Luiz Geraldo Mazza
O efeito FHC
Mesmo na hipótese de um aprofundamento da ação especulativa contra o Brasil, desejada ardentemente por setores da oposição à falta de argumentos racionais, ainda assim, conforme revelou o Datafolha de domingo, a sociedade preferiria a reeleição de Fernando Henrique do que o ‘‘salto no escuro’’ representado por Luiz Inácio Lula da Silva. E coloco o ‘‘salto no escuro’’, com todas as suas significações, inclusive aquelas levantadas pelo PDS, nos estertores do regime militar na eleição paranaense, e que foram amplamente derrotadas.
Não é o caso de hoje: nem a extrema sinistrose, que iria bem além dos altos níveis de desemprego da atualidade para uma recessão generalizada, ajudaria Lula, que, a despeito da melhor coordenação verbal adquirida, não detém credibilidade para o papel de reorganizar o Brasil depois do dilúvio. É claro que há boa parte de preconceito relativamente a Lula e não é para menos, pois nem ele gosta de passar por trabalhador. Se o candidato fosse o Mercadante ou o Tarso Genro, mestres universitários, haveria mais aceitação.
O Brasil é assim: afetado, ainda com sedimentos monárquicos (e que cresceram com FHC, pois há muito não temos ninguém que lembre um rei) e que cede às razões da suposta cultura superior. Há quem compare o itinerário de Lula ao de François Mitterrand, que tentou (desde uma eleição com o Napoleão redivivo, Charles de Gaulle) várias vezes até ganhar. Essa analogia eu ouvi num debate acadêmico de que participei com um cientista político da Universidade Federal do Paraná, o qual, obviamente, contestei em razão das múltiplas razões culturais que separam o processo civilizatório da terra das luzes do nosso processo.
A oposição erradamente apostou no pânico ao propor um debate, no melhor padrão estudantil (a crença de que as verdades emergiriam), sobre a crise das Bolsas como se ela tivesse propostas que não fossem as conhecidas posturas autárquicas, nacionaleiras, câmbio seletivo, enfim, receituário de um tempo de guerra fria em que as doutrinas da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina), Raul Prebisch à frente, eram aceitáveis. Que o Brasil já está sob o sismo não há como negar. Só que a oposição não se credenciou como capaz de tocar o barco e de dizer, como Pompeu, ‘‘navegar é preciso’’, isto é, com o sentido de precisão, não o de desafio necessário e pique existencial.
No Paraná, o efeito FHC favorece Lerner. Aquele ‘‘comercial’’ do presidente é uma das peças mais fortes da campanha, enquanto do lado oposicionista reina contradição entre a adesão encabulada a Lula e o jogo solerte de tentar capturar votos também com o nome do presidente, usando a ponte Álvaro Dias, sombrio e sem clareza, como se fosse uma força independente, embora deva eleger um exército menos significativo do que o Brancaleone e por isso mesmo esteja justificando votação na professorinha de Fazenda Rio Grande, como sugeriu o alegríssimo Rafael Greca de Macedo.


AXIOMA
Se o Ibope e o Datafolha desta semana não indicarem reação expressiva da oposição nacional e regional, a fatura estará liquidada. Uma das armas psicológicas de campanha eleitoral sempre esteve nas apostas: Aníbal Khury estava dando 1 milhão de votos para quem quisesse apostar. Já nas três últimas pesquisas esse número não estava garantido. Se baixasse para uns 700 mil já iria animar a oposição e esse sinal seria negativo.



GLOSA No horário eleitoral foi dada a partida para o confronto: Lerner provou por ‘‘a’’ mais ‘‘b’’ que as propostas de Requião não têm nada a ver com a realidade: é tudo para todos que acaba se transformando no nada para ninguém. Isso vai ensejar a resposta de Requião, e é aí que saímos dessa água morna que apenas nos convoca, necessariamente, a tomar doses múltiplas de Engov
BIZARRICE Deputados estaduais querem criar uma Caixa Econômica Regional. O Brasil não comporta mais esse tipo de manobra com bancos simulados para produzir moeda, como se dá com todos os estaduais. Dá para imaginar quais seriam os clientes com juros privilegiados na nova instituição, os de sempre e que depois não pagam, como se deu com o Banestado.
SPRAY O Banco Central não aceitou liberar os diretores do Badep, cuja liquidação foi pedida por Álvaro Dias, quando governador, do bloqueio dos seus bens. Estava tudo encaminhado para livrar esse pessoal da Espada de Dâmocles, altamente constrangedora. - Se há uma história que precisava ser contada, tanto quanto a do Banestado, é essa do Badep. O que houve de gente que se saiu bem daquele terremoto não está no gibi. A organização virou, como se deu agora com o Banestado (e que o governo quer esconder com uma anistia informal), numa UTI de inadimplentes. - Aliás, o que tem de falido reincidente nos quadros políticos e empresariais é de assustar. Os caras de pau continuam botando banca como se fossem príncipes na monarquia. No governo há vários quebrados e que ainda por cima querem dar lições de austeridade e eficiência. - Uma boa iniciativa oficial é a da Divisão de Treinamento e Desenvolvimento de Recursos Humanos da Secretaria de Administração: cursos de inglês, francês, português, espanhol e italiano estão sendo ministrados a funcionários ao custo de R$ 35 o semestre e aquele que está fazendo o supletivo não paga. Isso aí vale mais do que salário como ganho indireto. - O feriadão não foi fracasso apenas para os políticos que pretendiam faturar agito nas praças de pedágio. A expectativa de ganhos no comércio litorâneo foi frustrada pelo mau tempo, embora o razoável movimento de banhistas. - Hoje, com a chegada da ‘‘Marcha Brasil’’, teremos o repeteco do ritual de sempre, agora com as pessoas pleiteando, além da libertação dos sem-terra presos, como se deu no ano anterior, aceleração de processos no Incra relativamente a desapropriações e assentamentos. Gol contra, sem dúvida.
FOLCLORE De campanha eleitoral há situações inusitadas como a dos dois candidatos a prefeito em Santa Catarina, em comício. O primeiro se declarou, como o segundo, um pioneiro e que derrubou a mata e que ali formou família. Aí disse a diferença entre ele e o outro: o adversário tinha duas mulheres, uma na cidade, outra no município vizinho. O outro confirmou tudo, inclusive as duas mulheres, e disse que o que o diferenciava do seu antecessor no palanque é que a mulher dele tinha dois maridos. Ganhou de barbada.
CROMO Olho para a tua cadeira ausente e recordo, como criança, da praia, dos momentos em que não desfrutei o mar para minhas abluções.

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