Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
O choque do passado
Ao contrário do que foi proposto por Alvim Toffler, com um dos primeiros livros, O Choque do Futuro, neste Brasil esquizóide, parte Bélgica, parte Índia, conforme o diagnóstico de Edmar Bacha, vivemos sob o signo do passado. Da mesma forma que os revolucionários de 1894, a federalista, pareciam favorecer a monarquia derrubada e afrontar a República, mal costurada, poucos anos antes, e traduzida na Constituição tão irreal de 1891 como a de 1988, que consagrou o príncipio de um tudo para todos que se transforma num quase nada para ninguém, essa marcha das colunas, preparando a apoteose para o 7 de Setembro, tem tudo de nostalgia do ontem, idealizada, é claro.
É evidente, também, que a reforma agrária, desesperadamente protelada pela elite parasita, a mesma do Brasil colônia, bandeira dada como salvacionista, não tem a menor expressão no conjunto da economia brasileira, posto que valha, e muito, como solução social, de emergência, porque o campo há de ter, em qualquer sociedade complexa (e isso se dará inclusive na China), cada vez menos gente e mais tecnologia na sua exploração. Legítima, sem dúvida, essa bandeira, mas colocada fora de tempo, já que faz aflorar o Brasil arcaico; ela se funda no agrarismo que Marx deplorava e não tolerava. Como de resto não tinha respeito político pela figura do lúmpen, o alienado, sem raízes, que o PT, insistentemente, procura transformar em sujeito, como se isso fosse obra revolucionária e não expressão do atraso.
Não se pode negar ao MST a condição de maior movimento social da América Latina, superior às guerrilhas e aos zapatistas de Chiapas, em termos de dispersão e concentração geográfica. O voluntarismo religioso, que o torna um tanto quanto messiânico e próximo de Antonio Conselheiro, o vincula às seitas e às legiões que agem com a pulsão dos que se acham com o corpo fechado como os radicais muçulmanos.
A marcha, tal qual aquele itinerário de Lula pelo interior do Brasil na outra campanha, perde votos como o próprio MST na medida em que transborda nas suas ações com violência e tortura, como aconteceu inclusive aqui no Paraná, como todos viram, devidamente documentado pela TV, na Fazenda Borborema. O grau de auto-suficiência dos dirigentes do basismo é de tal natureza que se mostram incapazes para perceber que a maioria do povo os hostiliza até porque o mundo em que vivemos não é solidário, mas fragmentário e egoísta. Eles não recebem solidariedade quando fecham estradas ou tomam conta de praças para as suas pregações em que se dizem dispostos a ouvir, quando, na verdade, pretendem é doutrinar e fazer proselitismo. Dão palavras de ordem porque acham que a sua doutrina, como a fé religiosa, é verdade revelada, incontestável.
A promessa genérica de alimento, moradia, trabalho, saúde, para todos é um delírio, ainda que assentado num primado de justiça. Não há como fazê-lo, como de resto inexiste solução (que não seja de discurso e teoria) para a fome dos dois terços da humanidade. E esse discurso é o dos ricos também, com a mesma escassa base de sinceridade porque sabidamente inviável.
AXIOMA
Monica Lewinsky fazendo boca de urna nas eleições é a piada de mau gosto que lavrava ontem na Boca Maldita.
GLOSA Três prefeitos do PDT, que ficaram na oposição, podem ser olhados como mosqueteiros, e o Friedrich como o Dartagnan, mas também como três patéticos.
BIZARRICE Na campanha de Requião, 90, o candidato ao Senado, Waldyr Pugliesi, que se queixava de estar sendo cristianizado, repetia em seu discurso um clichê: o de que, desde criança, ouvia o bimbalhar dos sinos da igreja. E tanto bimbalhou que um dia correligionários o bimbalharam pelo telefone e o próprio Requião tirou um sarro no palanque em torno dessa sina com os sinos.
PAU NA LEASING Pelo jeito a oposição vai fazer, e com toda justiça, um arrendamento mercantil em cima das malandragens da Banestado Leasing. Romanelli anunciou uma noite de arrepiar os cabelos (dos outros, é claro) e passou a mostrar manchetes das trampolinagens do Banestado na TV. Era inaceitável o silêncio sobre o assunto. O maior absurdo é que Lerner protegeu o candidato a governador de Sergipe, João Alves, a tal ponto que obrigou os advogados do banco a renegociarem empréstimo que ele não estava honrando e isso permite, imaginem o absurdo, que o inadimplente que teve sua dívida parcelada possa processar essa teta da loba romana que é o banco oficial. São uns brincalhões e nós, os trouxas, que pagamos essa diversão dos sibaritas.
SPRAY Metáforas intelectualizadas na TV não são assimiláveis pelo público. É o caso da bem feitinha (esteticamente) cena da água e do barquinho de papel, da oposição, que saem pelo ralo por causa dos R$ 340 milhões em propaganda. - Na primeira vez que apareceu, como veio colada ao programa do Lerner, dava impressão que se tratava de tudo, menos de uma crítica. Houve quem achasse que se tratava de uma referência à intervenção de Lerner para liberar os empréstimos do Paraná, bloqueados no Senado. - A propósito, o TRE deve conceder direito de resposta a essas afirmações e quando for obtido, a situação terá um horário enorme, pela acumulação das críticas feitas, a seu dispor. - Curiosa está a campanha em Almirante Tamandaré: o João Simões mete o pau no prefeito, Manfron, seu cunhado, e nos irmãos Carlos e Íris, pelos quais sempre fez de tudo. Briga nada bíblica. - O advogado e candidato Genésio Natividade (redundância das mais radicais até no nome) cortou o barato de Rafael Greca de fazer propaganda para divulgar Maria Fernandes, do PSC, como sua candidata ao Senado, no horário dela. Liminar concedida proíbe o ex-prefeito e candidato a federal de fazê-lo novamente. - A reedição do Ato-5 na Universidade Tuiuti, traduzida na apreensão do jornal-laboratório, é pedagógica indiretamente. Não se sabe qual a razão: se foi uma crítica ao estacionamento (horroso, eu vi), ao relógio dos 500 anos da Globo, ou a crítica suave ao aumento abusivo das mensalidades. O coronel Sidnei Santos não tem nada a ver com isso, o que parece coisa de áulico mais realista do que o rei.
FOLCLORE Fosse uma empresa, o Paraná, como unidade federada, teria falido. Pendurou ações da Copel e Sanepar como garantia de empréstimos e virou devedor igual a União. Se isso for dito na campanha, dará direito de resposta, mas a grana, esta com certeza, não aparecerá. Empurrar com a barriga é preciso e aqui, convenhamos, ela é mais do que farta, como sabeis.
CROMO Um desmaio de lírio, curvo na haste como bailarina na morte do cisne.
AFORÍSTICO Que não nos privem de Engov, que essa campanha ainda vai longe.





