Luiz Geraldo Mazza
A ‘‘buena dicha’’
As bruxas de Macbeth, enquanto mexiam no caldeirão de morcegos e aranhas, tentavam - e pelo menos neste caso o conseguiram - intervir nos acontecimentos e, se possível, mudar-lhes a direção. Mais ou menos assim está a oposição diante das pesquisas que dão margens de 10, 12 a 17 pontos de diferença entre Lerner e Requião. De outro lado, FHC dá uma surra homérica em Lula no Paraná e isso se transmite negativamente ao candidato Requião que, a essa altura, não pode igualmente fugir da tatuagem que o liga ao petista, pois, por mais que se esforcem alguns oportunistas em sugerir aproximação com o tucano, como faz o sempre ágil Luis Cláudio Romanelli, a operação não funciona.
Pesquisa é como ‘‘buena dicha’’ dos ciganos e até mais eficaz se levarmos em conta a prática eleitoral brasileira. De vez em quando há uma saudável pisada na bola para despertar dúvidas, o que é indispensável ao conhecimento, como se deu com aquele instituto que mostrou FHC na frente de Jânio para a Prefeitura de São Paulo e que gloriosamente ‘‘dançou’’. O Brasmarket, o único utilizado por Requião por apresentar uma diferença pouco superior a quatro pontos, o que chega perto de 300 mil votos, foi o instituto que previu em capa da ISTOÉ um empate técnico entre Cassio Taniguchi e Carlos Simões para a Prefeitura da capital, liquidada tranquilamente no primeiro turno.
Nesta semana teremos o Ibope da Globo e mais um DataFolha. Isso vem após a sondagem do ‘‘Vox Populi’’ com 17 pontos de diferença: 51, isso é mais do que a metade do contingente, contra 34. Quase repete o Ibope, que deu 48 a 31. O DataFolha, de ontem, deu 50, portanto a metade, para Lerner contra 40 para o oposicionista Requião, dez pontos de lambugem. Essas amostras se deram depois do horário eleitoral, portanto indicam que se houve ganhos estes foram do governo, tanto o federal como o estadual. Lula, no Paraná, perde de 50 a 20, fazendo a média dos vários institutos, e isso se transmite ao processo das eleições regionais. Desde o começo tenho sustentado que o pleito federal acaba condicionando o estadual, e não o contrário.
A oposição está com pouca bala na agulha e iniciativas como a ‘‘Marcha pelo Brasil’’, já manjada e que só tira votos, e a esperança de que o pedágio se transformasse em tortura para os usuários, não funcionaram. Resta alguma bomba de última hora. Pelo jeito não há nem tranque baiano e nem ‘‘espanta coió’’.

AXIOMA
Se a Secretaria de Segurança agisse com o mesmo rigor dos policiais militares encapuzados contra os jornalistas desta Folha em Sapopema no caso das quadrilhas que operavam em comum acordo com os policiais de Almirante Tamandaré não haveria a ousada tentativa de resgate de preso naquela cidade.


GLOSA
A tragédia havida com Osvaldo Santos lembra um pouco o ocorrido com o filho do deputado Alencar Furtado, o jovem Heitor. Num caso como no outro o peso da fatalidade e de desígnios que estão fora do nosso controle, provação que só a religião e a coesão familiar podem encarar. Negá-lo é cair no extremo do niilismo e neutralizar uma substância básica da aventura humana: a fé e a esperança na transcendência, sem a qual a vida se torna sombria e opaca.
BIZARRICE
Nesta semana o doublê de advogado e candidato Genésio Natividade, do PSDB, vai montar um ‘‘mata burro’’ na Avenida Luiz Xavier, dramatizando o funcionamento de uma praça de pedágio. ‘‘Só’’ - explica ele - ‘‘que na minha vai haver alternativa: quem usar uma via paga pedágio, quem não quiser se vale da outra!’’ Isso, com bom humor, é melhor do que fechar estrada, como pretendiam alguns debilóides, não percebendo que o povo é contra esse tipo de sacanagem.
PERGUNTA
Pode o sujeito ser multado pelo EstaR da Prefeitura, legislação de caráter municipal, e, ao mesmo tempo, sofrer perda de pontos relativamente ao Código Nacional de Trânsito? Isso não infringe, pergunta o consulente, a regra jurídica do ‘‘non bis in idem’’, a de que ninguém pode ser punido duas vezes pela mesma infração? Infração maior é sermos brasileiros.
O Brasil, meu irmão, tem as raízes institucionais do poder mergulhadas no período colonial. Que é a Rede Globo se não um latifúndio eletrônico e que reproduz as capitanias donatárias?
SPRAY
Como da outra vez a ‘‘Marcha pelo Brasil’’ no Paraná vai pleitear a soltura dos sem-terra presos e acusados de ‘‘formação de quadrilha’’. E aquilo que havia na delegacia de Almirante Tamandaré não era quadrilha?- O fato é que o movimento, na velha reverberação marxista, dá um passo para a frente e dois para trás: a sociedade é indiferente aos seus apelos e ninguém, vejam bem, transforma um catatônico num portador da Dança de São Vito.- Chamar o povo de alienado, como a esquerda (arrogante, autosuficiente e burra) sempre fez, não resolve a questão: o discurso é superado, populista e perdedor.- A liderança desses movimentos não padece fome (e nunca padeceu), não é desempregada e muito menos excluída. Boa parte dos dirigentes é constituída de burocratas, de sindicalistas profissionais e a Igreja, que dá a inspiração maior a esses movimentos basistas, se recusa, por exemplo, a aceitar a inevitabilidade do controle familiar, especialmente no campo, nos assentamentos e nos núcleos favelados. Entre a realidade e o dogma, este prevalece com seu obscurantismo.-
Que é preciso haver a expressão dos excluídos nem se discute. A nossa sociedade é retrógrada, fóssil, estruturalmente falando, mas com esse papo de escola, trabalho e moradia para todos (mais o shopping, é claro, afinal é preciso não ter medo de ser feliz) estamos tratando do desejável, mas nunca do possível. E em política a fronteira entre uma coisa e outra é indispensável.- Ninguém tem solução para o dualismo brasileiro, o hibridismo de Bélgica e Índia. Não será empobrecendo a parte belga que socializaremos todos na linha hindu. Trata-se de processo cultural, penoso e longo, que só com mais prática de democracia, inclusive a pressão dos sem terra e dos destituídos, que se encontrará o ponto de equilíbrio.
FOLCLORE
No futebol a arrogância é castigada. O Atlético estava insuportável antes do campeonato nacional e agora fica na lanterna. Nada justifica, porém, a maldade de fazer piadas com as pilhas que sustentariam a lanterna. De repente o coxa e o ‘‘boca’’ começam a cair e se o Atlético não subir vamos todos para a segunda divisão com Renault, Audi-Volswagen e tudo o mais.
AFORÍSTICO
Todo o discurso do destituído é aceito pela direita. Ocorre que ela não aceita é a ação. Essa marcha e os comícios estão muito longe disso.

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