Luiz Geraldo Mazza
Ah! As pesquisas!
Nessa época há três profissões altamente valorizadas: o marqueteiro, que se torna mais importante do que a doutrina de um partido ou de uma coligação; o advogado que cuida das coisas no tapetão, para onde tanto o governo quanto a oposição encaminham demandas para dar o cartão vermelho ao adversário e o exegeta ou hermeneuta, o decodificador de pesquisas e que assume um ar de sábio para enunciar o que há de mais óbvio.
Ontem tivemos novas pesquisas, agora da ‘‘Vox Populi’’ que no próprio nome sugere ser ‘‘a voz de Deus’’, Vox Dei, o que se dá por elipse, com Lerner ultrapassando a barreira dos 50, o que, na visão conspiratória da oposição, irritada com tantos números negativos e com escassa confiabilidade no quase positivo da Brasmarket, é fruto de ‘‘arredondamento’’ nos pólos para mais, em favor de Lerner, e para menos, contra Requião. O mesmo se disse da sondagem do Ibope, que era de 48 a 31, com o ajuste em cima da ‘‘margem de erro’’, o que daria um ganho de seis pontos para o situacionismo. Nessa linha de raciocínio, a diferença efetiva seria de 11 e não de 17 pontos. A anterior do ‘‘Vox Populi’’ era precisamente de 12 pontos (49 a 37).
Mas se é discutível - até para manter a militância com alguma esperança - o resultado de Ibope, Datafolha e ‘‘Vox Populi’’, também o do Brasmarket, que Requião utiliza à exaustão na tevê, sofre reparos técnicos, conforme o que consta dos registros no TRE. Assim, das 854 entrevistas feitas em 41 municípios não nominados foram levadas em conta, isto é registradas, apenas 400, o que se constitui num indicador muito baixo como amostragem para a magnitude do objetivo perseguido. A pesquisa tem um custo baixo, da ordem de R$ 1 mil, o que está à altura de parâmetros limitados.
Quando a oposição usou o Brasmarket, houve repique: essa empresa previu para a eleição municipal de Curitiba um segundo turno acirrado entre Carlos Simões e Cássio Taniguchi, o que todos sabem esteve longe de acontecer. A capacidade de criar fatos políticos, que indiquem uma reversão, é limitadíssima no campo oposicionista, embora a boa qualidade jornalística e política da reportagem no programa de Requião, ‘‘checando’’ obras inexistentes prometidas por Lerner. O efeito é hilário e lembra, a distância, aquela jogada da campanha de 85 entre os dois sobre a Conectora 5, em que a massa do PMDB andava na estrada vazia procurando gente e que depois Lerner respondia mostrando a sua multidão, mas não conseguindo diluir o impacto da provocação, que era verdadeira. O humor é uma arma corrosiva quando usada com habilidade, o que houve neste caso. É, porém, muito pouco para quem está à deriva num oceano hostil, o oceano das pesquisas e das tendências. Enquanto sobram decodificadores de pesquisas para aumentar a confiança no governo, escasseiam no lado oposicionista.

GLOSA
Requião em Guarapuava, perguntado sobre o conceito de ‘‘Faxinal do Céu’’ como uma boate de professor, corrigiu-se: ‘‘Está mais para spa’’


AXIOMA Disse, pessoalmente, ao governador, no Palácio Iguaçu, que ele não tinha controle na Segurança porque delegara poderes aos políticos. Com o caso do repórter Alexandre Sanches, algemado, e do fotógrafo Mário César, sob mira de revólver por policiais encapuzados, houve o inconformismo do governador, mas na Segurança ainda se tentava dissimular as coisas. Lembram do jovem Zanella assassinado por policiais e que a delegacia tentou sugerir que era traficante?
BIZARRICE O entrevistador Roberto Coutinho, da CNT de Londrina, fez a pergunta clássica para Requião se acreditava em Deus, pelo fato de viver citando versículos bíblicos. ‘‘Escute, Coutinho’’, disse Requião, ‘‘eu acredito até em voc꒒. A ambivalência da resposta é melhor do que a costumeira herética de o entrevistado, à base da brincadeira, considerar-se o próprio Deus. E também superior ao exibicionismo intelectual de FHC, que ajudou a derrotá-lo em São Paulo, diante de Jânio Quadros, querendo fazer pose de agnóstico ou materialista face à pergunta idêntica de Boris Cassoy. Uma pesquisa da ‘‘Vox Populi’’ revelou que o ateísmo é insuportável para a esmagadora maioria, e a infidelidade conjugal preocupa apenas 36%.
SPRAY A idéia de jerico do PDT e do PT de intervir nos diretórios onde os seus prefeitos seguem Lerner é inócua. No PDT, dos 61 existentes apenas três ficam com a oposição e por isso são chamados de ‘‘três patéticos’’. - Se o PMDB fizer o mesmo com os que debandaram, quebra a cara e reduzirá o drama do espólio partidário que Requião necessitará, ainda mais se perder o pleito, o que, a valerem os números das pesquisas, deve ocorrer. - Essa é a maior prova da fragilidade da oposição: se ela estivesse credenciada, não seria esse fator que a conteria. Quando Lerner enfrentou Álvaro Dias, a maioria esmagadora dos burgomestres estava com o governo, incluindo muitos do PDT e nada disso o impediu de ganhar. - Mas o governo emite sinais de excesso de zelo e isso é fraqueza quando dá importância a críticas da oposição, como se isso fosse o fim do mundo, ou ainda quando aprofunda patrulheirismo em cima de funcionários. Destes, só os que detêm cargo de confiança podem ser cobrados; os demais, notadamente a maioria que ganha pouco, se forem pressionados é covardia, canalhice. - Governo é também desatento: quando Requião usou horário de deputados para mostrar a cara na tevê poderia sofrer reprimenda maior, pois em São Paulo, Quércia, Rossi e Marta Suplicy, por terem infringido a regra, ficam fora do ar até o fim da primeira quinzena. Imaginaram isso com Requião? Aliás, o senador corre o risco de perder muito tempo com as respostas com os gastos de propaganda. - Não foi também uma idéia boa do governo botar o Alborghetti para responder esse tema. A TV em que trabalha, como as demais, é bastante beneficiária dessas verbas, como de resto, a maioria.
EPIGRAMA O amor pelas coisas oficiais, como se expressassem a verdade, é uma das amostras de fragilidade de caráter do brasileiro.
FOLCLORE No curso de Direito, mestre Laertes Munhoz adorava a ironia em cima dos alunos jejunos. Para um deles pediu uma definição de Direito e o rapaz lembrou dos círculos concêntricos - o maior, o da moral, e o menor, o do mundo jurídico, tido como o mínimo ético - e como não conseguia articular a frase, chutou ‘‘O Direito é um círculo de ferro!’’. Ao que o mestre replicou: ‘‘Mas se é um círculo de ferro, pode também ser um penico.’’
CROMO Horizontal ou vertical eu a contemplo como o alpinista e o explorador: nessa geografia tensa, como índio ouve o solo, sinto o rumor sísmico da vida.

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