Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Ainda a pobreza
Só messiânicos acreditam que é possível expungir a pobreza. Os políticos, notadamente os ricos (isto é, os que não sofrem o problema), fazem, como tradição e à falta de outro recurso, o discurso da eliminação da pobreza. Já disse e repito que a Somália, Burundi, Etiópia, Zaire e Sudão, por exemplo, podem ser imaginadas para tudo, menos para as duas utopias em voga: a economia de mercado e o socialismo, ainda renitente.
Se nos países ricos há pobreza, conforme estudo recente da ONU, como se dá com os States, o paradigma da sociedade capitalista, há 16,5% da população nessa condição. Ali 20% da população é composta de analfabetos funcionais e 13% não ultrapassarão 60 anos de vida. O mesmo relatório (do PNUD, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) afirma que há 100 milhões de pessoas no Primeiro Mundo com rendimento abaixo do nível de pobreza, mais de 37 milhões de desempregados, 100 milhões de sem-teto e 200 milhões com expectativa de vida inferior a 60 anos.
Uma verificação elementar desse painel mata, racionalmente, utopias da moda e alimentadas pelo discurso calhorda do rico travestido de pobre. Essa Marcha Brasil, que reuniu apenas 10% do que pretendia para revelar a óbvia exclusão que há no País em manifestações públicas, fala exatamente em coisas vagas e profundamente demagógicas porque sabidamente inviáveis como comida, escola, moradia, saúde e emprego para todos. Esse Nirvana é o repeteco da discurseira, aliás, da campanha eleitoral. Não se nega que um princípio de justiça e equidade, no campo da especulação pura, até acolheria essa proposição que, no entanto, não tem a menor possibilidade prática de ocorrer.
Um país que depende de uma coisa arcaica como a reforma agrária, mais demorada do que a abolição (e nessa analogia há muito a ver), o que reafirma o caráter tardio do seu capitalismo, só na oração dos demagogos pode conceber essa visão de estômagos saciados e de pleno emprego. O pior é que a ideologia sempre tentou jogar com esses fatores e o próprio Estado policial soviético, apontado como um nivelador, se estruturava nesses fundamentos. Emergiu, como o demonstrou Milovan Djilas, a nova classe dos burocratas, a nomenklatura, e se a Rússia de hoje mostra a obviedade de que o capitalismo não resolve a questão social, expõe igualmente a empulhação socialista anterior. Não esqueço do fato de que muitos americanos, além de John Reed, acreditaram nos bolcheviques e um deles, tão entusiasmado se mostrava, que, ao retornar da União Soviética, declarou: Eu estive no futuro e ele funciona. Imaginem o sentimento desse liberal, anos depois, com a emergência do crash da Bolsa em 1929.
GLOSA
Esse pessoal da GW, que cuida dos programas do Lerner, parece fazer tantos milagres em fotogenia como os da revista Playboy com as nuas: qualquer dia ele aparece tão enxuto quanto o Leonardo di Caprio. Aí a oposição vai lembrar que, como o ator, ele afunda com o Titanic do governo
AXIOMA A maior parte do pessoal da linha de frente da Marcha Brasil não tem fome, nem está desempregada. Isso não a ilegitima, mas é o anverso do que o pobre pensa da realidade: ele é prisioneiro do consumo e acredita que ainda sai dessa, seja apostando no bicho ou na Loto e quando adquire eletrodoméstico acha que mudou de classe. E isso está mais próximo da realidade do que o imaginário politizado, ranzinza e supostamente mobilizador.
A propósito: quem viu Lerner no Juca Kfouri sabe por que não deve debater nem com Requião ou mesmo com o Jamil Nakad ou o Jesus. Ao gaguejar tanto para atender à pergunta sobre gastos com propaganda já deu a pista. Esqueçam.
BIZARRICE Brizola volta do exílio e faz um comício em São Borja. Bem no seu estilo sugere que os militares golpistas foram fundo em suas intenções e nos cortaram as cabeças. Aí o tradicional bêbado de comício o corrigiu: pescoço não brota!. Até o Brizola caiu na gargalhada.
RANKING No ranking das universidades vamos pessimamente como sempre. Levamos uma surra de Santa Catarina. O desempenho das estaduais, excluído o caso da Engenharia Florestal, é melhor de um modo geral do que a federal. Quem quiser saber disso que veja a última Playboy, que deixa também nua a situação do ensino superior no Brasil.
Outro ranking em que não estamos lá essas coisas é do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano, obtido pelo cruzamento de fatores econômicos e sociais), figurando em sexto lugar no Brasil, abaixo de Mato Grosso do Sul. O Rio Grande do Sul é o primeiro do Brasil. No ranking dos municípios, Feliz (RS) é o primeiro, seguido de Florianópolis (SC), Santos (SP), Indaial (SC), Paraí (RS) e Gaspar (SC) até chegar em Porto Alegre (RS). Predominam cidades catarinenses, gaúchas e paulistas. Dentre as 50 primeiras, Curitiba aparece em 18º.
O Paraná experimenta um momento sem precedentes na sua economia com a condição de segundo pólo automotivo, mas se persistir permitindo o alargamento do fosso entre o econômico e o social, como já vem ocorrendo, será algo indesejado. Isso pode dar combustível à campanha eleitoral.
SPRAY Ibope, Vox Populi e Bonilha dão 17 pontos de dianteira para Lerner. Já o Datafolha dá 10. No primeiro caso, a diferença é de 1 milhão e 100 mil votos, no segundo de 640 mil. - Requião esteve na Boca Maldita ontem e disse que dá pra tirar a diferença do Datafolha. Explicação meio estranha: um sobe cinco e outro desce cinco. Não é a tendência. - Nesta semana vamos ter contraprova com as sondagens de Datafolha e Ibope. - Muito entusiasmo com a candidatura do Guga (Gustavo Fruet). Quem iria votar em Maurício vota no filho. - Gente de Israel, em grupo, vendo o sistema de transporte de Curitiba orientada pelo Carlos Ceneviva, hoje um consultor internacional da área.
FOLCLORE O Enéas, da bomba atômica, é tão formalista que foi a um programa do Ratinho Livre e chamou o apresentador, com o maior respeito, de senhor Rato, por entender que o diminutivo seria um exagero de intimidade.
CROMO Uma bola de gude, translúcida, enche os olhos dos piás de iluminuras.
AFORÍSTICO Quem desconfia demais das pesquisas normalmente é porque já se percebeu derrotado nas eleições. Os institutos, todos, dos pequenos aos grandes, têm que ajustar seus números daqui para a frente para que na pesquisa de boca-de-urna tudo esteja afinal corrigido e a precisão mais apurada.





