Luiz Geraldo Mazza
Utopia quente foi a de Thomas Morus, mártir e santo da Igreja. Hoje vivemos um tempo em que se busca, desesperadamente, a volta de uma utopia que ponha fim a essa sociedade militarmente hegemônica e que se apresenta como produto de um determinismo representado pela globalização neoliberal. Nem as convulsões das Bolsas, embora acenando para uma crise cíclica do capitalismo, são suficientes para abalar essa ordem confessional, mais presunçosa do que foi o socialismo real até a queda do Muro e a desintegração do império soviético.
De um lado, toda essa presunçosa arquitetura, lastreada por vacuidades como a enunciada no fim da história de Fukuyama, e de outro uma esquerda que ainda não se recompôs no processo, conquanto isso não se dê com a da Europa e do Primeiro Mundo em geral, como a dos países periféricos como o Brasil. O pior é que, para contraponto de uma ordem terrível, temos a utopia regressiva dos agraristas, imaginando uma espécie de volta melancólica ao mundo primitivo, aliás atacado com ênfase por Karl Marx, que acreditava, sobretudo, na teoria acumulativa do capital como etapa indispensável ao parto da sociedade sem classes, depois de uma escala na ditadura do proletariado.
A Marcha pelo Brasil é a coroação desse processo no momento brasileiro e que tenta reviver, em todos os seus aspectos e com aquele tom místico que a Igreja Católica empresta, a um só tempo, uma caricatura coincidente com a da Coluna Prestes, cuja extensão é bem maior do que a de Mao-Tse-Tung, e do messianismo de Antonio Conselheiro. Este era bem mais convincente nesse aspecto do que as lideranças de Stédile e de José Rainha, Gilmar Mauro e tantos outros, pelo grau de confiança e obediência na mobilização. E com um detalhe: a Igreja formal, a Igreja-poder, e isso se traduz na CNBB e na Pastoral da Terra, acaba por legitimar o processo, assumindo o ônus das distorções e uso da violência em numerosos casos, inclusive aqui no Paraná.
De repente, as mentes se envolvem nessa confusão e até o candidato Roberto Requião sugere que a solução dos problemas do Brasil está na agricultura e não na industrialização. Na esquerda brasileira há um divisor a respeito do tema, com os industrialistas apontados como os responsáveis pela crise atual e em função de erro histórico no qual o Partidão, principalmente, embarcou com a crença no surgimento de uma burguesia progressista e nacional, de acordo com o jargão arcaico. Ora, a agricultura, principalmente a do modelo exportador, ao qual o Paraná aderiu, ao ponto de fazer uma ferrovia para a soja, é centrada em commodities, como se deu no crash de 1929 em Nova York, e que acabou batendo de frente com o nosso principal produto, o café.
A visão do abismo e da sinistrose, que não oferece saídas à emergência, parece a atração principal e até esperança do oposicionismo desalentado e já derrotado nas pesquisas (FHC cresce e Lula cai na tormenta). A estiada de sábado, depois do furacão da sexta nas Bolsas recomendaria cautela. O pior é que estamos mais distantes de uma nova utopia do que da solução da crise.
GLOSA
Como a criatura do Barão Frankenstein, a situação está feia e vai até deteriorar. Quem acha que já chegamos ao fundo que se prepare para o pior, segundo Elísio Marques, para quem o otimista hoje é apenas mal informado
AXIOMA Álvaro Dias faz campanha de governador como se estivesse disputando com Lerner e Requião. Claro que com a moleza que pegou sai na frente, como Requião disparou relativamente a Lerner quando disputou o governo. Os candidatos a deputado federal pelo PSDB, que se sentem previamente derrotados, atribuem sua desdita à falta de coragem de Álvaro Dias, por quem todos brigaram na hora de impedir a entrada de Lerner no ninho tucano. Hauly disse, na Boca Maldita, que Álvaro tinha medo que Requião o desqualificasse no primeiro turno, como fez com Richa em 1990. No último Ibope, Álvaro caiu 5 pontos e está com 55% disparado, mas dando a entender que se houvesse disputa a coisa complicaria.
BIZARRICE Um mestre em ciência agronômica explicava, aos que pregam na campanha emprego, comida e casa para todos, que se no Brasil todas as pessoas comerem três refeições - café, almoço e jantar - não há produção agrícola imaginável para atendê-las. Quem tem compromisso com a realidade passa ao largo das elucubrações eleitorais, irresponsáveis e alienantes.
SPRAY O Paraná perde de Santa Catarina em PIB per capita e indicadores sociais, como se viu com o levantamento da ONU. - Em renda vamos recuperar e passar à frente com o novo ciclo (montadoras, satélites etc), mas vamos perder ainda no lado tecnológico e científico. - Basta ver o ranking da Playboy sobre as universidades: não temos um primeiro e segundo lugares. Santa Catarina os tem em Engenharia Mecânica (primeiro em graduação e pós-graduação), Engenharia Elétrica (terceiro em graduação e segundo em pós). - Santa Catarina aparece em jornalismo em oitavo (Londrina em sexto em relações públicas), Engenharia de Produção (terceiro em graduação e pós), Engenharia Química (oitavo, a de Maringá aparece em sétimo). - A Federal do Paraná aparece em oitavo em Estatística, em nono em Geologia, nono em agronomia, terceiro em graduação e pós de Engenharia Florestal, nono em Medicina Veterinária (Londrina em quinto), oitavo em Direito (Santa Catarina aparece em quarto em graduação e pós). Uma lavada que obrigaria à reflexão. Badalamos tanto a Arquitetura e o Urbanismo e Santa Catarina aparece em décimo, em Direito fica em quarto em graduação e pós (o Paraná em oitavo), sétimo em Letras, sexto em Serviço Social (Ponta Grossa em quarto, Londrina em décimo). Até as estaduais, de certa forma, levam a melhor no conjunto do que a Federal .- Se esse tema não é sério para quem projeta um programa ambicioso de transformação econômica, é porque estamos viajando na maionese como nunca. - CREA-PR lança sua revista na quarta-feira (Buffet Ilha do Mehl) e lança campanha de defesa dos mananciais. - Que sordidez essa manobra contra o Cheida em Londrina: carta apócrifa inventa denúncia da própria esposa. Surfar na lama é a arte dos canalhas. - Terça-feira o Corpo de Bombeiros de Castro ganha carro novo e homenageia o 1º tenente Sérgio Luis de Melo, que morreu em serviço quando comandava a unidade. - De 16 a 18, Foz do Iguaçu, reunião do Conselho de Segurança que agrega o Sul (mais São Paulo) e países do Mercosul (Paraguai, Argentina, Uruguai) e mais o Chile.
FOLCLORE O que é mais nítido: a coragem de Lerner ou a serenidade de Requião? Não esquecer também que a coragem extrema é próxima da loucura e a serenidade radical, à morte.





