Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Ufanismo tolo
O Brasil pagou um tributo enorme ao ufanismo que apenas aliena, distanciando as pessoas da realidade: achávamos que tínhamos reservas inesgotáveis de minérios e florestas, enfim o papo condoreiro que fazia do conde Afonso Celso o apologista dessas virtudes inócuas, mas que mexiam com o imaginário nativo e que são, inclusive, reproduzidas no hino pátrio. Curitiba, graças à manipulação das mentes e corações, foi submetida, dos anos 70 para cá, a esse processo: era olhada como uma das três melhores cidades do mundo, o que é de uma tolice que nem cabe comentar, ainda que enunciada por um arquiteto (Alan Jacobs) que promove o nosso Jaime Lerner em escala internacional.
Tenho alertado para o absurdo há muito tempo. Quando houve, três anos passados, a enchente que fez surgir centenas de casos de leptospirose, mostrei que era como uma parábola bíblica, uma lição pedagógica na empulhação, tal qual se dera com Ciro Gomes em Fortaleza quando acabara de receber um desses prêmios que administradores daqui colecionam da Unicef por causa do tratamento às crianças e ao saneamento: uma pandemia de cólera atingiu quase 20 mil pessoas e derrubou o próprio governador, logo em seguida, agora por causa de outra barbárie do País desigual, a dengue.
CROMO
O Apocalipse foi tão longe no Brasil que não deu sequer para rezar: os terços de oração tinham sido todos penhorados. Aliás um discurso no Brasil deveria começar assim: Meus penhores e minhas penhoras...
TRIUNFALISMOOs sofismas usados pelos áulicos do triunfalismo irresponsável foram os mais variados para contestar números de um organismo da ONU, entidade em que confiam quando se trata de conceder láureas, mas sobre a qual fazem restrições quando a premiação não é dadivosa. Lembram, em tudo, candidato diante das pesquisas eleitorais negativas: como não podem contestar, buscam outras instituições ou mesmo as desqualificam em bloco para sugerir aquele papo careta de que a verdadeira pesquisa será no dia 4 de outubro, o canto dos derrotados.
O pior desse aparato ideológico é que ele foi inculcado de tal maneira nas pessoas que se criou a máxima chantagem - a de que os que guardam uma visão crítica de Curitiba assim o fazem porque não a amam, coisa de fascista. Mas anteontem o noticiário a respeito do Índice de Desenvolvimento Humano, que cruza dados sociais e econômicos, desmascarava outras coisas: somos a quarta economia do Brasil, em infra-estrutura econômica e potencial de consumo ao lado do Rio Grande do Sul, mas ficamos em sexto no ranking, um pouquinho atrás de Mato Grosso do Sul, quando se busca o desenvolvimento harmônico.
BOA PERFORMANCECuritiba aparecer em 18º lugar numa relação de 50 municípios está para lá de bom. No entanto é uma ducha de água fria nos triunfalistas ou melhor, criemos um neologismo, triunfascistas. Fui a um seminário em Faxinal do Céu de toda a área social do governo e mostrei qual a causa desse descompasso entre social e econômico. A própria cafeicultura acentuou esse desnível, mais tarde acelerado por outro efeito, o da urbanização. Chegamos tarde na eletrificação rural: só com Richa isso aconteceu, enquanto Santa Catarina e Rio Grande do Sul saíam à frente. A nucleação urbana tanto num como no outro Estado é mais ajustada e menos tumultuária. Programas de educação e saúde são mais eficazes do que os nossos, daí os registros melhores em escolaridade, alfabetização, expectativa de vida, mortalidade infantil. Isso não é de hoje: em estudos anteriores essa situação estava claramente demonstrada.
RURBANASBasta olhar para uma das propostas de Lerner: a tal da industrialização no campo, de pequena escala, e que tanto catarinenses como gaúchos estão à frente há muito tempo. O chute promocional de Lerner, chamado rurbana, e que chegou a sensibilizar Alvim Toffler, e que fracassou redondamente, existe, como método, em Santa Catarina: algumas das cidades listadas, como Indaial, Gaspar, Timbó, Schroeder se ajustam no modelo que o nosso governador pensava inventar, isso é são núcleos em que coexistem fundamentos de vida urbana com a rural e que operam como satélites de uma cidade-pólo de maior porte como Blumenau ou Jaraguá do Sul. No Paraná, ao tempo do café, tínhamos o patrimônio, por exemplo, que era um centro de comercialização e já de vida urbana e que foi o fundamento de municipalização decorrente do processo de cissiparidade, mais conhecido como cidades-cogumelo.
Há, no entanto, um mérito para Lerner na modelagem das Vilas Rurais até por objetivar a integração de bóias-frias à margem de qualquer programa. Se isso efetivamente emplacar, se não houver deserções, se o monitoramento for exercido com um mínimo de concentração, teremos uma forma nova, induzida, de nucleação entre o campo e a cidade bem melhor bolada do que a de Campo de Santana aqui na Região Metropolitana a que se deu o pomposo nome de rurbana.
ILUSÃO CAPITALISTAUma das falsetas do regime capitalista é a crença de que só o desenvolvimento econômico, que seria uno e indivisível, o que também não é verdade, seria suficiente para ajustar também as questões sociais. Essa dicotomia entre econômico e social não deveria existir, razão pela qual se dá o descompasso que prejudica especialmente o Paraná. A ilusão de que a chegada das montadoras e outros empreendimentos seriam suficientes para solucionar tudo persiste porque isso é típico da ideologia. É indispensável, ao contrário do que se proclama, aproximar a ação social da econômica e em nosso caso específico aquela deveria ter mais força.
É indispensável que com esses dados à mão façamos uma reflexão: a de que é possível subir nesse ranking, tanto o Estado como os municípios. Cada um fazendo, com seus recursos, a avaliação devida, o governo coordenando através do Planejamento e da área de Desenvolvimento Urbano, e propondo saídas. Maringá, que aparece em segundo lugar no Paraná, é uma cidade menos onerada pela urbanização do que Curitiba: tem reserva de áreas para expansão e faixas verdes bastante densas, um sistema de circulação que na origem era tão preciso quanto o de Brasília no projeto original. Londrina, que tem ônus polarizante, está em quarto lugar depois de Marechal Cândido Rondon. Não é má posição, mas um convite para a auto-superação com o peso de sua vocação metropolitana.
BIZARRICE Ontem, no furor da crise, alguém lembrou que na Alemanha quando o marco foi pro saco ainda existia a República de Weimar. Aqui nos temos apenas a República que vai mal.





