Luiz Geraldo Mazza
Esperança abrasiva
Estreitaram-se os horizontes da utopia com a queda do Muro de Berlim e a falência do ‘‘socialismo realmente existente’’, que afinal representavam com todas as suas deformações, um contraste ao capitalismo, já que a chamada social-democracia européia (França, Itália, Suécia, Alemanha etc) não colidia em termos fundamentais com os clichês do ‘‘mundo livre e ocidental’’, embora mais aplicada na tradição do ‘‘welfare state’’, o ‘‘bem-estar’’. O capitalismo está sob um desafio terrível com a queda das Bolsas e os mais paranóicos já imaginam a reprodução do cenário de 1929 em Nova York, e que pegou o Brasil de cheio, especialmente no café, como já me referi.
Volta e meia quando o mundo estava cindido em dois blocos, embora os acenos autonomistas mais radicais como o da China Ocidental e os mais brandos dos ‘‘não alinhados’’, era comum ouvir-se, da parte do teóricos marxistas, que o capitalismo como sistema não escapava das crises cíclicas e a mais nítida havia sido a do ‘‘crack’’ que fechou a década de 20, que se iniciara com a 1ª Guerra Mundial. Mais recentemente, por ocasião dos dois choques do petróleo, houve quem imaginasse que o cartel dos produtores da matéria-prima (Opep) criasse uma fenda abissal no regime. O sociólogo de esquerda cristã dos States, Michael Harrington, especialista em estudos da pobreza yanke, tal qual Josué de Castro fizera entre nós com a fome, imaginou ‘‘O crepúsculo do capitalismo’’, o que colocou em livro editado no Brasil e que falhou como profecia, já que as sete irmãs saíram revigoradas do processo.
O ‘‘crack’’ da Bolsa em 29 levou ao ‘‘New Deal’’ e à valorização mais do que a mediação estatal para legitimar a ‘‘intervenção’’. É o keynesianismo no seu melhor momento. Aliás, para salvar o ‘‘mundo livre’’, o bloco ocidental lançou o Plano Marshal, que permitiu a recuperação de todas as economias extenuadas pela guerra. Na intimidade dos States houve o ‘‘New Deal’’ de Roosevelt, no qual o grande liberal John Keneth Galbraith era o controlador de preços, o que parece uma contradição em termos, se não examinadas as circunstâncias que, como leciona Ortega y Gasset, merecem mais atenção do imaginamos.
No meio do furacão não é fácil raciocinar, doutrinar: que há necessidade de fixar um mínimo de controle sobre o capital volátil não há dúvida, o que todavia parece herético aos ‘‘puristas’’ dessa impureza. O pior é que na eleição brasileira o candidato oposicionista tenta tratar do tema que não domina e para o qual não tem solução, buscando culpar FHC por haver falta de salvaguardas para a hipótese da convulsão. Só que esse sinistro, ao invés de favorecer, virá em favor da reeleição por um raciocíonio elementar: ruim com FHC, pior, mil vezes pior, sem ele.
Há, no entanto, uma esperança à esquerda e ao lado do humanismo de que o trauma atual mexa com os fundamentos do capitalismo para o qual só existe um remédio - o radicalismo democrático. Isso transcende a FHC ou Lula.


BIZARRICE
Na ‘‘Veja’’ desta semana, detalhes das baixarias sexuais na Casa Branca. Fala-se, inclusive, em cenas de sexualidade entre o presidente, a estagiária e um charuto. O jornalista Eduardo Schneider sugere que se o charuto envolvido for cubano, a direita, desta vez, derruba Clinton



AXIOMA Na Rádio Bom Jesus, de Siqueira Campos, dia 12 de agosto, Requião deu uma entrevista e a certa altura afirmou que conservaria ‘‘Faxinal do Céu’’, mas não como ‘‘boate de professor’’. A frase, embora descontextualizada, é repetida nos horários eleitorais e provoca forte reação entre o magistério, onde mais de 60 mil servidores fizeram a reciclagem. A língua pode ser o chicote do corpo também na autoflagelação.
GLOSA O governo até agora não deu resposta à questão dos gastos de mais de R$ 300 milhões em propaganda. O argumento é no sentido de que pretende fazê-lo no direito de resposta, tomando os espaços da oposição tantas vezes repetida a denúncia. Empenha-se, pois, mais em punir a oposição do que em esclarecer.
PEDÁGIO Mais importante, neste momento, do que a decisão judicial sobre o pedágio (primeiro e segundo rounds favoráveis às consorciadas) é pensar, em todos os detalhes, por mínimos que sejam, do funcionamento do sistema no feriadão que se aproxima. Aí as duas partes são interessadas em que tudo esteja nos trinques, pois só a oposição, que já aposta as fichas na crise das Bolsas como recurso final, tem interesse em que haja conflito, no qual tanto se desgastariam o governo como as concessionárias.
Assim, pois, a prioridade é garantir no feriadão extenso que tudo opere direitinho, nada falhe e há tempo suficiente para prever. Não esquecer que a tal ‘‘marcha’’ pelo Brasil pode afetar o processo e também criar um fato destinado a provocar a repressão. Essa marcha, que apenas tira votos da oposição, pode, no desespero, desgastar o governo se os marchadores obstruírem as praças de pedágio. Sem perder a ternura, a PM pode agir com firmeza para o bem da maioria e angústia da minoria radical.
Quanto ao aspecto jurídico, o governo recorre e tenta reverter a decisão tanto no TR de Porto Alegre (agravo regimental), como no juiz singular (agravo de instrumento). A presidente do TR fulminou as razões de recurso.
SPRAY Em Apucarana, conforme a Alvorada, Lerner está com 53.8% e Requião com apenas 20%. Isso depois do horário eleitoral: Requião perdeu 9 pontos, Lerner ganhou 8. - Em Londrina, a distância é menor: 12 pontos (41,6% a 29,6%). Quase um empate com a sondagem anterior (dia 19). - Em Apucarana, quem caiu foi Álvaro Dias: estava com 58.3% e caiu para 45.8%. - A oposição está colocando no ar o resultado da Brasmarket, que dá 42,3% para Lerner e 37,6% para Requião. Todos resolveram apostar nesse índice e não nos do Datafolha, ‘‘Vox Populi’’ e Ibope. - A vinda de FHC ao Paraná (aqui ele goleia Lula de 52% a 19%) e mais a sua declaração formal de apoio a Lerner representam outro impulso favorável. Já Requião, à medida que se aproxima de Lula, sofre rejeição, daí a cautela de administrar essa identificação.
FOLCLORE Se a lista das Monica Lewinsky do Palácio Iguaçu, prometida por Requião, não sair, vai justificar a observação do lernerista: ‘‘Isso aí não passa de coisa chupada dos Estados Unidos da América do Norte!’’
CROMO Na busca da bola no campo de golfe o encontro do ovo de quero-quero e o ataque rasante da defensora da futura ninhada.
AFORÍSTICO Lembram do Gastão, o Vomitador, do ‘‘Pasquim’’: ele se fartaria nesta campanha eleitoral.

mockup