Luiz Geraldo Mazza
Síndrome de Jim Jones
Apostar em invasão de terras, na tal marcha das colunas, com esperadas cenas nas praças de pedágio e mais ainda nos efeitos fatais da crise das Bolsas, é hoje o salva-vidas da oposição brasileira, aí incluída a paranaense, ainda mais se levarmos em conta as pesquisas eleitorais.
Resumo da ópera: o quanto pior, melhor, continua a bandeira dos sinistrosos, hoje como no passado, confiando sempre no aleatório, necesariamente ruim, como saída para dificuldades políticas, até aqui, pelo menos, incontornáveis. É, sem tirar nem por, a terapia miraculosa de Jim Jones. Já que não podemos desfrutar daquilo que pretendemos, que todos se danem.
A situação brasileira está criando uma situação curiosa que poderia reproduzir um velho quadro de Arthur Koestler, quando colocou dois pólos em contraste no texto ‘‘O iogue e o comissário’’. De um lado, o contemplativo, na postura zen, e de outro o inquisidor impiedoso. Fernando Henrique Cardoso adota uma postura quase catatônica em relação à conjuntura mundial; Lula, convulsivo, quer discutí-la, embora não se acredite que tenha qualquer formulação para reduzir ou contornar o impacto da fúria das Bolsas no Brasil.
Essa é uma velha e inócua mania do petismo: quando se vê perdido, seja numa eleição sindical ou numa dessas mais amplas, tenta ganhar moratória no ritual assembleísta para continuar discutindo. Torce abertamente para que ocorra por aqui algo como o havido nos tigres asiáticos ou o México, esperando que um sinal dessa tormenta seja suficiente para beneficiá-lo, como de resto falou Lula, num ato falho, ao referir-se que felizmente Deus não estava privatizado e o desemprego continuava crescendo no Brasil.
O assembleísmo se acredita, em si mesmo, solução para tudo. Dá para imaginar um megadebate nacional em torno do quê fazer e do que foi feito para prevenir efeitos mais pesados do furor das Bolsas. É menos honesto e menos prático do que o retorno de Jesus anunciado em tinta branca nas pedras das estradas. E, convenhamos, que nada tem a ver com o nosso Jesus, candidato do PSTU.


GLOSA
Museu da Serrinha, em Contenda, tem mais funcionários do que no Museu Paranaense. No Museu Arqueológico de Paranaguá, segundo o anarquista Elísio Marques há mais ‘‘fantasmas’’ de verdade do que funcionários. Inclusive o homem do sambaqui com mais de 5 mil anos em urna funerária



AXIOMA Os fundamentos da Marcha pelo Brasil (ninguém com fome, o que desde logo pressupõe o Estado-Albergue, do ideário regressivo) restabelecem uma das idiotices da esquerda populista (o projeto popular naturalmente feito pelos que nasceram, como os príncipes no passado, sob influência divina, com a condição de vetores da história) e voluntarista e, por isso mesmo, anti-marxista e mais próxima de Antonio Conselheiro. Por aí se chega ao ‘‘Murcha, Brasil’’.
BIZARRICE A Universidade Tuiuti tomou medida parecida com as do regime militar ou dos tempos de Hitler ao apreender os 4 mil exemplares do jornalzinho dos estudantes de Comunicação Social ‘‘Pauta NQM’’. Como as iniciais, em jargão jornalístico, significam ‘‘nem que morra’’ para as matérias que devem sair de qualquer jeito (boa parte delas no caso da nossa imprensa representada por releases de anunciantes oficiais ou privados), acabaram ‘‘matando’’ o jornal inteiro e o incinerando. Belíssimo exemplo, democracia pós-graduada.
SPRAY Governo insiste em subestimar as denúncias sobre gastos com publicidade. Já tem um levantamento em que se comprova que Requião dispunha de mais espaço no rádio e na TV e nos jornais, o que, convenhamos, não refresca. - O público não está nem aí com esse papo, não se sensibiliza porque tem memória e sabe que desse mal todos os governos no Paraná padecem. - A Marcha pelo Brasil e as invasões de terra só dão pontos para o governo, embora a UDR o odeie e viva a chamar Lerner de ‘‘frouxo’’. Pimenta no olho dos outros é colírio. - Primeiras broncas com as chamadas ‘‘organizações sociais’’ vão dar o quer falar: todo o parque de informática do Município de Curitiba foi transferido a um instituto que está operando numa conexão com Pernambuco, que dá o que falar. Um dossiê alentado sobre o tema, inclusive com denúncias no Detran pernambucano, corre de mão em mão. - O tolo que deu a idéia de fechar o Parque do Barigui à noite por causa dos crimes que lá acontecem poderia ter idéia mais simples: para que a Guarda Municipal, mais uma corporação colorida como as das ‘‘tirivas’’, se não tem função prática sequer para proteger os próprios municipais? É mais fácil fechar a Guarda do que o Parque. E por que não fechamos a cidade, as BRs, já que não temos segurança alguma? - A Agência de Desenvolvimento do Paraná tem um jeitinho muito parecido com as propostas da Aliança para o Progresso. É mais uma iniciativa para gerar emprego e que envolve todos os programas de geração de renda e trabalho que existem no País e que venham a ser criados. O nome genérico é Banco do Emprego. Se ele tivesse de capital o dinheiro desviado da farra da Leasing e da Corretora Banestado seria uma festa. - Há um problema sério atrás de crise recente que quase derrubou o diretor-geral da Secretaria de Segurança do Paraná. Anos passados, um ocupante da mesma função se viu obrigado a denunciar uma jogada na área de rádio-comunicação. Outra vítima dessas foi o Levi Lima Lopes, que não tolerava o cerco dos políticos. - Toma posse Nério Spessato Ferreira como desembargador. Para a sua vaga no Alçada vai o juiz Arno Gustavo Knoerr.
FOLCLORE Em 1962, governo João Goulart, foi instituído o horário gratuito no rádio e na televisão. Fazíamos o programa do Partido Socialista Brasileiro e tínhamos os mesmos espaços que os partidos grandes. O nosso era ouvidíssimo: afinal lá estavam mestres como Newton Freire-Maia, geneticista, Vieira Neto, jurista, Vieira Lins, criminalista, Riad Salamuni, geólogo, Amílcar Gigante, médico e mestre universitário. Muito visto, mas pouco votado. Num dia eu fazia uma entrevista com o jornalista Jairo Régis e, a certa altura, ele disse que disputava a eleição por idealismo, que se sentia um Don Quixote. Ao olhar o lado robusto do Jairo não resisti: ‘‘Mas o corpo é de Sancho Pança!’’ Jairo, que foi um dos maiores batalhadores da sindicalização rural, passou a mão na barriga e fez uma gracinha, dizendo que era preciso mudar o regime de qualquer de qualquer jeito, sem esclarecer se o dele ou capitalista.
CROMO Flui na rocha calcária a gota secular que erige catedrais na caverna em estalactites e estalagmites.
AFORÍSTICO Político completo é o que além de votos obtém ex-votos: cabeça, pernas, mãos em gesso por uma graça atendida.

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