Luiz Geraldo Mazza
10 anos de um equívoco
Está aí: como não poderia deixar de ser, tentou-se ontem politizar ao máximo a tropelia de dez anos atrás, governo Álvaro Dias, com os professores. Já há distância histórica, depois inclusive de Lerner dela valer-se para colocar o professorado na linha de frente de sua campanha, para avaliar o caso sem o costumeiro emocionalismo e vitimalismo à moda brasileira. Se os professores fizessem com o Palácio Iguaçu o que fizeram com o Legislativo, por permissão de sua comissão executiva lá permanecendo várias dias, seria a desmoralização sem tamanho da ordem constituída. A intervenção da PM pode até ter sido um tanto quanto exagerada, mas com a analogia feita se mostrou indispensável.
O governador de então como também o seu secretário de Segurança, Antonio Noronha, hoje desembargador, não quiseram assumir os riscos políticos daquilo que seria inevitável, daí os IPMs nulos e anuláveis que se seguiram e que tentaram elidir as responsabilidades dos militares. O cortejamento primário às massas, muito comuns em nosso tempo (não dispomos mais de políticos com um perfil de mínima resistência à essa sedução, como se daria com um Munhoz da Rocha, por exemplo), está presente no fundo dessas ações, da concessão inominável dos deputados estaduais ao permitirem que a turba invadisse o Legislativo e nele permanecesse por longo tempo, e na postura do governador querendo jogar toda a responsabilidade na Polícia Militar, como se nada tivesse a ver com os fatos.
As palavras de ordem continuam as mesmas, a mediocridade do espetáculo prova a inexistência de um diretor de cena: superficialidade, mentira, indisposição a encarar a realidade do Estado brasileiro falido, e insistência em cultivar a fantasia do salário alto para uma categoria numerosa, o que todos sabem impossível por uma imposição aritmética.
Mais uma vez o drama dos professores, que não vai diminuir, serviu apenas para exploração: primeiro para ajudar a eleger Lerner e agora para um gesto de impotência, o de obter uma impossibilidade - a de evitar a vitória de Álvaro. É mais fácil o professorado conseguir tudo o que deseja do que evitar a eleição de Álvaro Dias, também professor, mas há muito fora do basquete, como de resto se dá também com o ex-metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva.

AXIOMA
Um direitista, de olho grande nas indenizações dos torturados de 64, rogava praga: quero ver agora eles investirem na Rússia!


GLOSA Sílvio Sebastiani conversa com Álvaro Dias e pergunta-lhe o rumo.
- Se eu pensar em mim, disputo o Senado.
- E se pensar nos seus companheiros?
- Aí eu disputo o governo.
- E o que o senhor acha que o povo pensa das suas posições?
Segundo Sebastiani, não houve resposta.
BIZARRICE Em Maringá, muita gente querendo dar uma de ‘‘papagaio de pirata’’ para aparecer nas fotos junto a FHC. Quando o candidato Joaquim dos Santos Filho se dirigia para o ponto em que se encontrava o presidente, o também candidato e advogado do PSDB, Genésio Natividade, deu-lhe um encontrão como numa jogada de rugby. ‘‘Foi apenas um corta-luz’’ - explicava.
O FIM DA ALEGRIA O que havia de humor e alegria na política paranaense parece extinguir-se, de forma radical, com a morte de Maurício Fruet. Ninguém como ele exerceu esse ofício com tal carga de prazer, mostrando ser possível unir a ação séria com um toque de divertimento, de graça.
E era esse tom festivo, por vezes dionisíaco, que o tornava vacinado contra as traições e as maldades que sofreu, dando uma resposta de tolerância que o transformava num exemplar único dessa fauna.
A morte de Maurício deixa o ambiente político do Paraná menos vivo e festivo e o torna mais pesado porque despojado de humor e docilidade.
PANAMÁ O militante comunitário João Colbert Bello, em dezembro de 94, fez representação de inconstitucionalidade contra o decreto legislativo 15/92, que juntava à remuneração parlamentar os dispêndios com passagens, telefone, correspondência, moradia, combustível. Em 16 de agosto de 95, uma decisão da 1ª Câmara de Coordenação e Revisão de Matéria e Infra-Constitucional, seguindo o relatório do procurador Geraldo Brindeiro (que mais tarde assumiria o elevado posto de procurador-geral da República, no qual se mantém), propunha, por unanimidade, o encaminhamento à Procuradoria-Geral da República, sugerindo que isso se desse através de uma Adin (Ação Direta de Inconstitucionalidade).
Tudo ficou na mesma, e de lá para cá a mesma regra impera em todos os órgãos legislativos, como se dá especialmente com o Congresso. Aqui em nossa Assembléia, o mais persistente brigador por esse tipo de causa é Florisvaldo Fier, o Doutor Rosinha. Mesmo a bancada petista se acomodou na aceitação das mordomias, tanto na Câmara Municipal, como no Legislativo estadual.
ALEGORIA Nos dez anos do conflito entre PM e professores, o governo, ao pagar as indenizações aos torturados do regime militar, reconheceu a sua culpa nesses lamentáveis episódios. No outro, o das turbulências do Centro Cívico, Álvaro Dias pediu desculpas. Mas no caso de Campo Bonito, onde morreram três PMs e o líder sem-terra, Teixeirinha, o governo já se disse disposto a contestar o pedido indenizatório da viúva Lúcia Mainko da Silva.
FOLCLORE Em Maringá, em meio ao oba-oba do cerco ao presidente Fernando Henrique Cardoso, o delegado regional de polícia Patão, o Aprígio Cardoso, apresenta-se. Ao declinar o nome o presidente, de muito bom humor, diz que é seu parente, seu primo. Ora isso, numa pessoa como o Aprígio, é como ofertar banana para o macaco e ele repicou: ‘‘Parente, excelência, e muito mais próximo do que possa imaginar...’’
EPIGRAMA A Rússia prometeu, e pelo jeito vai cumprir, que acabaria com o capitalismo. Pelo menos naquele país, onde já havia destruído o comunismo.
CROMO Vai ser constrangedor comparar, em termos de cenário e símbolos, as comemorações da Semana da Pátria com o que vimos na Copa do Mundo.
AFORÍSTICO A contaminação do senador Roberto Requião pela rejeição de Lula (no Paraná FHC está ganhando de 52 a 19, a mais elevada contagem de todo o País) é inegável. Se a identificação entre Lerner e FHC, a partir das declarações de ontem, for aprofundada, não vai ser fácil reverter as pesquisas.

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