A própria filosofia da moda, confessional, do neoliberalismo, retoma uma das mais vagas doutrinas, a do laissez-faire, a rigor a atualização da fisiocracia de Quesnay, dos séculos 17 e 18. Segundo ela, a terra é o maior fundamento da economia e que existe uma ordem natural das coisas que não se contraria com regulamentos, normas ou leis. Mais ou menos, guardadas as proporções, a atoarda da moda em cima do ‘‘fim da história’’, de Fukuiama, e outras mistificações transformadas em axioma.
Como a sociedade é militarmente hegemônica e não há contrastes, vive-se no mundo uma espécie de verdade incontestada como se dava no interior dos países submetidos ao ‘‘socialismo real’’. Há, também, um esforço deliberado para remover os sinais do welfare state (o bem-estar, não apenas da social-democracia, mas dos Estados Unidos e países europeus, como os nórdicos), o que se torna mais grave na periferia do universo, como é o caso de uma sociedade em desenvolvimento como o Brasil.
No debate a que várias vezes me referi, do liberal Galbraith com Paulo Francis, o economista e filósofo mostrou, para espanto do brasileiro, cada vez mais convencido do ‘‘determinismo’’ neoliberal como inexorável, que não há democracia em lugar algum do mundo se não se oferece um mínimo de rede de proteção à pobreza. E ele não sugere a cesta básica, à moda do Carlos Simões e do PMDB populista, como solução, mas massificação educacional de qualidade pela crença (e isso é uma pedra de toque do sistema norte-americano que erige a escola pública na condição de a mais importante invenção do homem para a democracia) de que é aí que se obtém a igualdade de oportunidades.
Claro que é impensável, a despeito das melhoras havidas com FHC do sistema de primeiro e segundo graus (o que ocorreu até em melhor escala aqui no Paraná, o que é inegável, apesar da demagogia dos corporativos sindicais), esperar essa transformação com o nosso padrão de escola pública ou privada, ambos uma sucata pedagógica. Para que esse fermento democrático opere e faça algo como uma revolução é preciso melhorias substanciais, conquanto as havidas na baixa de evasão e repetência sejam animadoras.
Em função do confessionalismo e da ausência de referenciais ideológicos, olha-se com desprezo a idéia do planejamento porque ele, na essência, é a negação dessa neutralidade e da babaquice do autocontrole pelo mercado quando se erige, embora os doutrinadores se afirmem comprometidos com o primado do espírito e não da matéria, o mercado como uma espécie de Deus regulador, algo bem parecido, na perspectiva do Velho Testamento, com o bezerro de ouro.
No Brasil, todas as coisas importantes - a hidrovia Tietê-Paraná, por exemplo, o colar de hidrelétricas que erigimos dos anos 60 para cá, as rodovias, a exploração mineral, e aí entram a Petrobrás e a Vale, que os vendilhões querem entregar a preço de banana - foram boladas há mais de quarenta anos e isso significa visão de futuro, a busca de prever para prover.
No Brasil, a dificuldade atual não é apenas a confusão doutrinária em cima de um confessionalismo, mas a de fugir da areia movediça do emergencial (controle da inflação, acerto das contas públicas) para enxergar um horizonte mais distante e que diga respeito às questões permanentes e não transitórias. O pior é que o assanhamento do governo em mostrar-se servil ao exterior tenta acelerar, queimar etapas de um processo que tenderá, cada vez mais, a impor uma ordem perversa, um darwinismo primário, com ampliação dos excluídos.
O campo seria uma saída no caso brasileiro, mas temporária, por no máximo duas décadas, já que a tendência inexorável é baixar a população na zona rural, posto que esse tema no Brasil ou na China exige outra leitura. Reforma agrária foi protelada ao desespero neste País, o que se constitui num escândalo para a entrada do terceiro milênio. Por sua capacidade de agregar massas, o campo não será uma solução econômica, mas social, para essa quadra.
BIZARRICE - O presidente do TJ, desembargador Henrique Lenz César, disse não existir nepotismo no Judiciário, alegando que o filtro é o concurso público. Sobre concurso público, tem aquela frase do Aníbal, a de que não vale a pena fazê-los porque só passam japoneses e comunistas, como reclamava a UDN. Sobre nepotismo, o saque maior é o do governador Guataçara Borba Carneiro, que havia nomeado o filho, Paulo, para o Tribunal de Contas. A quem lhe fez a crítica, respondeu com sinceridade tibagiana: ‘‘Querias o quê? Que eu nomeasse o teu?’’
FOLCLORE - Uma das figuras mais queridas da boemia curitibana era o Senador, assim chamado genericamente por sua turma. Frequentava as rodas de Luiz Roberto e Caio Soares, Norton Macedo. Um dia, tomou um porre tão forte a caminho de Camboriú que os amigos de viagem, preocupados com o seu estado, decidiram voltar a Curitiba, lá da praia catarinense. Colocaram-no na porta da casa e apertaram a campainha. A mãe veio atender e ele, despertando, chiou: ‘‘Mamãe o que é que a senhora está fazendo aqui na praia?’’
AFORÍSTICO - Montesquieu valeu até que apareceu Ulysses e a Carta de 1988. Lá se foi o sistema tripartite. Com FHC, a volta ao absolutismo disfarçado. E aqui, a concentração de poderes do Aníbal Khury derruba o diagrama clássico do enciclopedista.

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