Um dos pontos fortes do ‘‘Vida e Morte Severina’’, de João Cabral de Mello Neto, dramatizado com música de Chico Buarque, é aquele em que se diz que a cova do retirante ‘‘é a parte que lhe cabe neste latifúndio’’. Na verdade, não poucos têm sido os sem-terra que ficam com essa partilha irônica dos sete palmos sob o solo.
Durante a semana, o presidente FHC, com todo o seu preparo antropológico, ouviu quase como um consenso a imagem que o primeiro mundo tem a nosso respeito nas questões sociais, como o desemprego e os sem-terra. Era o contraponto, ao lado eufórico da abertura que prometia aos capitais italianos.
Em sociedades com algum nível de civilidade, esse contraste é indispensável. É verdade que muitas usam essas mazelas e patologias para aumentar o seu poder de barganha. Não foram poucas as vezes em que se usou o argumento de que crianças de rua eram empregadas na produção de uma determinada mercadoria para taxá-la fortemente como barreira alfandegária.
Pressentindo que a tempestade viria, o presidente assinou decretos em ‘‘Diário Oficial’’ desta semana desapropriando, para fins de reforma agrária, mais de 74 mil alqueires de terras em dez Estados, entre os quais, justamente o primeiro, da Fazenda Boa Vista, em Tibagi, Paraná, com 411 hectares. E se viu obrigado a uma retórica mais social nos seus contatos com a Europa, inclusive no Vaticano, dando um breque no seu entusiasmo habitual pelos axiomas da moda, como ‘‘economia de mercado’’ e globalização, ainda não convenientemente desmascarados porque olhados como a ‘‘verdade revelada’’, o que desde logo rescende a estupidez.
Obviamente a questão agrária, saída no caso brasileiro mais forte para o problema do desemprego, não apenas pela existência de terras disponíveis, mas ainda porque a economia marcha nos setores industrial e de serviços, mais naquele do que neste, para técnicas poupadoras de mão de obra, é encaminhada na ficção (a telenovela ‘‘O Rei do Gado’’) com mais ênfase do que na prática, apesar da denúncia de ‘‘politização’’ crescente do MST com as bravatas da invasão de áreas da Vale do Rio Doce e dos mega-acampamentos para atrair favelados e desempregados e a colocação do tema ‘‘reeleição’’ na planilha das prioridades. Essa arrogância pode tirar o apoio popular que hoje existe, como se deu com a burrada da greve dos petroleiros.
Não será substituindo os partidos políticos, sabidamente impotentes e em alguns casos incompetentes, que se dará maior abrangência a um movimento sério e que por isso mesmo não pode ser perdido na medida em que toca naquilo que temos de mais fóssil: a resistência fundiária, a nostalgia das sesmarias, a raiz atrasada e colonial das nossas instituições.
BIZARRICE - Já que falamos na arte (a poesia teatralizada e a novela) percebemos hoje uma falta do velho exercício da sátira. No Carnaval, por exemplo, o fim das marchinhas significou o ocaso da crítica política. Washington Luiz foi seu ‘‘M钒, onomatopéia do cabrito, por causa da barbicha, como ‘‘O Retrato do Velho’’ saudou o retorno de Vargas. Nesses dias carnavalescos, o advogado e poeta satírico J. C. Almeida caricaturou em soneto o itinerário de FHC. É assim: ‘‘Desde Fernando 1º o peculatário/ que se embroma o povo em sofrimento,/ Quer no Congresso, quer no Judiciário/ termina em pizza um procedimento./ O banqueiro rouba do bancário/ o empreiteiro cresce em detrimento/ do prato de comida do operário/ e vai corrupção em crescimento./ E por isso Fernando, o tal 2º/ vai passeando, solerte, pelo mundo/ falsa aristocracia sem nobreza./ E na Itália o gesto vai a fundo/ E se doutora o maitre vagamundo/ num molho de pizza à bolonhesa...’’
SPRAY - O Banestado, a despeito de alertado, inclusive por documento do presidente da Associação, Valter Senhorinho, quanto aos efeitos sociais da prensa atual (drenagem de recursos para a Fundação com perda de servidores), insiste no terror. - O desespero toma conta de duas categorias - a dos caixas e dos escriturários, usados como bode expiatório da incompetência e dos desvios que se traduzem nos quase R$ 1 bilhão de créditos incobráveis. - O fim do comitê interdisciplinar, pluralista, com representação múltipla, caracteriza também exercício de extremo autoritarismo com a quebra do princípio de cogestão, ainda que limitado. - Público irritado com a demora no atendimento determinado pelo fim das horas extras se mostra impaciente principalmente no fim do expediente da tarde. - De 17 a 21 deste mês, das 19 às 22h30, teremos os seguintes cursos no Senac: oratória, chefia e liderança, matemática financeira, planejamento e controle de estoque, legislação previdenciária, cálculo de rescisão trabalhista. De 17 a 28 mais dois: técnica de atendimento ao cliente e qualidade em recursos humanos. O curso de secretária auxiliar, das 19 às 22 horas, será de 17 de fevereiro a 11 de julho. - PT está anunciando intervenção em Londrina com o claro propósito de proteger o ex-prefeito Cheida. Ele se enquadra, por não haver apoiado o candidato do partido, a casos como o de Santos, embora não tivesse a menor condição de aparecer bem no pleito. Petistas de Londrina acusam Samek de fazer o jogo da dissimulação. Como Samek é pragmático, até que se justifica a sua postura, já que ninguém no partido tem o potencial eleitoral de Cheida.
FOLCLORE - O livreiro Aramis Chaim, muito conservador, chiava outro dia contra o fato de o Carnaval paralisar o comércio. Bastou isso para que um carnavalesco afirmasse que só falta ele especializar-se na venda de livros em brochura.

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