, e murmurava ‘‘minha bolsa escrotal despencou.’’
METAMORFOSE Gregório Sansa, na criação de Kafka, desperta vendo o seu corpo transformar-se numa barata. FHC lembra um Luis XIV, o rei sol. Lula ao lado de uma estante repleta de livros é prova de que se pretende neutralizar um aberto preconceito (contra o ex-operário, supostamente pouco letrado) com exagero.
SPRAY Na revista ‘‘Amanh㒒, um documentário interessante para mostrar que o Paraná hoje divide com o Rio Grande do Sul o quarto lugar de potência econômica. - Em potencial de consumo, Curitiba ganha bem de Porto Alegre, e Londrina ganha de Caxias do Sul (bem como de Joinville, primeiríssimo lugar de Santa Catarina). - No ranking de investimentos, ao contrário do que se sugere com a badalação reinante, estamos em sexto lugar e perdemos da Bahia. - Dia 27 deste mês, concurso público para comissário de menores na prova objetiva que deve eliminar 2.950 candidatos e selecionar 50 para quatro vagas disponíveis, a serem disputadas em segunda fase (prova escrita). - Cada concurso hoje, na área pública (municipal, estadual ou federal) revela o drama bíblico de que muitos serão os chamados e poucos os escolhidos. - Pelo que houve com o Banco Estadual de Minas Gerais (Bemge), comprado pelo Itaú por R$ 583 milhões, dá para imaginar quanto valerá o Banestado na hora do pregão. A crise internacionmal pode dificultar o ajuste no Banco Central e o tal crédito de R$ 4,1 bilhões pode ficar para as calendas. Enquanto isso, Requião fala como se o banco ainda pudesse voltar a operar nas condições anteriores. Infelizmente, a campanha não vai mostrar quem o afundou. - Hoje a Ferropar, que opera a linha da Ferroeste, assina ato na Associação Comercial do Paraná de compromisso de um investimento de R$ 3 milhões em silo e instalações de depósito de combustível em Cascavel, melhoramentos que vão revelar nova e dinâmica frente produtiva no Oeste, na área de serviços, como entreposto estratégico e que regulará inclusive o fluxo operacional da ferrovia, sabidamente sujeita a fluxos sazonais como os da soja. - Pode sair, neste fim de semana, nova pesquisa ‘‘Vox Populi’’. Oposição está vendo nos números da reação em Curitiba e região evidência de que Ibope estaria ajustando seus levantamentos. É o jeito de manter o moral. Aliás, não há outro quando tudo dá entender que o processo é irreversível. - Na revista do CREA-PR, Ivo Arzua, o prefeito que implantou o Plano Diretor de Curitiba, nega que Lerner seja o dono da Curitiba que emergiu das pranchas da Serete. Contraste nessas questões sempre é bom e evita o abominável confessionalismo.
FOLCLORE 1 ‘‘No Parque da Mônica, antiga estação ferroviária, o brinquedo ‘‘Boca de Pano’’ faz inferir a existência, até na Internet, de uma certa Monica Lewinsky, que os curtidores de plantão juram ter nascido em São Mateus do Sul.’’ A observação é do anarco-advogado Elísio Marques.
FOLCLORE 2 Se a tortura é crime irremissível, conforme a Constituição Cidadã, por que afinal ainda se mantém o horário gratuito no rádio e na tevê? Se desse para confiar nos produtos farmacêuticos, esses programas poderiam ser olhados como uma propaganda subliminar do Engov.
CROMO Periquitos se diluem no verde-escuro da tarde: camuflados nas folhas das árvores enunciam-se pelo alarido nervoso. Estão aí há quatro anos e desse jeito se tornaram curitibanos como sabiás laranjeiras, joão-de-barro, bicos-de-lacre, sebinhos, corruíras, bentevís, pardais. O último coleiro rói alpiste, marcando a passagem do tempo e o silêncio, num conto de Dalton Trevisan.
AFORÍSTICO Um pastelão nem sempre consegue os efeitos do programa eleitoral.

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