Luiz Geraldo Mazza
Um dos pontos fortes do Vida e Morte Severina, de João Cabral de Mello Neto, dramatizado com música de Chico Buarque, é aquele em que se diz que a cova do retirante é a parte que lhe cabe neste latifúndio. Na verdade, não poucos têm sido os sem-terra que ficam com essa partilha irônica dos sete palmos sob o solo.
Durante a semana, o presidente FHC, com todo o seu preparo antropológico, ouviu quase como um consenso a imagem que o primeiro mundo tem a nosso respeito nas questões sociais, como o desemprego e os sem-terra. Era o contraponto, ao lado eufórico da abertura que prometia aos capitais italianos.
Em sociedades com algum nível de civilidade, esse contraste é indispensável. É verdade que muitas usam essas mazelas e patologias para aumentar o seu poder de barganha. Não foram poucas as vezes em que se usou o argumento de que crianças de rua eram empregadas na produção de uma determinada mercadoria para taxá-la fortemente como barreira alfandegária.
Pressentindo que a tempestade viria, o presidente assinou decretos em Diário Oficial desta semana desapropriando, para fins de reforma agrária, mais de 74 mil alqueires de terras em dez Estados, entre os quais, justamente o primeiro, da Fazenda Boa Vista, em Tibagi, Paraná, com 411 hectares. E se viu obrigado a uma retórica mais social nos seus contatos com a Europa, inclusive no Vaticano, dando um breque no seu entusiasmo habitual pelos axiomas da moda, como economia de mercado e globalização, ainda não convenientemente desmascarados porque olhados como a verdade revelada, o que desde logo rescende a estupidez.
Obviamente a questão agrária, saída no caso brasileiro mais forte para o problema do desemprego, não apenas pela existência de terras disponíveis, mas ainda porque a economia marcha nos setores industrial e de serviços, mais naquele do que neste, para técnicas poupadoras de mão de obra, é encaminhada na ficção (a telenovela O Rei do Gado) com mais ênfase do que na prática, apesar da denúncia de politização crescente do MST com as bravatas da invasão de áreas da Vale do Rio Doce e dos mega-acampamentos para atrair favelados e desempregados e a colocação do tema reeleição na planilha das prioridades. Essa arrogância pode tirar o apoio popular que hoje existe, como se deu com a burrada da greve dos petroleiros.
Não será substituindo os partidos políticos, sabidamente impotentes e em alguns casos incompetentes, que se dará maior abrangência a um movimento sério e que por isso mesmo não pode ser perdido na medida em que toca naquilo que temos de mais fóssil: a resistência fundiária, a nostalgia das sesmarias, a raiz atrasada e colonial das nossas instituições.
BIZARRICE - Já que falamos na arte (a poesia teatralizada e a novela) percebemos hoje uma falta do velho exercício da sátira. No Carnaval, por exemplo, o fim das marchinhas significou o ocaso da crítica política. Washington Luiz foi seu Mé, onomatopéia do cabrito, por causa da barbicha, como O Retrato do Velho saudou o retorno de Vargas. Nesses dias carnavalescos, o advogado e poeta satírico J. C. Almeida caricaturou em soneto o itinerário de FHC. É assim: Desde Fernando 1º o peculatário/ que se embroma o povo em sofrimento,/ Quer no Congresso, quer no Judiciário/ termina em pizza um procedimento./ O banqueiro rouba do bancário/ o empreiteiro cresce em detrimento/ do prato de comida do operário/ e vai corrupção em crescimento./ E por isso Fernando, o tal 2º/ vai passeando, solerte, pelo mundo/ falsa aristocracia sem nobreza./ E na Itália o gesto vai a fundo/ E se doutora o maitre vagamundo/ num molho de pizza à bolonhesa...
SPRAY - O Banestado, a despeito de alertado, inclusive por documento do presidente da Associação, Valter Senhorinho, quanto aos efeitos sociais da prensa atual (drenagem de recursos para a Fundação com perda de servidores), insiste no terror. - O desespero toma conta de duas categorias - a dos caixas e dos escriturários, usados como bode expiatório da incompetência e dos desvios que se traduzem nos quase R$ 1 bilhão de créditos incobráveis. - O fim do comitê interdisciplinar, pluralista, com representação múltipla, caracteriza também exercício de extremo autoritarismo com a quebra do princípio de cogestão, ainda que limitado. - Público irritado com a demora no atendimento determinado pelo fim das horas extras se mostra impaciente principalmente no fim do expediente da tarde. - De 17 a 21 deste mês, das 19 às 22h30, teremos os seguintes cursos no Senac: oratória, chefia e liderança, matemática financeira, planejamento e controle de estoque, legislação previdenciária, cálculo de rescisão trabalhista. De 17 a 28 mais dois: técnica de atendimento ao cliente e qualidade em recursos humanos. O curso de secretária auxiliar, das 19 às 22 horas, será de 17 de fevereiro a 11 de julho. - PT está anunciando intervenção em Londrina com o claro propósito de proteger o ex-prefeito Cheida. Ele se enquadra, por não haver apoiado o candidato do partido, a casos como o de Santos, embora não tivesse a menor condição de aparecer bem no pleito. Petistas de Londrina acusam Samek de fazer o jogo da dissimulação. Como Samek é pragmático, até que se justifica a sua postura, já que ninguém no partido tem o potencial eleitoral de Cheida.
FOLCLORE - O livreiro Aramis Chaim, muito conservador, chiava outro dia contra o fato de o Carnaval paralisar o comércio. Bastou isso para que um carnavalesco afirmasse que só falta ele especializar-se na venda de livros em brochura.





