Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Quase um Teixeirinha?
O governador Jaime Lerner é apontado pela UDR como frouxo. É claro que na frase há muito do passionalismo que cerca as questões fundiárias com as ações, cada vez mais ousadas, do MST. Tem horror-pânico de que aconteça com ele, no caso dos sem-terra, aquilo que houve com Álvaro Dias na baderna de 88 com os professores no Centro Cívico. Em Santa Isabel do Ivaí houve um desses tumultos em que um dos manifestantes, no choque com a PM, perdeu uma perna. Daí o extremo cuidado que toma, ainda mais no andamento da campanha eleitoral, com as ações da polícia, havendo recomendação rigorosa para evitar provocações, violência e que apenas em casos agudos se utilize a força.
Nessa contabilidade sinistra não dá para comparar o ocorrido no governo que o antecedeu, em que tivemos vários confrontos e com morte, o maior deles o de Campo Bonito, em que houve quatro baixas, três da PM e uma dos sem-terra, na figura de Diniz Bento da Silva, o Teixeirinha, cuja viúva processa o Estado e com toda a razão porque seu marido se entregou, segundo testemunhas, e assim mesmo foi executado. Tem toda a razão de fazê-lo, tanto quanto Clarisse Herzog, que foi em cima do regime militar que havia assassinado seu marido, Vlado, no Doi-Codi. O Estado, que indenizou vítimas da ditadura, não pode eximir-se dessa responsabilidade, ainda mais se ficar provado que a vítima havia se rendido e ainda assim foi execrada, torturada e morta.
Pois ontem quase tivemos uma reedição do Teixeirinha em cima dos repórteres desta Folha, Alexandre Sanchez e Mário César, em Sapopema: o jornalista Alexandre, que tem suas fontes e não é obrigado a revelá-las, foi preso e algemado porque chegou antes do despejo dos sem-terra no local e em função disso sofreu, junto com o fotógrafo, as maiores pressões por parte de autoridades, que não entendiam como eles souberam da operação e queriam obter a informação na marra. Ainda bem que prevaleceu apenas o clima. Quase se estabelece o ritual de 64: o de tentar ligar jornalista à atuação política e ideológica do MST, ao que se saiba um organismo ousado, mas nada clandestino.
Felizmente a operação militar foi bem sucedida, ressalvado esse detalhe de uma prisão por quase duas horas de correspondentes de guerra. E estes, tal qual a Cruz Vermelha nas conflagrações mundiais, gozam de imunidade pela especificidade de suas funções. Se podem eventualmente até ter simpatia pelo MST, percebe-se que depois dessa dificilmente a dispensariam à Polícia Militar.
A instituição paga pelos erros dos seus componentes, seja na violência contra os professores em 88, na barbárie de Campo Bonito no governo Requião ou nas tropelias de Santa Isabel do Ivaí e no incidente de Sapopema, na gestão Lerner.
AXIOMA
Cristo crucificado - essa teria sido a frase sutil de requianista ao ver o candidato de oposição ladeado por FHC e Álvaro Dias no comitê da 24 de Maio, 1.092. Resta saber qual dos dois é o bom crucificado. Comentário de um lernerista: o do meio ressuscita em 2002?
GLOSA Neste episódio do cerceamento à reportagem sobre o despejo de Sapopema, a autoridade militar tentou copiar, em todos os detalhes, a ditadura: sugerir que não houve nada do que os repórteres afirmam, um simulacro de Riocentro. Todas as autoridades negam, e com isso as vítimas da violência podem ser olhadas como loucos. Como os comunistas faziam ao mandarem dissidentes para o manicômio.
Nós somos loucos. Lúcidos são os vivaldinos da Leasing: que praticam loucuras absolutamente verdadeiras e são promovidos.
BIZARRICE Para se ter uma idéia do inconformismo de pessoas como Luiz Carlos Hauly com a deserção de Álvaro Dias da disputa ao governo (afinal ele e Hélio Duque armaram a resistência ao ingresso de Lerner no PSDB para preservá-lo) basta ver o prefácio do livro O Exercício da Coerência, de Hélio Duque, firmado por Sebastião Nery. Nele é anunciado o apoio do autor a Álvaro Dias ao governo. Com Álvaro, aqueles que ajudaram a mantê-lo no comando do PSDB seriam eleitos; sem ele, vão correr o risco da frustração. Prevaleceu, como Álvaro Dias disse a Sílvio Sebastiani, o interesse pessoal, pois se pensasse nos amigos, disputaria o governo.
SPRAY A oposição vai sofrer impactos maiores do que as derrotas no tapetão como essa por unanimidade no registro da vice, Emília: virão através das pesquisas, embora a ligeira melhora de Lula no cômputo geral. - Quando se confia no tapetão ou na crise das Bolsas internacionais como saída é porque a vaca foi pro brejo e sem respeitar o macuquinho ou o maluquinho. Uma puada por unanimidade, como se deu no TSE, só vai ser superada pela força das novas pesquisas. - Hoje Lerner vai estar em Londrina junto com a vice Emília para entrevista coletiva e vai a São Paulo gravar programa com Juca Kfouri, que já ouviu Roberto Requião. - Mas o governo continua fazendo gols para adversários: na tarde de ontem, a polícia queria impedir manifestações eleitorais perto da praça de pedágio na BR-277. Quem lá estava, devidamente arregimentado, era o doublê de advogado e candidato Genésio Natividade tentando faturar alguns votos em cima do pedágio, o que é um direito inegável. - Não ficou muito claro se a versão oficial de que havia um esquema de pichar todas as estradas, que teria sido detectado pela PM, não era contra-informação pura, afinal jogada de guerra psicológica, tal qual essa que tentam armar em cima da reportagem desta Folha. Isso é gol contra, de letra. - Surpreendente o número de mulheres na magistratura: 47% até agora nas etapas do concurso para juiz substituto. - E agora a vereadora Nely Almeida, que queria botar focinheira nos cachorros, está propondo binóculos para os policiais militares. No Natal e festas de fim de ano fazem isso como rotina, de cima dos estrados. Para ver à distância se há pontos de tumulto, roubo etc. Será que a vista boa não seria suficiente? Por exemplo: se houvesse boa visão, não havia tanto roubo de automóveis na frente do Hospital da Polícia Militar.
FOLCLORE Dia 21, segundo o Elísio Marques, também militante, reúnem-se os anarquistas do Paraná num Luau na Ponta da Pita, em Antonina. Requião e Lerner estão previamente excluídos: o primeiro lembra o Golias, o segundo Davi. A ala mais soft recomenda o voto de protesto em Júlio de Jesus, a hard sugere Jamil Nakad, a zebra da bomba. Para presidente, fecham com Syrkis, do PV. Anarquistas do Terceiro Milênio votam!
CROMO Uma estrela cadente// tão rápida passou// que nem deu para escolher um desejo:// são tantos quanto as estrelas que cintilam.
AFORÍSTICO A PM quis pular fora do conflito com professores e também no caso do Teixeirinha e agora sugere que a Folha está vendo coisas como os encapuzados de Sapopema. A farsa é que se repete como história.





